sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Os Pais da Igreja e a Eucaristia (Irineu, Tertuliano, Clemente e Orígenes) - Parte 2

Irineu de Lyon (130 – 202)

A única obra completa sobrevivente de Irineu é Contra as Heresias. Nela, se dedica principalmente a refutar o gnosticismo. Os gnósticos acreditavam que os seres humanos eram almas divinas presas num mundo material criado por entidades malignas. Esses hereges negavam a natureza humana de Jesus, para eles não fazia sentido a salvação eterna do corpo ou a ressurreição. Esse é o contexto para entender as citações eucarísticas de Irineu, em que enfatiza que Cristo usou elementos materiais e criados como o vinho e o pão para representarem seu sangue e corpo, sustentando que Deus criou tudo o que há no mundo, e sua criação era boa:

Como ainda podem afirmar que a carne se corrompe e não pode participar da vida, quando ela se alimenta do corpo e do sangue do Senhor? Então, ou mudam sua maneira de pensar ou se abstenham de oferecer as ofertas de que falamos acima. Quanto a nós, nossa maneira de pensar está de acordo com a eucaristia e a eucaristia confirma nossa doutrina. Pois lhe oferecemos o que já é seu, proclamando, como é justo, a comunhão e a unidade da carne e do Espírito. Assim como o pão que vem da terra, ao receber a invocação de Deus, já não é pão comum, mas a eucaristia, feita de dois elementos, o terreno e o celeste, do mesmo modo os nossos corpos, por receberem a Eucaristia, já não são corruptíveis por terem a esperança da ressurreição. (Contra as Heresias 4:18:5)

O gnóstico afirmava que a carne não ira ressuscitar. Irineu diz que se sustentam essa crença, não é coerente que eles (os gnósticos) ofereçam o sacrifício da eucaristia. A parte negritada é esclarecedora, após a invocação, o pão já não é mais pão comum, porém de não deixa de ser pão, o que implica numa negação da transubstanciação. Se Irineu sustentasse esta doutrina, diria que o pão deixa de ser pão e passaria a ser literalmente o corpo de Cristo. Também afirma que a eucaristia é feita de dois elementos: terreno e celeste, ou seja, o elemento terrestre (pão e vinho) continua lá, não foi transmutado, nem deixou de existir. Há agora a presença de um elemento celeste (Jesus Cristo). Mas qual seria a natureza da presença deste elemento celeste? física ou apenas espiritual? Não há como afirmar certamente. Tanto a consubstanciação luterana que afirma a presença física juntamente com a continuidade dos elementos, como a visão reformada da presença espiritual se encaixariam nas palavras de Irineu. Mas, definitivamente, a transubstanciação não poderia ser.

Ele também ilustra na seguinte citação que a Igreja Universal reconhecia que o altar no qual nós oferecemos nossos dons para Deus está no céu. E o céu é o lugar para onde a nossa adoração é dirigida, não para os elementos eucarísticos.

Ele não precisa destas coisas, contudo quer que as façamos para o nosso bem, a fim de não sermos infrutuosos; e o próprio Verbo prescreveu ao povo que faça as oblações, embora não precisasse delas, para que aprendessem a servir a Deus, como quer que nós também ofereçamos continuamente e sem interrupção nossos dons no altar. Há, portanto, altar nos céus, aonde sobem as nossas preces e oferendas; e há templo, como diz João no Apocalipse: "Abriu-se o templo de Deus"; e tabernáculo: "Eis - diz - o tabernáculo de Deus, no qual habitará com os homens". (Ibid 4:18:6)

Há também um fragmento existente de Irineu, que lança um pouco mais de luz sobre a questão do pão eucarístico. Aparentemente, durante as perseguições em Lyon, uma das acusações impostas aos cristãos era de canibalismo. Essa acusação foi feita porque os pagãos ouviram que os cristãos comiam o corpo e o sangue de Cristo. Esse fragmento mostra que os cristãos realmente não consideravam a eucaristia como o corpo literal de Cristo:

Porque, quando os gregos, depois de ter prendido os escravos de catecúmenos cristãos, em seguida, usaram da força contra eles, a fim de saber deles algum segredo coisa [praticada] entre os cristãos, estes escravos, não tendo nada a dizer que iria satisfazer os desejos de seus algozes, exceto o que eles [os escravos] tinham ouvido falar de seus senhores que a divina comunhão a era o corpo e o sangue de Cristo, e imaginando que realmente era carne e sangue, deram aos seus inquisidores este tipo de resposta. Então, estes últimos, presumindo tal ser o caso no que diz respeito às práticas dos cristãos, deram estas informações para outros gregos, e obrigaram os mártires Sanctus e Blandina a confessarem, sob a influência da tortura [que a alegação era correta]. Para estes homens, Blandina respondeu muito admiravelmente com estas palavras: 'Como devem as pessoas suportarem estas [acusações], que, por causa da prática [de piedade], não aproveitaram até mesmo da carne que era permitido [para comer]?' (Fragmentos 13)

Os escravos tinham ouvido falar de seus senhores que a eucaristia é o corpo e o sangue de Cristo e assim confessaram. Mas Irineu esclarece para nós que os escravos confessaram na ignorância, dizendo que eles imaginavam ser, na verdade, de carne e osso. A visão de Irineu se torna ainda mais clara na tentativa dos gregos de fazer ele e Sanctus confessar o mesmo. Eles nem mesmo comeram a carne que era permitida comer, muito menos a carne literal de Cristo.

Irineu acreditava que a Eucaristia é um sacrifício espiritual, no sentido de Hebreus 13:15, não um sacrifício no sentido de que o catolicismo romano ensina:

Aqueles que se familiarizaram com a secundária (ou seja, inferior a Cristo) constituição dos apóstolos, estão cientes de que o Senhor instituiu uma nova oferta na nova aliança, de acordo com a declaração de Malaquias, o profeta. "Pois, do nascente ao poente, meu nome é grande entre as nações e em todo lugar se oferecem ao meu nome o incenso, sacrifícios e oblações puras. Sim, grande é o meu nome entre as nações - diz o Senhor dos exércitos;" como também João no Apocalipse declara: "O incenso é as orações dos santos". Então, novamente, Paulo nos exorta “para apresentar nossos corpos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional". E, novamente, "Vamos oferecer o sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios". Agora, essas oblações não estão de acordo com a lei, a escrita de que o Senhor cancelou, mas elas estão de acordo com o Espírito, pois devemos adorar a Deus em espírito e em verdade. E, portanto, a oblação da Eucaristia não é carnal, mas espiritual; e, neste aspecto, é pura. Nós fazemos uma oblação a Deus com o pão e o cálice da bênção, dando-lhe graças porque Ele ordenou a terra para produzir esses frutos para a nossa alimentação. E então, quando temos aperfeiçoado a oblação, invocamos o Espírito Santo, para que Ele possa apresentar esse sacrifício, tanto o pão do corpo de Cristo, e do cálice do sangue de Cristo, em ordenar que os receptores desses antitipos podem obter a remissão dos pecados e a vida eterna. As pessoas, então, que realizam estas oblações em memória do Senhor, não caem numa visão judia, mas, realizando o serviço de uma maneira espiritual, eles serão chamados filhos de sabedoria. (Ibid 37)

O bispo de Lyon não concebia a eucaristia como o sacrifício literal de Cristo. O sacrifício era espiritual, era uma oferta de louvor e gratidão a Deus. Ainda cita passagens neotestamentárias que corroboram a natureza espiritual desse, ligando-as à profecia de Malaquias. Assim como outros Pais da Igreja do século II, o bispo de Lyon desconhecia o sacrifício propiciatório da Missa.

Tertuliano de Cartago (160 – 220)

Em sua obra “Sobre a Ressurreição da Carne”, Tertuliano comenta sobre João 6, texto exaustivamente usado pelos romanistas como evidência da transubstanciação:

Eles consideraram que seu discurso foi severo e intolerável, supondo que ele tinha realmente e literalmente os intimado a comer sua carne. Ele, com a visão de ordenar o estado de salvação como algo espiritual, estabeleceu como princípio, Ele é o espírito que vivifica; e depois acrescentou: A carne para nada aproveita - ou seja, é claro, para vivificar. Ele também passa a explicar o que queria nos fazer compreender por espírito: As palavras que eu vos disse são espírito e vida. Em certo sentido, como Ele havia dito anteriormente: Aquele que ouve as minhas palavras, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna, e não entrará em condenação, mas passará da morte para a vida. Constituindo, assim, a sua palavra como o princípio que vivifica, porque esta palavra é espírito e vida. Ele igualmente chamou sua carne pelo menos nome; porque, também, a palavra se fez carne. Deveríamos, portanto, desejá-lo, a fim de que possamos ter vida, e devorá-lo com o ouvido, e refletir sobre ele com entendimento, e digeri-lo pela fé. (Sobre a Ressurreição da Carne 37)

A citação é bem clara, Tertuliano interpretava as palavras de João 6 como os evangélicos interpretam. Ele deixa claro que a interpretação literalista dos judeus e dos romanistas estava errada. “A carne nada aproveita para vivificar”, não há como conciliar esta afirmação com a crença de que alguém precisa comer a carne de Cristo para ser vivificado. O que iria vivificar o Cristão era ouvir e crer nas palavras do Senhor. O fim da citação é ainda mais esclarecedor. Tertuliano compreendeu que Jesus chamou sua carne de palavra por que a palavra se fez carne, claramente um simbolismo. E ainda diz que devemos “devora-lo com o ouvido”, ou seja, ouvir atentamente suas palavras, e “digeri-lo pela fé”, ou seja, crer nas suas palavras. Percebe-se o uso metafórico do verbo “devorar” e “digerir”.

Então, depois de ter tomado o pão, o deu aos Seus discípulos. Ele fe-lo seu próprio corpo, dizendo: 'Este é o meu corpo', isto é, a figura de meu corpo. Uma figura, no entanto, não poderia ter sido, a menos que houvesse primeiro um corpo verdadeiro. Uma coisa vazia, ou fantasma, é incapaz de ser uma figura (...) No fim, porém, você pode descobrir como antigamente o vinho foi usado como uma figura do sangue, vire a Isaías, que pergunta: "Quem é este que vem de Edom, de Bosor com vestes tingidas de vermelho, tão glorioso no seu traje, na grandeza do seu poder? Por que são as suas vestes vermelhas (...) Ele [Marcião] não entendia como antiga era esta figura do corpo de Cristo, que disse sobre si mesmo  através de Jeremias: Eu era como um cordeiro ou um boi que levam ao matadouro, eu não sabia que eles tramavam contra mim, dizendo: lancemos a árvore em cima de seu pão, o que significa, é claro, a cruz em cima de seu corpo (...) O Espírito profético contempla o Senhor como se Ele já estivesse a caminho de sua paixão, vestido em sua natureza carnal, e como sofreria nela. Ele representa a condição de sangramento de sua carne sob a metáfora de roupas tingidas de vermelho, como se avermelha no processo de pisar e esmagar o vinho, pelo qual os trabalhadores descem avermelhados com o suco do vinho, como os homens manchados de sangue. Muito mais claramente ainda o livro de Gênesis prevê isso, quando (na bênção de Judá, de cuja tribo Cristo estava para vir segundo a carne) que, mesmo assim delineou Cristo na pessoa sobre a qual o patriarca disse: "Ele lavou suas roupas em vinho e suas vestes em sangue de uvas '- em suas vestes, a profecia apontou sua carne e seu sangue apontou no vinho. Assim, Ele agora consagra o seu sangue no vinho, que (pelo patriarca) foi usado como figura do vinho para descrever seu sangue. (Contra Marcião 04:40)

A citação é clara, o pão e vinho são figura do corpo e sangue de Cristo. Alguns apologistas romanistas fazem malabarismos para fugir da óbvia conclusão. Uma alegação comum é que ao chamar de “figura”, Tertuliano se refere ao corpo real que foi tipificado no pão e vinho em profecias do Antigo Testamento. Realmente Tertuliano enxerga tipologias em algumas passagens do A.T, mas quando afirma “figura do meu corpo”, está se referindo às palavras de Jesus na instituição da Eucaristia, e não às profecias. Somente depois ele passará a falar da tipificação nas profecias. Esse pai da Igreja compreendeu que Jesus ao falar “isto é meu corpo” não falava de forma literal, mas metafórica, portanto, é falacioso cita-lo como uma testemunha da transubstanciação.

A intenção neste trecho é refutar a heresia de Marcião que dizia que o corpo de Cristo era apenas aparente. Para isso, ele usa um argumento eficaz – se Cristo não tinha carne ou sangue, como pode ter instituído algo simbolizado (figurando) sua carne e sangue? O mesmo tipo de argumento tratamos em Inácio, se Cristo não tivesse um corpo real, Ele não poderia instituir algo representando o que não existia. A forma como Tertuliano interpreta as profecias também depõe contra a doutrina romanista – ele interpreta as palavras de Jeremias “lancemos a árvore em cima de seu pão” como “a cruz em cima de seu corpo” – a profecia é utilizada para prefigurar um evento claramente simbólico, pois nem mesmo o romanista diria que o pão se transubstanciou no corpo de Cristo no momento da crucificação. Ou seja, a profecia é vista como tipificando um evento simbólico, assim como o pão eucarístico também é simbólico. Caso ele acreditasse na conversão dos elementos, usaria esta tipologia para apontar um evento literal, e não manifestamente metafórico como esse. A mesma coisa faz com a profecia de Isaías para a metáfora vinho-sangue.

De fato, até o presente momento, ele não desprezava a água que o Criador fez para as pessoas se lavarem, nem o óleo com o qual ele os unge, nem a união de mel e leite, que ele dá para a nutrição das crianças; nem o pão com o qual ele representa o seu próprio corpo, exigindo, portanto, em seus próprios sacramentos os "elementos desprezíveis" do Criador. (Ibid., 01:14)

O pai da Igreja, para refutar a ideia marcionita de que o mundo material é mau e inferior, argumenta que Cristo usou e valorizou os próprios elementos materiais da criação, que Marcião considerava “elementos desprezíveis”. Então, ele cita o pão que representa o corpo de Cristo.

Depois de tamanha evidência, o romanista pode querer usar ainda mais dois argumentos. O primeiro é de que Tertuliano chamou a Eucaristia de sacramento – isso por si só não prova nada, afinal outras visões eucarísticas como consubstanciação ou presença espiritual também a chamam de sacramento, que nada mais é do que uma palavra de origem latina para mistério. Sem contar que a visão tertulianista dos sacramentos difere da romanista.

O segundo argumento é trazer a seguinte citação:

Nós sentimos pesar quando algum pão ou vinho, mesmo sendo nosso próprio, cai sobre o chão. (Sobre a Coroa 3)
 
O argumento é que o cuidado especial com o pão e o vinho prova a transubstanciação dos elementos. O contexto desse capítulo não aponta que ele se refere aos elementos da eucaristia. Ele está descrevendo costumes não escritos que a Igreja do período praticava como fazer o sinal da cruz em qualquer etapa do dia, negar o diabo no batismo e outros. Uma evidência para se acreditar que Tertuliano não se referia ao pão e o vinho da eucaristia é que ele continua a chama-los de pão e vinho, quando em outras obras, ele os chama de corpo e sangue de Cristo.  Então há duas hipóteses: (1) ele falava de pão e vinho comum ou (2) falava do pão e vinho eucarísticos, mas, mesmo após a consagração, continuava a apresentar os elementos como pão e vinho. Dessa forma, em ambas as hipóteses, a posição romanista é contrariada, pois ele deveria passar a considerar os elementos literalmente o corpo e o sangue, caso sustentasse a conversão dos elementos.

Como já arguido neste artigo, o cuidado especial com os elementos não prova sequer uma presença física, quanto mais a conversão deles. Mesmo alguém que toma os elementos como símbolos, apresenta um respeito especial pelos elementos, pois eles simbolizam algo de inestimável valor (corpo e sangue de Jesus). Nós tendemos a respeitar os símbolos como respeitamos o que é simbolizado.

Muitos católicos romanos ficam temorosos sobre o que fazer com imagens quebradas ou outros objetos de devoção danificados:

As capelas da roça, as cruzes à beira das estradas e os cruzeiros dos cemitérios do nosso imenso Brasil são lugares onde muitas pessoas costumam colocar as imagens quebradas, terços arrebentados e outros objetos de devoção que se estragaram. Muitas pessoas colocam esses objetos em tais lugares porque imaginam que é falta de respeito jogar no lixo aquele objeto que lhe ajudou a rezar, a conseguir graças ou a confiar mais em Deus(Fonte)

Nem por isso, eles creem que estes objetos contem uma presença física do que representam. Desta forma, esse argumento é apenas uma falácia.

Clemente de Alexandria (150 – 215)

Assim como os evangélicos, Clemente interpretava João 6 de forma metafórica:

Pois a mesma Palavra é fluida e suave como leite, ou sólida e compacta como carne. E detendo-nos neste ponto de vista, podemos considerar a proclamação do Evangelho, que está universalmente difundido, como leite; e como carne a fé, pela qual a instrução é compactada num fundamento, que, sendo mais substancial que o ouvir, é semelhante à carne, e a própria alma assimila nutrição deste tipo. Noutro lado o Senhor, no Evangelho segundo João, menciona isto mediante símbolos, quando disse: "Comei a minha carne e bebei o meu sangue" [João 6:34]; descrevendo claramente por metáfora as propriedades bebíveis da fé e da promessa, por meio da qual a Igreja, como um ser humano composto de muitos membros, é refrescada e cresce, é ligada e compactada por ambas – pela fé, que é o corpo, e pela esperança que é a alma; como também o Senhor de carne e sangue (O Pedagogo 1:6)

Na mesma citação, Clemente prossegue explicando a natureza figurativa das palavras de Cristo:

"Comei a minha carne", diz, "e bebei o meu sangue." [João 6:53-54]. Tal é o adequado alimento que o Senhor ministra, e Ele oferece a sua carne e entrega o seu sangue, e nada falta para o crescimento das crianças. Oh surpreendente mistério! Somos intimados a abandonar a velha e carnal corrupção, como também a velha alimentação, recebendo em troca outro novo regime, aquele de Cristo, recebendo-o se pudermos, para guardá-lo em nosso interior; e que, ao guardar o Salvador em nossas almas como num santuário, possamos corrigir as afecções da nossa carne.  Mas não estais inclinados a entendê-lo deste modo, mas talvez mais geralmente. Ouvi-o também da seguinte maneira. A carne figurativamente representa para nós o Espírito Santo; pois a carne foi criada por Ele. O sangue nos aponta a Palavra, pois como rico sangue a Palavra foi infundida na vida; e a união de ambas é o Senhor, o alimento dos bebés – o Senhor que é Espírito e Verbo. O alimento – isto é, o Senhor Jesus – isto é, o Verbo de Deus, o Espírito feito carne, a carne celestial santificada. (Ibid)

Além disso, o Verbo declara ser Ele próprio o pão do céu. "Pois Moisés", diz, "não vos deu o pão do céu, mas meu Pai vos deu o verdadeiro pão do céu. Pois o pão de Deus é Aquele que desceu do céu, e dá vida ao mundo. E o pão que eu darei é a minha carne, a qual darei pela vida do mundo." [João 6: 32-33,51] (...) Mas uma vez que Ele disse "E o pão que darei é a minha carne" e uma vez que a carne é humedecida com sangue, e o sangue é denominado figurativamente vinho (...) Assim, de muitas maneiras o Verbo é figurativamente descrito, como alimento, carne, comida, pão, sangue e leite. O Senhor é tudo isto, para dar-nos desfrute a nós que cremos nele. Que ninguém pense que é estranho, quando dizemos que o sangue do Senhor é figurativamente representado como leite. Pois, não é figurativamente representado como vinho? "Quem lava", diz-se, "a sua vestimenta em vinho, a sua túnica no sangue da videira" [Génesis 49: 11]. No seu próprio Espírito diz que revestirá o corpo do Verbo; como certamente pelo seu próprio Espírito nutrirá os que tenham fome do Verbo. (Ibid)

É bem claro, não necessitando muitas explicações. Ele explica as várias metáforas usadas para representar a carne e o sangue de Jesus, utilizando passagens que os católicos romanos interpretam literalmente. Ainda diz que não se deve estranhar representar o sangue de Jesus como leite, afinal já era costume representar figuradamente o sangue dele como vinho. Clemente de Alexandria se refere a Jesus bebendo vinho [real] na última ceia, citando Mateus 26:29, e refere-se à última ceia como exemplo de como os cristãos devem se conduzir quando bebem vinho:

De que maneira você acha que o Senhor bebeu quando se fez homem por amor a nós? Descaradamente como nós? Foi sem decoro e decência? Foi deliberadamente? Por certo, Ele próprio também participou de vinho, pois Ele, também era homem e abençoou o vinho, dizendo: "Tomai, bebei: este é o meu sangue" - o sangue da videira. Ele figurativamente chama a Palavra "derramado por muitos, para remissão dos pecados" - o santo fluxo de alegria. E quem bebe deve ter moderação. Ele mostrou claramente por que ensinou em festas. Por que não ensinou afetado pelo vinho. E esse foi o vinho abençoado, mostrou novamente, quando disse aos seus discípulos: "não mais tomarei deste fruto da videira até aquele dia em que beberei o novo vinho, convosco, no Reino de meu Pai". Mas este era o vinho bebido pelo Senhor. Diz-nos outra vez, quando falou a respeito de si mesmo, repreendendo os judeus por sua dureza de coração: "Porque o Filho do homem", Ele diz, "veio, e eles dizem, Eis aí um glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos". (Ibid., 2:2).

O fato de usar a ultima ceia como exemplo para instruir os cristãos quanto ao consumo de vinho prova que não acreditava na conversão deste elemento em sangue literal.  Sua linha de raciocínio perderia qualquer sentido, caso acreditasse que ali não tinha mais vinho, mas o sangue de Cristo.

Se, então, o "leite" é dito pelo apóstolo a pertencer aos pequeninos, e "alimento sólido" para ser o alimento do adulto, o leite será entendido como a instrução catequética - o primeiro alimento, como se fosse , da alma. O alimento sólido é a contemplação mística; para isso é a carne e o sangue da Palavra [Cristo], ou seja, a compreensão do poder divino e essência. "Prove e veja que o Senhor é Cristo", diz-se. Por isso Ele dá de Si mesmo para aqueles que participam desses alimentos de forma mais espiritual. (Stromata 5:10)

Ele está interpretando 1 Coríntios 3:2, no qual Paulo diz que havia dado apenas leite e não alimento sólido à Igreja de Corinto. Em meio às analogias, mais uma vez, a carne e sangue de Jesus são envolvidos em metáforas “compreensão do poder divino e essência”. Também afirma que Cristo dá a si mesmo como alimento espiritual – palavras incompatíveis com a doutrina literalista.

Orígenes (185 – 254)

Orígenes foi aluno de Clemente, sua compreensão da eucaristia é semelhante à dele:

Ora, se "tudo o que entra pela boca vai para o estômago e é lançado na latrina" até a comida que foi santificada através da palavra de Deus e da oração, em conformidade com o fato de que é material, vai para o estômago e é lançada na latrina, mas por causa da oração que vem sobre ela, conforme a medida da fé, torna-se um benefício e é um meio de ver claramente para a mente que procura o que é benéfico, e não é a matéria do pão mas a palavra que é dita sobre ele o que aproveita ao que come não indignamente do Senhor. E estas coisas certamente são ditas do corpo típico e simbólico. Mas muitas coisas poderiam dizer-se acerca do próprio Verbo que se fez carne, e verdadeira comida da qual o que come viverá seguramente para sempre, não sendo capaz de comer dela nenhuma pessoa indigna; pois se fosse possível para alguém que continua indigno comer d`Aquele que se fez carne, que era o Verbo e o pão vivo, não se teria escrito que "todo o que come deste pão viverá para sempre. (Comentário sobre Mateus 11:14)

Estamos muito mais preocupados por não ser desagradecidos para com Deus, que nos encheu com os seus benefícios, de cuja obra somos, que nos cuida em qualquer condição que nos achemos, e que nos deu esperança de coisas além da vida presente. E temos um símbolo de gratidão a Deus no pão que chamamos a Eucaristia. (Contra Celso 8:57)

Orígenes diz que o corpo é simbólico. Note-se que para ele, o elemento pão em si não era de nada muito proveitoso, mas sim as palavras ditas sobre ele. Seria uma afirmação estranha caso viesse de alguém que acredita na conversão do elemento pão no corpo de Cristo. Todo o contexto da citação traz esta ênfase – certo desprezo pela matéria em si, e uma maior importância da mensagem transmitida no ato. Essa posição se amolda perfeitamente ao ponto de vista simbólico da Eucaristia, e traz sérias dificuldades para aqueles que defendem uma presença física. Ele também se refere à Eucaristia como símbolo de gratidão, posição estranha se cresse na Eucaristia como sacrifício propiciatório pelos pecados.

Quando católicos romanos usam os pais da Igreja em apoio a sua doutrina, costumam trazer citações em que afirmam que o pão e o vinho são o corpo e sangue de Cristo. Esse é um argumento simplista e falacioso, é natural que eles usassem esta terminologia, pois foram os termos que Jesus usou. Da mesma forma como Jesus usava a mesma terminologia para dizer que era a porta, a videira, a luz, sem obviamente estar falando literalmente. A questão é extrair dos escritos patrísticos como as palavras do Filho de Deus foram compreendidas, e vimos até aqui que eles não compreendiam como o catolicismo romano. Observa-se que muitas vezes os pais da Igreja se referiam aos elementos já consagrados como pão e vinho, demonstrando que não acreditam numa conversão desses. Foi o caso de Orígenes que se referiu a eucaristia como pão e não como o corpo/carne. Isso mostra que ele ter dito em outras passagens que o pão é o corpo de Cristo não prova em nada que sua crença era literal. Se ainda resta alguma dúvida, analisemos a citação abaixo:

Este pão, que o Verbo de Deus diz ser o seu corpo, é a Palavra que alimenta as almas, o Verbo que procede do Verbo Deus; é pão celestial, que está colocado encima da mesa, do qual está escrito: "Tu pões perante mim uma mesa, em frente dos meus inimigos" [Salmo 22:5]. E essa bebida que o Verbo Deus diz ser o seu sangue, é a Palavra que sacia e inebria os corações dos que bebem; da bebida deste cálice está escrito: Que bom é o teu embriagador cálice! (...) O Verbo Deus não chamou seu corpo àquele pão visível que tinha nas suas mãos, mas à Palavra, em cujo mistério devia partir-se o pão. Não chamou seu sangue àquela bebida visível, mas à Palavra, em cujo mistério se serviria esta bebida. Porque que outra coisa pode ser o corpo ou o sangue do Verbo Deus senão a palavra que alimenta e alegra os corações? (Comentário sobre Mateus série 85)

Não há como conciliar essa opinião como uma crença literal. O pão e o vinho, que Jesus disse ser seu corpo e sangue é a palavra que alimenta e sacia. Ele usou uma metáfora utilizando as próprias palavras de Jesus que alguns creem ser literais, demonstrando que não as tomava literalmente.

Alguns utilizam a seguinte citação para provar o contrário:

Conheceis a vós que assistis aos divinos mistérios, como quando recebeis o corpo do Senhor o guardais com toda cautela e veneração, para que não caia nem um pouco dele, nem desapareça algo do dom consagrado. Porque - corretamente - crês que sereis réus se perderdes algo dele por negligência. E se empregais - corretamente - tanta cautela para conservar o seu corpo, como julgais ser coisa menos ímpia se descuidar de sua palavra que ao seu corpo? (Sobre o Êxodo - Homilia 13:3)

Já respondemos a este argumento. O cuidado especial e o respeito pelos elementos da eucaristia não demonstram a crença romanista. 

2 comentários:

  1. Desonestidade é o dorte das seitas protestantes,eu como estudioso das patrístiscas,me torno é mais Católico,diante de todas essas distorções feitas por fundadores de seitas protestantes,que são totalmente refutadas tanto pelo oriente quanto pelo ocidente!! Deus julgará todas as calúnias protestants!!

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    1. Interessante.... comigo tem sido o contrário, quanto mais estudo a história (aí incluso a patristica) mais convencido estou de que o romanismo é sério desvio doutrinário.

      No mais, caso volte a comentar aqui, gostaria que você apresentasse algumas dessas "refutações".

      No mais, Oriente e Ocidente não tem a mesma explicação da Eucaristia. Os orientais não lançam mão da transubstanciacao (uma deturpação da filosofia aristotélica) em sua doutrina da Eucaristia.

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