quarta-feira, 18 de outubro de 2017

C. S Lewis e uma Simples Razão para Rejeitar o Catolicismo Romano


C. S Lewis dispensa apresentações. É considerado um dos maiores apologistas cristãos de todos os tempos. Cresceu como um ateu e se converteu ao cristianismo anglicano. Ele também conseguiu um feito considerável – ser muito prestigiado nos círculos católicos e protestantes. Lewis se dedicou a defender o que chamava de “mero cristianismo” – os fundamentos básicos comuns a todas as tradições cristãs. Dessa forma, ele dificilmente se envolvia em polêmicas entre católicos e protestantes. Todavia, ele ofereceu aquele que considero o melhor motivo para rejeitar o catolicismo romano:

A Igreja Romana, onde ela difere da tradição universal e especialmente do cristianismo apostólico, eu rejeito. Assim, a sua teologia sobre a Virgem Maria rejeito porque parece totalmente estranha ao Novo Testamento; onde de fato as palavras "bem-aventurado o ventre que te gerou" recebem uma tréplica apontando na direção exatamente oposta. Seu papalismo parece igualmente estranho a atitude de São Paulo em direção a São Pedro nas epístolas. A doutrina da transubstanciação insiste numa definição que o Novo Testamento me parece não aprovar. Em outras palavras, todo o setup do catolicismo moderno me parece ser tanto uma variação provincial da central e antiga tradição como qualquer seita protestante em particular é. Devo, portanto, rejeitar o seu pedido: embora isso, naturalmente, não significa rejeitar determinadas coisas que eles dizem. (Letter of C. S. Lewis to H. Lyman Stebbins, “The Boldness of a Stranger”)

E o argumento principal:

A verdadeira razão pela qual eu não posso estar em comunhão com vocês [católicos] não é o meu desacordo com esta ou aquela doutrina romana, mas ter que aceitar sua forma de Igreja, não para aceitar um determinado corpo de doutrina, mas para aceitar com antecedência qualquer doutrina que sua Igreja produzir no futuro. É como ser solicitado a concordar não só com o que um homem tem dito, mas também como o que ele vai dizer. (Christian Reunion”, in Christian Reunion and Other Essays, edited by Walter Hooper, London: Collins, 1990, p. 17-18)

Aderir ao catolicismo romano é como passar um cheque em branco. Você não sabe de fato o valor que será “cobrado”. Ainda que uma pessoa estude profundamente a Escritura e a história e chegue à conclusão de que a igreja romana está certa em todas as suas reivindicações (uma conclusão absurda obviamente), não seria suficiente. Esta pessoa teria que concordar não somente com tudo o que a Igreja ensinou, mas com tudo que ela ainda vai ensinar. É um passo tão grande que até mesmo os católicos têm dificuldade de dá-lo. Atualmente, há na igreja romana diversos grupos afirmando que o papa apostatou e abandonou o ensino histórico da igreja (vide as recentes polêmicas sobre a pena de morte, distribuição da comunhão para recasados, salvação fora da igreja e etc).

Lewis também foi responsável por oferecer antídoto para os desvios do romanismo. Michael Edwards, comentando uma resposta a uma carta que recebeu de Lewis em 2 de novembro de 1959, afirma:

Isso foi em resposta a um pedido de uma reunião pessoal para me ajudar a resolver duas áreas problemáticas diferentes (1) em que denominação cristã eu deveria me fixar (...) Eu nunca me senti feliz como evangélico. Eu estava considerando seriamente tornar-me católico romano (...) Eu estava aborrecido com o problema da infalibilidade papal e Lewis recomendou que eu lesse "A Infalibilidade da Igreja" por Salmon. Isso, de fato, me ajudou a resolver a questão. (Douglas M. Jones III, Foreword to Keith Mathison's The Shape of Sola Scriptura (Moscow, ID: Canon Press), p. 248)

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

A Oração aos Santos no Período Pós-Niceno


Nas últimas semanas voltei a discutir a oração aos santos nos três primeiros séculos da Igreja. Veja (aqui e aqui). Como demonstrado, a doutrina romana não encontra nenhum apoio patrístico nesse período. Além disso, diversos pais da Igreja desse período se manifestaram de forma incompatível a oração aos falecidos. Alguns católicos comentaram no blog, mas ao invés de desafiaram minhas conclusões, eles apelaram ao argumento que vários Pais da Igreja após Niceia (sec. IV em diante) apoiam a oração aos falecidos. Sendo assim, como esses homens poderiam apoiar uma prática que teria sido rejeitado pela Igreja no princípio? Deixo abaixo os comentários de um católico que utiliza tal argumento:

Convenhamos que para vcs protestantes pouco importa se é possível provar por meio de escritos algo que tenha sido praticado desde o início. Mesmo assim vcs não aceitam. Se fosse assim já teriam acreditado na Eucaristia por exemplo que é nitidamente ensinado desde os séculos I e II, entre outras coisas claras também. 

Primeiramente, os Protestantes acreditam na Eucaristia. O que rejeitamos é a ideia absurda da transubstanciação. A visão espiritual (visão de Calvino) da Eucaristia foi compartilhada por muitos pais da igreja e mesmo a visão simbólica, embora com menor apoio, contou com alguns defensores. É totalmente falsa a alegação de que a Igreja desde o início ensinou a transubstanciação (aqui). O problema é que as doutrinas romanas não podem ser rastreadas até o início. Se pudessem, os católicos não precisariam apelar a Pais da Igreja que viveram séculos depois dos fatos. Eles poderiam apontar para o testemunho apostólico e dizer “aqui está”. Como argumentei exaustivamente, o tema da oração foi muitíssimo abordado na Escritura e na patrística. Se orar aos santos é uma prática herdada dos apóstolos, porque não se encontra evidência favorável mais antiga? Porque algo tão importante na espiritualidade católica seria ignorado por séculos e séculos?

Quanto a crença na intercessão dos santos, ela não era algo incomum, praticado apenas por um grupo ou outro como vc afirma. Santo Agostinho por exemplo expõe muitíssimas vezes testemunhos de pessoas que alcançaram graças de Deus por meio da intercessão dos santos, principalmente de Santo Estevão. Lendo os sermões de Agostinho vc percebe que era algo muito comum praticado pela igreja:
São muitos os que sabem quantos milagres são realizados nesta cidade pelo bem-aventurado mártir Estevão. (Santo Agostinho, Sermão 323)

Eu trouxe várias citações dos três primeiros séculos. Se o católico deseja desafiar minhas conclusões, é nesse período que ele deveria provar o contrário. Mas o que ele traz? O suposto testemunho de Agostinho que escreveu no início do século quinto.  Embora Agostinho narre que pessoas oraram para os mártires, é controverso que ele pessoalmente apoiasse a oração aos santos (aqui). Além disso, não há nada em Agostinho que sugira que tal prática era um artigo de fé. Os católicos geralmente não fazem esse tipo de distinção. Uma prática poderia ser tolerada na Igreja, mas isso não implicaria que se tratava de um artigo de fé.

Se a prática da intercessão dos santos não fosse um artigo de fé, certamente muitos teriam se levantado contra ela, ainda mais tendo se tornado tão comum, seria conveniente que a igreja combatesse isso, no entanto, vemos os grandes doutores da igreja como Agostinho, Gregório de Nissa, Gregório de Nanzianzo, Jerônimo entre outros, ensinando essa prática. Então porque nenhum dos pais da igreja ensinaram contra? Porque não houve nenhum concílio que se opôs contra essa prática? Muito pelo contrário, pois no primeiro grande concílio de Niceia em 325 onde foi formado o CREDO DA IGREJA CATÓLICA que é repetido até hoje, diz o seguinte: CREMOS NA COMUNHÃO DOS SANTOS.

Esse argumento tem os seguintes problemas:

1. Mesmo no período pós-niceno houve sim oposição a oração aos mortos. Vigilâncio se opôs a essa prática. Ademais, ele era um presbítero da Igreja e como o próprio Jerônimo reconhece, tinha o suporte de bispos da Igreja e cristãos leigos (Contra Vigilâncio cap. 2-3). Na Epístola 109, Jerônimo ainda diz: “Surpreende-me que o santo bispo em cuja paróquia, pelo que dizem, [Vigilâncio] é presbítero, concorde com esta loucura (...).

2. Os Concílios foram medidas excepcionais na história da Igreja. Não houve nenhum Concílio a se opor diretamente ao gnosticismo. Alguém então negaria a repreensão dessa heresia? Obviamente não. Os Pais da Igreja do séc. II se opuseram ferozmente ao gnosticismo e isso é mais do que suficiente elucidar qual era a doutrina da Igreja. Porque em relação a oração aos mortos deveria ser diferente? Além disso, nos três primeiros séculos da Igreja não houve qualquer concílio ecumênico. Alguém então diria que a Igreja não combatia as heresias que surgiram porque não houve concílio ecumênico nesse período? Obviamente não. Se o critério para definir o que é ou não heresia for uma decisão conciliar, o gnosticsimo, o montanismo e diversas outras correntes não poderiam ser consideradas heréticas. Dessa forma, em regra as heresias não eram objeto de decisão conciliar. 

3. A utilização do Concílio de Niceia é totalmente abusiva. Não há qualquer documentação referente a Niceia ou aos bispos que dele participaram que sugiram o que o católico alega. Se ele deseja defender que os pais nicenos tinham em mente a oração aos mortos quando falavam em Comunhão dos Santos, o católico precisar mostrar evidências disso e não apenas pressupor. O que a Igreja Romana hoje entende por Comunhão dos Santos é irrelevante para determinar o que os cristãos dos primeiros séculos entendiam por tal (vimos que a evidência sugere uma leitura não favorável a oração aos mortos).

4. O católico tem uma visão irreal da história da Igreja. A história está cheia de rupturas. Poderíamos aqui citar uma longa lista de ideias que não estavam presentes no início e foram aceitas mais tarde. Os Pais pré-nicenos foram severamente contrários ao uso de imagens no culto cristão (aqui  e aqui). No entanto, esta prática seria aceita séculos depois. Os Pais da Igreja mais antigos eram milenaristas, todavia a posição amilenista prevaleceria na Igreja posterior. Os Pais mais antigos eram contrários ao envolvimento da Igreja com o Estado e ao uso da força em prol da religião. Todavia, a Igreja posterior se aliaria ao Estado e passou a defender o uso da força contra os hereges (Agostinho foi o principal defensor dessa ideia).
  
Isso significa que desde já, estamos misticamente unidos, desfrutando do convívio com todos estes. Os fiéis do céu e da terra encontram-se unidos em comunhão na pessoa de Cristo. Este é o significado da Comunhão dos Santos. É Jesus, cabeça do corpo quem possibilita todas as coisas. É tão óbvio que a igreja no céu possa interceder pela igreja na terra, que negar isso fere o conceito de unidade do cristianismo. Afinal, de que adiantaria eu buscar viver a santidade e ser salvo, e quando for para o céu, eu não vou poder ajudar meus irmãos na terra de algum modo? Somos todos um só corpo 1COR12, todos uma só família, os do céu e da terra Ef 3,15.

Como os católicos não podem apresentar provas bíblicas em favor de sua doutrina, eles precisam apelar às falsas implicações. É verdade que uma doutrina não precisa estar explicitamente contida no texto bíblico para ser verdadeira. Não há um texto afirmando que Deus Pai, Jesus e Espírito Santo formam uma trindade. Todavia, a Escritura contém afirmações que implicam na Trindade. O problema é que a doutrina da comunhão dos Santos não implica em oração aos santos. Vejam a falha do argumento: os cristãos na terra estão em comunhão, mas se eu orar a um cristão na China, ele simplesmente não irá me ouvir. Se eu orar a meus irmãos de Igreja pedindo que eles intercedam por mim a Deus, eles simplesmente não me ouvirão. Se isso é um fato, mesmo eu estando em comunhão com eles, porque então a comunhão com os cristãos que já faleceram implica que eles ouvem minhas orações? Como um santo poderia ouvir milhões de orações feitas pelo mundo inteiro, decidir quais delas merecem sua intercessão e leva-las a Deus? Os cristãos não têm essa capacidade aqui na terra, porque teriam no céu?

Há uma segunda posição que diz que os crentes no céu oram pela Igreja na terra, sem afirmar que devemos orar a eles (acredito que Calvino a apoiava). Essa ideia é menos problemática, mas seria temerário torná-la um artigo de fé. Nenhum de nós pode ter informações sobre o pós-morte pela experiência. Dessa forma, para fazermos afirmações convictas sobre o pós-morte carecemos de dados da revelação divina. Ocorre que a revelação nada nos diz sobre os cristãos no céu orando por nós. É cabível até perguntar se eles mantem suas memórias da vida que aqui levaram. Não há resposta para isso na revelação. Assim, acreditar que os crentes no céu oram por nós é uma crença piedosa que não fere as verdades do Evangelho, mas devido ao caráter especulativo, jamais poderia ser alçada a artigo de fé. 

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Oração aos Santos e o desespero católico para provar mais uma de suas inovações


A ausência de evidência positiva para a invocação dos santos é muito relevante uma vez que o tema da oração é exaustivamente discutido pelos pais da igreja (mesmo os mais antigos). Some-se a isso o fato de que a Escritura também trata exaustivamente da oração sem apoiar a doutrina romana. Dessa forma, temos um bom motivo para acreditar que se trata de mais uma inovação que deve ser rejeitada pela Igreja de Cristo.

Eu já escrevi no meu blog um artigo sobre os pais da igreja pré-nicenos e a doutrina da intercessão dos santos. O ponto defendido é que não há nos três primeiros séculos da Igreja evidência de qualquer pai da igreja a favor da oração aos santos ou anjos. Recomendo a todos que leiam o artigo que já responde a maioria das citações e argumentos trazidos pelos apologistas católicos (aqui). Um apologista católico se propôs a refutar meu artigo (aqui). A tentativa de refutação já desmorona logo no início quando usa o seguinte título “Padres da Igreja Pré-Nicênica e a invocação dos santos”. Ou seja, o autor supostamente iria mostrar citações de Pais da Igreja anteriores a Niceia defendendo a invocação (oração) dos santos. Quem se der ao trabalho de ler o artigo perceberá que ele apresentou exatamente ZERO citações.

Quem leu meu artigo anterior percebeu o “truque” católico. Eles pegam citações onde alguns pais da Igreja (séc. III especificamente) dizem que os crentes que estão no céu oram pela Igreja na terra. O problema óbvio é que esses mesmos pais não defenderam que devêssemos orar aos santos e ensinaram que a oração deveria ser oferecida somente a Deus. Outros (especialmente séc. II) não defenderam sequer que os crentes no céu oram pela igreja e em muitos casos se manifestaram de forma incompatível com a doutrina romana. O fato é que eu fiz questão de distinguir claramente isso no meu artigo anterior e o apologista católico finge me refutar usando citações que eu mesmo usei para fazer tal distinção. Se os católicos desejam mesmo provar que sua doutrina sempre foi a crença da Igreja, eles precisam mostrar que a Igreja desde o início ensinou a oração aos santos. Além disso, precisam demonstrar que isso era um artigo de fé da Igreja, não apenas uma prática realizada por um grupo ou outro, mas uma doutrina da Igreja. Os comentários do artigo católico estarão em vermelho. Um erro que desqualifica a refutação é o espantalho criado em cima da doutrina protestante:

“DOUTRINA PROTESTANTE: Os santos não podem interceder pelos vivos pois estão dormindo em estado de inconsciência. Invocar os santos é o mesmo que praticar a evocação dos mortos.”

O autor em questão apenas expressa ignorância sobre o protestantismo, pois o imortalismo é a doutrina predominante entre os protestantes. Sobretudo nas Igrejas tradicionais, é a posição padrão. Todas as confissões de fé protestantes mais antigas (Westminster, Belga, Batista) eram imortalistas. Mesmo atualmente, a Confissão de Fé da Assembleia de Deus (a maioria Igreja evangélica do Brasil) é imortalista. Eu tenho respeito pela posição mortalista (apesar de não ser um), mas é de conhecimento notório que a maioria das Igrejas Protestantes (mesmo as mais recentes) são imortalistas. O católico cria essa dicotomia entre mortalismo e imortalismo porque deseja provar sua doutrina através de falsas implicações. Se um pai da igreja era imortalista, logo ele abraçaria a posição romanista, o que é apenas um non-sequitur. A discussão mortalismo vs imortalismo é distinta da que travamos aqui. O mortalismo é incompatível com a invocação dos santos, todavia o imortalismo não implica necessariamente nesta doutrina.

Pais Apostólicos (90 - 140)

Não há nos pais apostólicos qualquer evidência da doutrina romana. Quem procurar na Didaquê, em Policarpo, Inácio ou Clemente não achará nada. Todavia, através de um malabarismo argumentativo, alguns católicos tomam Inácio:

Meu espírito se sacrifica por vós, não somente agora, mas também quando eu chegar a Deus. Eu ainda estou exposto ao perigo, mas o Pai é fiel, em Jesus Cristo, para atender minha oração e a vossa. Que sejais encontrados nele sem reprovação. (Epístola aos Tralianos 13:3)

O sacrifício de Inácio quando chegasse a Deus seria necessariamente a oração. Ocorre que não há nada nem no contexto imediato ou nas outras cartas que sugira isso. Inácio poderia estar especulando sobre a vida pós-morte, poderia apenas estar sendo enfático sobre sua iniciativa de se sacrificar pela Igreja. Isso tanto é óbvio que o sacrifício de Inácio naquele momento não era orar por sua Igreja, mas ser entregue ao martírio. Mas, suponhamos que o sacrifício em questão fosse orar pela Igreja. Como isso prova a doutrina católica da intercessão? Inácio não diz que os membros de sua Igreja deveriam orar a ele. Mas a conclusão do autor católico é: “E uma dessas é esta que estamos citando, que comprova sim a crença na intercessão dos santos ainda entre os Padres Apostólicos.” Definitivamente não.

Justino Mártir (100 – 165)

Vede o fim que tiveram os imperadores que vos precederam: todos morreram de morte comum. Se a morte terminasse na inconsciência, seria uma boa sorte para todos os malvados. Admitindo, porém, que a consciência permanece em todos os nascidos, não sejais negligentes em convencer-vos e crer que essas coisas são verdade. De fato, a necromancia, o exame das entranhas de crianças inocentes, as evocações das almas humanas e os que são chamados entre os magos de espíritos dos sonhos e espíritos assistentes, os fenômenos que acontecem sob a ação dos que sabem essas coisas devem persuadir-vos de que, mesmo depois da morte, as almas conservam a consciência. (I Apologia 18)

O autor católico diz:

Em primeiro lugar, é interessante notar que o protestante cita um texto que prova a imortalidade da alma e a consciência dos mortos (diferente do que ensina a doutrina protestante que diz que os santos estão “dormindo inconscientemente” e que nossas almas “morrem” com a morte de nosso corpo).

Alguém que se propõe a refutar o outro lado, deveria ao menos pesquisar sobre quem se pretende refutar. Mais adiante, ele faz um dos argumentos católicos mais populares:

Em segundo lugar, é visto que o protestante não conhece a doutrina católica e não entende a diferença entre “invocação” e “evocação”. Uma coisa é invocar um santo, isto é, suplicar-lhe por ajuda, outra coisa é evocar um morto, isto é, trazê-lo de volta à Terra para consulta-lo sobre coisas futuras (“servir de oráculo”). Uma prática simplesmente, não tem nada haver com a outra, só o nome que é parecido. Todos os cristãos desde o princípio da Igreja até os dias de hoje condenam essa prática abominável que é a evocação dos mortos.

Esse é um bom exemplo de algo muito comum na teologia romana – criar palavras diferentes para diferenciar práticas que são iguais em sua essência. Assim surge a diferença entre evocar e invocar, adorar e venerar e outras tantas. Antes de tudo, invocar é pedir o auxílio de alguém e evocar é chamar a presença de alguém. Note que “consultar sobre coisas futuras” pode ser o objetivo da evocação, mas não é em si parte do conceito da palavra. O fato é que tanto evocação como invocação são formas de se comunicar com os mortos. O objetivo de evocar alguém pode ser pedir sua ajuda ou proteção da mesma forma que os católicos fazem quando invocam Maria ou os santos. Diferente do que o autor disse, não são coisas totalmente diferentes. Pelo contrário, são formas distintas de obter a ajuda de alguém já falecido. Lembre-se que o catolicismo é cheio de histórias de aparições de santos falecidos. Percebam quão arbitrária é a distinção. Se é natural que um santo apareça a um fiel, porque então o católico não poderia orar pedindo que fosse alvo de uma aparição? Isso não seria exatamente a evocação? A Bíblia condena a comunicação com os mortos (vide caso de Saul) e como a invocação é um tipo de comunicação com os mortos, é também uma prática condenável.

Agora, se o católico deseja desqualificar o testemunho de Justino, ele precisa demonstrar que o autor fazia esse tipo de distinção (invocação x evocação). Percebam como o católico assume a priori que o pai da igreja fazia a mesma distinção que ele faz, como se Justino fosse um bom católico romano. Ele apenas pressupõe que os pais da igreja pensavam como eles e a partir daí tiram as conclusões – trata-se da falácia da petição de princípio. Justino obviamente não fez tal distinção em suas obras. Assim como outros, ele falou bastante coisa sobre oração e ainda assim nada mencionou sobre orar aos falecidos. Pelo contrário, orar aos falecidos era uma prática dos pagãos de seu tempo e não do ensino da Igreja.

Atenágoras de Atenas (133 – 190)

Por causa da multidão, que não pode distinguir entre a matéria e Deus, ou ver o quão grande é o intervalo que se encontra entre eles, oram a ídolos feitos de matéria, estamos, portanto, aquele não está distinguindo e separando o incriado e o criado, o que aquilo é que não é, aquilo que é apreendido pela compreensão e aquilo que é percebido pelos sentidos, e que dão o nome apropriado para cada um deles - devemos cultuar imagens? ... Porque, se eles não diferem em nenhum aspecto  dos animais (uma vez que é evidente que a Divindade deve diferir das coisas da terra e aqueles que são derivados de matéria), que não são deuses. Como, então, eu pergunto, podemos abordá-los como suplicantes, quando sua origem se assemelha ao do gado, e eles próprios têm a forma de animais, e são feios de se ver?  (Um apelo pelos cristãos 15, 20)
O católico então apresenta seu argumento:

Eu nem preciso expor aqui a diferença entre ícone e ídolo ou entre um santo servo de Deus e um deus pagão. Atenágoras simplesmente não aborda a súplica aos santos nesta obra, mas critica a devoção irracional dos pagãos a seus ídolos.

O autor católico simplesmente não consegue perceber a natureza do argumento. É óbvio que Atenágoras está se referindo a práticas pagãs, mas a natureza do argumento que usa torna muito improvável que tal prática fosse aceita quando realizada num contexto cristão. O argumento é que os pagãos oravam para criaturas, logo sua prática era errônea. A questão é como ele poderia utilizar esse argumento se a Igreja também ensinasse que se deveria orar para criaturas (santos ou anjos)? Se eu dissesse que é pecado usar imagens no culto, eu obviamente não poderia usar imagens na minha Igreja, sejam elas quais forem. Agora se eu desejasse usar imagens no culto da minha Igreja, eu simplesmente diria que há um jeito correto de usar tais imagens ou há imagens que podem ser utilizadas e que outras igrejas apenas estão fazendo da forma errada. Não é o ponto de Atenágoras. Ele condena os pagãos usando um argumento que poderia ser usado contra qualquer um que ora para criaturas. Como dito em meu artigo anterior, uma prática errada não se torna correta somente porque é feita num contexto cristão.

Taciano (120-180)

Gregos, a nossa alma não é imortal por si mesma, mas mortal; ela, porém, é também capaz de não morrer. Com efeito, ela morre e se dissolve com o corpo se não conhece a verdade; ressuscita, porém, novamente com o corpo na consumação do tempo, para receber, como castigo, a morte na imortalidade. Por outro lado, não morre, por mais que se dissolva com o corpo, se adquiriu conhecimento de Deus. (Discurso contra os Gregos, c. 13)

Taciano defende uma posição mortalista, o que é incompatível com a oração aos mortos. Já antevendo algumas objeções, importa dizer que Taciano escreveu esta obra quando ainda fazia parte da Igreja, portanto, apontar sua apostasia futura é irrelevante para a questão.

Irineu de Lyon (130 – 202)

Nem ela [a Igreja] realiza qualquer coisa por meio de invocações angelicais, ou por encantamentos, ou por qualquer outra arte curiosa perversa, mas, dirige suas orações ao Senhor, que fez todas as coisas, em um puro, sincero e íntegro espírito, e invocando o nome de nosso Senhor Jesus Cristo, ela está acostumada a fazer obras milagrosas para o benefício do gênero humano, e não para levá-los ao erro (...) o altar, então, é no céu (para esse lugar são as nossas orações e ofertas dirigidas). (Contra as Heresias 2:32:5 e 4:18:6)

É interessante que o protestante não se dá o trabalho de pesquisar um pouco sobre o contexto dessa passagem. Em primeiro lugar, a obra “Contra as Heresias” é uma refutação à heresia gnóstica. Em segundo lugar: Qualquer um que conheça a obra de Irineu sabe que nesta passagem ele se refere aos “aeões”, criaturas que os gnósticos chamavam de “anjos” e a quem Irineu considera espíritos imundos, demônios. Como explica bem o patrologista René Massuet, Irineu não está abordando a intercessão ou a devoção aos anjos em geral, mas se referindo a invocação desses aeões específicos.

O católico usa o mesmo argumento já demonstrado em Atenágoras. O argumento é que Irineu estava se referindo aos “aeões”, logo não poderia ser usado contra as invocações angelicais. A primeira afirmação é bem disputável, pois não há nada no contexto desta citação que sugira isso. Irineu parece usar o termo anjos de forma genérica. Se o autor católico deseja sustentar isso, ele deveria trazer alguma citação do contexto que aponta nesta direção. Ele apenas diz que é algo óbvio e cita um autor sem sequer trazer qualquer referência.

Mas supondo que ele estivesse certo sobre esse ponto, mais uma vez a natureza do argumento de Irineu é muito clara. Ao condenar os gnósticos pelas invocações angelicais, Irineu cria um antagonismo ente eles e a prática da Igreja. E qual era a prática da Igreja? Orar a Deus. A questão não era “eles oram para o anjo errado, e nós oramos para o anjo certo”, mas sim “enquanto eles oram para anjos, nós oramos para Deus”. Se orar para anjos fosse parte do ensino da Igreja, seria muito improvável que o bispo usasse tal argumento. Irineu também não foi silente sobre oração e nada disse sobre orar a qualquer outro a não ser Deus. Agora, compare isso com os romanistas que não passam um único dia sem orar para alguém que não Deus.

Tertuliano (160 – 220)

Tertuliano viveu no final do final século II ao início do século III. É uma fonte importante não apenas por sua antiguidade, mas também por ter falado sobre a oração diversas vezes, inclusive escrevendo um tratado sobre o tema. Apesar disso, não ensina a oração aos mortos ou intercessão dos santos. Se essa era uma prática estabelecida na Igreja dos seus dias, era de se esperar a presença de clara evidência num autor que se dedicou a escrever tanto sobre a oração. Ele explica que a oração é um sacrifício a Deus, o que excluiria orar a outros além dele:

Nós somos os verdadeiros adoradores e os verdadeiros sacerdotes, que, orando no espírito, sacrifício, em espírito, oração - a vítima adequada e aceitável a Deus, que seguramente Ele tem exigido, o qual Ele tem olhado disposto para si mesmo! Esta vítima, dedicada de todo o coração, alimentada pela fé, tendeu pela verdade, inteira na inocência, puras de castidade, coroada com amor, devemos acompanhar com o esplendor de boas obras, entre salmos e hinos, dentro do altar de Deus, para obtermos todas as coisas de Deus. (Sobre a oração 28)

Tertuliano também escreveu:

Paraíso, o lugar da bem-aventurança celestial designado para receber os espíritos dos santos, cortados do conhecimento deste mundo. (Apologia 47)

A implicação é de que os crentes falecidos não seriam capazes de receber nossas orações. O apologista católico ignorou a primeira citação e sobre a segunda ele comentou:

Mais um texto fora de contexto. Essa linguagem de que “os mortos estão cortados do conhecimento deste mundo” está também presente, por exemplo, nos escritos de outros padres ocidentais mais tardios como São Tomás de Aquino (cf. Summa Theologicae, II-II, 83, 11). Isso, entretanto, não significa que eles não acreditem na intercessão e invocação dos santos. Tomás é um exemplo claro disso, já que em sua obra, professa ambas as doutrinas e inclusive as concilia (cf. ibid).

O sentido claro e padrão de “cortados do conhecimento deste mundo” é obviamente que o falecido deixa de saber sobre as coisas que se passam aqui. Ele me acusa de distorcer o contexto da passagem, mas ele próprio não traz o contexto por uma simples razão – o contexto apenas aponta para o sentido óbvio do texto. Ele então resolve nos mostrar como se faz, e ao invés de usar alguma citação de Tertuliano para nos mostrar que estamos interpretando o homem errado, ele usa Tomás de Aquino. Chega a ser cômico. Tertuliano é um norte-africano do séc. II enquanto Aquino é um teólogo medieval do séc. XII. Sabe qual é a relevância de Aquino para entender Tertuliano? Nenhuma. Aquino viveu num período em que não só essa, mas muitas outras doutrinas heréticas eram amplamente aceitas pela Igreja Ocidental. Essa é a razão por qual Tertuliano não defendia a oração aos santos e Aquino sim. O africano viveu num período em que tal heresia não fazia parte da igreja do Ocidente. Ele ainda parece sugerir que Aquino era um Pai da Igreja, o que é totalmente falso. Se você deseja entender um autor, você deve estudar suas obras ou no máximo outros autores próximos geograficamente ou temporalmente, mas usar um teólogo medieval que viveu 10 séculos depois é uma amostra de que os católicos não estão interessados em deixar os pais da igreja ser quem eles eram. Eles desejam a qualquer custo transformá-los anacronicamente em católicos romanos. O católico prossegue:

Em primeiro lugar, deve-se distinguir as realidades materiais (isto é, as coisas que se referem unicamente à vida material e terrena) das realidades espirituais (isto é, aquelas que envolvem a alma humana, que estão ligadas principalmente ao serviço à Deus e o amor aos irmãos através da unidade dos membros do corpo místico de Jesus). Quando os autores sagrados utilizam tais termos, não querem dizer que a morte destrói a vinculação espiritual dos membros do corpo de Cristo (o que chamamos de “comunhão dos santos”), mas sim que eles estão desligados das realidades materiais deste mundo. Nesse sentido sim, os santos estão realmente “cortados do conhecimento deste mundo”, já que o conhecimento a que Tertuliano se refere é inútil à contemplação daqueles que já atingiram a perfeição.

Ele cria uma série de distinções arbitrárias, mas não faz o essencial – mostrar que Tertuliano realizava tais distinções. Onde estão os textos em que o africano afirma haver esse antagonismo entre realidades materiais e espirituais?  Porque deveríamos abandonar o sentido óbvio de um texto e adotar uma interpretação mirabolante se ele não oferece qualquer evidência textual de Tertuliano a favor disso? Percebam como é a “lógica” da coisa. Eu crio uma série de qualificações e simplesmente digo que tal autor as realizava para assim satisfazer minha necessidade de torna-lo um católico romano. O apologista não oferece um texto sequer de Tertuliano ou qualquer outro pai da Igreja em que tais distinções sejam feitas.

Mesmo na Igreja terrena, um crente não tem o poder mágico de ouvir orações dirigidas a ele. Se eu orar para que um cristão não China ore por mim, ele simplesmente não vai me ouvir. Se a comunhão terrena não traz esse benefício, porque os que estão não céu o teriam. Os católicos acabam tornando a morte uma barreira irreal. Não por acaso, nenhum autor bíblico ensinou tal absurdo. Não há absolutamente nenhum dado da revelação que sugira que os mortos têm conhecimento do que se passa aqui na terra. No máximo, poderíamos especular se eles mantêm suas memórias terrenas.

Clemente de Alexandria (150 – 210)

Clemente define a oração como a comunicação com Deus. Ele descreve a oração como um ato de adoração e sacrifício a Deus, o que implica na exclusão dos mortos ou anjos como destinatários da oração:

Mas se, por natureza, não necessita de nada, Ele [Deus] tem prazer em ser adorado, não é sem razão que adoramos a Deus em oração, e assim o melhor e mais santo sacrifício com justiça nós oferecemos, apresentando-a [a oração] como uma oferta [...] o sacrifício da Igreja é a palavra de desejo como incenso de almas santas, o sacrifício e toda a mente sendo ao mesmo tempo revelada a Deus [...] A oração é, então, falar com mais ousadia, conversar com Deus. Embora sussurrando, consequentemente, e não abrindo os lábios, falamos em silêncio, ainda assim gritamos interiormente. Porque Deus ouve continuamente a nossa conversa interior. (The Stromata, 7:6-7)

Em primeiro lugar, ele afirma que para Clemente, a oração é um “encontro com Deus”.

Eu não disse que a oração é um encontro com Deus. O que eu afirmei e Clemente claramente diz é que a oração é uma oferta de adoração a Deus. Sendo assim, oferecer oração a outro seria idolatria.

Ora, qualquer criança entende que Clemente não está aí refletindo sobre a intercessão dos anjos e santos, mas apenas afirmando que a oração é um encontro com Deus. E sim, o é. Há de se distinguir as orações à Deus das petições que fazemos aos homens santos (a quem Orígenes, por exemplo, chama de “súplica”). Uma coisa não muda a outra, mas apenas a complementa.

Ninguém afirmou que ele se referia a intercessão dos anjos e santos. O apologista católico parece acreditar que apenas se Clemente disse “não orem aos santos” seria uma evidência. É óbvio que ele não disse isso, pois esta não era uma prática comum em seu tempo. Ao conhecermos os pensamentos de um Pai da Igreja, podemos afirmar se ele pensava de forma compatível ou não com determinada doutrina. Os próprios apologistas católicos abusam disso para provar suas doutrinas ao fazerem uso de implicações. Se o Pai da Igreja disse “X”, logo ele acreditava em “Y”. Da mesma forma o inverso. Por exemplo, se um Pai da Igreja era mortalista (o já citado Taciano), ele não poderia acreditar na oração aos santos. Para esta conclusão não é preciso que ele diga “não se deve orar aos santos”. Para não perder o costume, ele continua criando suas próprias distinções. Agora temos as orações a Deus e as feitas aos demais. Ele então cita Orígenes, mas não cita sobre quem está argumentando – Clemente. Mais uma vez, ele falha ao não mostrar em Clemente a distinção que ele pretende empregar.

Depois, ele próprio reconhece que São Clemente acreditava na intercessão dos santos, e, já sem argumentos, supõe que ele criticava que orássemos a eles (...) Em primeiro lugar, devemos deixar claro o que são fatos extraídos das obras de Clemente e o que são especulações. Dizer que Clemente criticava a invocação dos santos, sem citar nenhum texto que o fundamente, é a mais pura especulação.
Deste modo está ele [o verdadeiro cristão] sempre puro para oração. Ele também reza na sociedade dos anjos, como sendo já da classe dos anjos, e ele nunca está fora da sagrada proteção deles; e pensou que rezava sozinho, [mas] ele tem o coro dos santos permanecendo com ele [em oração]. (Miscellanies 7:12)

Eu deixei bem claro o cerne da minha argumentação. Primeiro eu citei um texto em que Clemente trata a oração de forma incompatível com a doutrina romana. Ele simplesmente não lidou com o argumento: (1) Clemente via a oração como uma oferta de adoração; (2) Ele acreditava que a adoração era algo devido somente a deus; (3) Logo ele não iria ensinar a oração a outro que não seja Deus, sob pena de Idolatria. E no meu texto eu fui plenamente honesto apontando os pais da Igreja que acreditavam que os crentes no céu oravam pela Igreja na terra, mas a doutrina romana não se limita a isso, também afirma que se pode orar aos santos. O apologista católico se propôs a provar a INVOCAÇÃO dos santos nos Pais em questão. Foi ele quem não suportou o ônus da prova que impôs a si mesmo. Cadê as citações em que Clemente ensina que devemos invocar os santos? O texto de Clemente apenas aponta para o que disse em meu artigo – um pai da Igreja poderia acreditar que os que estão no céu oram por nós sem com isso dizer que devemos orar para eles. Portanto, sempre que um católico usar esses textos para provar sua doutrina, está tentando ler muito mais do que foi escrito.

Cipriano de Cartago (? - 258)

Sobre Cipriano, é mais do mesmo. O apologista católico usa uma citação em que o bispo afirma que mesmo após a morte continuaremos orando uns pelos outros. A questão é que ele em todos os muitos textos que falam sobre oração não menciona nada sobre orar ao falecido pedindo sua intercessão. Sendo Cipriano um “bom católico romano”, como ele poderia esquecer esse detalhe tão importante? Onde estão as citações em que Cipriano ensina a invocação dos santos? Além disso, ele cria um espantalho sobre meu argumento em Cipriano:

Segundo ele, de acordo com Cipriano, a “oração é descrita como algo feito aos Olhos de Deus, dirigida a Deus e não a pessoas”. Vemos novamente o autor utilizar-se como subterfúgio da especulação, afirmando claramente algo que o texto que citou não diz. Cipriano nesta passagem apenas diz que a oração à Deus é um encontro com Deus, nada mais. O resto são suposições de um defensor de heresias desesperado.

Antes de tudo, a citação analisada é de Clemente e não Cipriano. Ele repete o mesmo argumento usado por ele em Clemente e atribui a Cipriano. Os argumentos usados por mim se baseiam nas seguintes citações de Cipriano:

Além disso, quando estamos orando, amados irmãos, devemos ser vigilantes e sérios com todo o nosso coração, com a intenção de nossas orações. Que todos os pensamentos carnais e mundanos passem longe, nem deixe a alma naquele momento pensar em nada, mas no objeto único de sua oração. Por esta razão, também o sacerdote, a título de prefácio antes de sua oração, prepara as mentes dos irmãos, dizendo: "Levantai os vossos corações," que assim sobre a resposta do povo, 'Nós o levantamos até o Senhor ', ele pode ser lembrado que ele mesmo não deveria pensar em nada, mas no Senhor. Vemos o coração ser fechado contra o adversário, e estar aberto a Deus. (Sobre a Oração do Senhor, 31)

O católico afirma que usei o seguinte argumento “como Cipriano diz que devemos orar a Deus, logo não podemos orar aos santos”. É apenas um espantalho. Como já disse, nós podemos apreender o pensamento de um Pai da Igreja a partir de suas declarações compatíveis ou incompatíveis com determinada ideia. Historiadores patrísticos fazem isso o tempo inteiro e a maior parte dos argumentos católicos sobre os Pais da Igreja se baseiam em implicações. Dê uma olhada em qualquer artigo que tente provar o purgatório na Igreja Primitiva e verá várias citações que não falam de purgatório, mas de orar pelos mortos (não confundir com orar ao morto). Os católicos simplesmente pressupõe que se oravam ao morto, logo acreditavam em purgatório. Esse é um exemplo de argumento que usa uma implicação para inferir uma doutrina (será que o apologista católico também chamaria isso de especulação?). Se for o caso, todos os artigos do blog dele se baseiam apenas em especulações.

Meu argumento é que, ao ensinar sobre a oração, Cipriano diz que devemos pensar somente em Deus como objeto de nossa oração. Como alguém que supostamente orava a Maria e um monte de Santos poderia dizer isso? Quando um católico está orando o Ave Maria obviamente está pensando em Maria. Toda a oração é direcionada a ela. Alguém pode objetar dizendo que isso não elimina totalmente a possibilidade de Cipriano também orar a outro que não Deus. Eu digo que concordo, mas pergunto qual é a posição mais provável? Obviamente de que ele via a oração como algo direcionado somente a Deus. Além disso, eu fiz vários outros argumentos que foram ignorados pela “refutação”, como o abaixo:

Ao longo do tratado, Cipriano instrui o leitor como orar a Deus. Ele diz repetidamente que está abordando todas as nossas orações nesse tratado, mas não diz nada sobre orar a Maria, José ou qualquer outro que não seja Deus. Em vez disso, descreve a oração como um ato de adoração e reverência, algo dirigido a Deus somente. Um anjo pode levar nossas orações a Deus, como vemos no livro do Apocalipse, por exemplo, mas a oração deve ser dirigida somente a Deus. Essa é a visão protestante da oração, é o ponto de vista bíblico e é o ponto de vista dos pais da Igreja dos primeiros séculos.
Se um autor escreve um tratado se propondo a abordar todos os tipos de orações e não menciona nada sobre orar a Maria ou Santos, a conclusão lógica é que ele não concebia a oração como algo direcionado a outro que não Deus. A obra completa pode ser vista aqui. Pense num católico romano que objetiva fazer um tratado sobre oração e “esquece” de mencionar um elemento central da espiritualidade católica – orar aos santos e Maria. Obviamente é algo muito improvável – o que nos permite inferir que Cipriano não adotava a prática romanista.

Lactâncio (240 – 320)

É evidente que aqueles que fazem orações aos mortos, ou veneram a terra, ou oferecem suas almas aos espíritos imundos, não agem como se tornando homens, eles vão sofrer punição por sua impiedade e culpa, que, rebelando-se contra Deus, o Pai da raça humana, se comprometeram com ritos inexpiáveis, e violaram toda a lei sagrada. (As Institutas Divinas 2:18)

O apologista católico comenta:

Em primeiro lugar, se pode se citar um contemporâneo de Constantino, porque os protestantes rejeitam os testemunhos dos Padres Nicenos, também contemporâneos de Constantino?

O que tem a ver Constantino com o meu texto? Eu abordei uma divisão histórica muito usada pelos historiadores da Igreja: período pré-niceno, sendo Lactâncio pertencente a tal período. Além disso, eu não rejeitei o pais nicenos, eu apenas delimitei um período histórico que é suficiente para refutar o argumento católico “a invocação dos santos é o ensino da Igreja desde o início”. Um debatedor deve oferecer provas a altura de suas alegações. Nenhum protestante afirma que nenhum Pai da Igreja ensinou a oração aos santos. Isso obviamente aconteceu e começou a se popularizar a partir do séc. IV, ainda que tenha havido oposição (ex. Vigilâncio). O ponto é que se a invocação dos mortos é uma doutrina apostólica e não uma inovação, seria esperado encontrar provas no ensino oficial da Igreja desde o período apostólico. Todavia, mesmo a oração sendo um tema central da vida cristã e tendo sido exaustivamente abordada nas Escrituras e pelos pais da Igreja, não há qualquer citação que corrobore a doutrina católica nos primeiros três séculos. Ou a invocação dos santos é uma dessas tradições orais “fantasmas” que ficam séculos escondidas (posição inaceitável) ou trata-se de mais uma inovação que não pode ser rastreada até o período apostólico. E longe de mostrar o contrário, o artigo católico só corroborou esse fato.

Em segundo lugar: Mais uma vez, nosso amigo não leu a obra do autor na íntegra e desprezou o contexto deste texto. A passagem está se referindo a homens que, com o passar do tempo, passaram a ser considerados deidades por várias pessoas, e então foram adorados (deuses pagãos), tanto o é, que o título deste capítulo é “A Paciência e a vingança de Deus, a adoração de demônios e religiões falsas”. Vê-se, portanto, que prática pagã que Lactâncio fala de “orar aos mortos” é totalmente diferente da prática cristã, não podendo ser equiparadas.

Mais uma vez, o católico tenta escapar da condenação óbvia de sua doutrina apelando a distinções que Lactâncio não fez. O autor não condenou os pagãos por orarem ao “morto errado”, ele simplesmente condena a oração aos mortos sem estabelecer qualquer exceção. O apologista ainda diz que a prática é “totalmente diferente” da prática católica. Como isso pode ser verdade se ambas as práticas são orar aos mortos? Pense por um instante, que tipo de católico romano diria que é errado orar aos mortos? Nenhum. O meu argumento é que Lactâncio pressupõe que não é prática da Igreja orar aos mortos. Ele diz claramente sem estabelecer qualquer qualificador que orar aos mortos viola a Lei Sagrada. No entanto, o apologista católico sem apresentar qualquer evidência disso nos quer fazer pensar que só é violação da Lei sagrada orar pelo morto errado. Se você orar pelo morto certo (o panteão de santos do romanismo) está ok. Isso me leva a mais um questionamento. Já que não havia nos primeiros séculos qualquer processo formal de canonização dos santos, como os fiéis poderiam saber qual o morto certo? Como eles poderiam saber se suas orações estavam indo para alguém que de fato teria poder intercessório?

Metódio e Hipólito de Roma (Séc. III)

No meu artigo anterior, eu abordei esses dois pais da igreja que são usados como testemunho positivo pelos apologistas católicos. Existe uma oração a Maria atribuída a Metódio que é espúria, no entanto é amplamente citada em páginas católicas. Neste caso, o apologista católico reconhece esse fato, uma vez que até os autores católicos apontam o mesmo. Sobre Hipólito, o estudioso católico Ludwig Ott foi responsável por popularizar a ideia de que Hipólito defendeu a invocação aos santos. Todavia, é bem claro a partir dos textos que Hipólito estava usando um mecanismo retórico e não fazendo uma oração (aqui).

A citação da Oração 24 de Gregório Nazianzeno

Após não conseguir trazer uma única citação de pai da igreja pré-niceno a favor da invocação dos santos, o apologista traz uma citação de Gregório. Esse autor não é considerado pré-niceno e escreveu essa obra por volta do ano 380, ou seja, foge totalmente do escopo de nosso artigo e do ônus que ele prometeu provar. A oração 24 foi escrita em louvor aos mártires Cipriano e Justina. Gregório erroneamente acreditava que este mártir seria Cipriano de Cartago, quando na verdade se trata de outro Cipriano que teria sido o bruxo que inspirou o livro ocultista de São Cipriano. Além desse equívoco, todo o relato não passa de uma lenda acreditada por Gregório. Esses personagens nunca existiram. Infelizmente, este é o caso de muitos santos da Igreja Romana. Quando não são histórias inteiramente lendárias, há diversos relatos falsos. É comum “enfeitar a pavão”. Sem contar aqueles “santos” que tiveram uma vida nada santa.  Ainda que a invocação dos santos fosse uma doutrina correta, muitos católicos estão orando por santos que sequer existiram ou que sequer estão no céu. Após trazer o esboço da história de Cipriano e Justina, a Enciclopédia Católica afirma:

Este é o esboço da lenda ou alegoria que é encontrada, adornada com descrições e diálogos no não confiável "Symeon Metaphrastes" e foi objeto de um poema da imperatriz Eudocia II. A história, no entanto, deve ter surgido já no quarto século, pois é mencionada tanto por São Gregório Nazianzeno quanto por Prudencio. Ambos, no entanto, confundiram esse Cipriano com São Cipriano de Cártago, um erro repetido muitas vezes. É certo que nenhum bispo de Antioquia tinha o nome de Cipriano. A tentativa foi feita para encontrar em Cipriano um protótipo místico da lenda de Fausto. (Fonte)

As catacumbas e as inscrições funerárias

Diante da incapacidade dos apologistas católicos de apontarem evidências patrísticas antigas em favor da invocação dos santos e anjos, eles passam a apelar a outra linha de evidência: inscrições funerárias e as catacumbas. Num artigo anterior, eu já apontei em linhas gerais o problema com esse tipo de evidência:

Como alguém pode afirmar que uma crença que só passou a ganhar força mais de 300 anos após a fundação da Igreja pode ser uma tradição generalizada e tão antiga quanto a própria Igreja? Nesse ponto, os romanistas passam a fazer uso de uma linha de evidências que mostra quão distorcida é sua abordagem da história da Igreja. É comum ouvirmos falar de inscrições em catacumbas que eram locais de culto cristão nas quais havia pedidos a algum apóstolo já morto. O problema é que não sabemos quem eram os autores destas inscrições. Sabemos que tais crenças não eram generalizadas, pois os Pais da Igreja mais antigos não as adotaram. E o mais importante, não sabemos se eram fontes ortodoxas. O que apologistas católicos não costumam falar é que nas catacumbas também foram encontradas inscrições de pedidos feitos a deuses pagãos. Devemos então concluir que esta era a crença generalizada da Igreja? Boa parte das cartas do Novo Testamento foi escrita para repreender Igrejas que estavam aderindo a doutrinas heréticas. Se tais cristãos, sob supervisão direta dos apóstolos, poderiam claudicar, como então as práticas de “cristãos” que sequer sabemos quem eram pode se tornar o critério da ortodoxia da Igreja? Lembremos que as heresias sempre surgiram dentro da Igreja e contaram com o apoio de muitos cristãos. O gnosticismo por exemplo teve seu epicentro na Igreja de Roma.

No item 14 sob o título “Sub Tuum Praesidium” o apologista faz menção a mais antiga oração a Maria conhecida. Eu também já havia tratado disso:

Ainda é citado a devoção à Maria. A abordagem que os Pais da Igreja mais antigos tinham sobre Maria era muito mais parecida àquela dos reformadores do que atuais católicos Romanos. Maria é pouquíssimo citada pelos pais do séc. II (em oposição aos católicos atuais que a citam até em uma simples carta). Não há um registro patrístico sequer de Oração a Maria anterior ao século IV. Essa seria mais uma dessas tradições secretas que passam séculos e séculos escondidas? A oração à Maria era uma prática tão “generalizada” na Igreja Antiga que a evidência mais antiga desta prática (de uma fonte que sequer conhecemos) é o papiro 470. O problema é que a data mais antiga atribuída ao papiro é o ano 250. Agora pense nos católicos romanos atuais. Um fiel praticante deve rezar para Maria quase todos os dias. Como uma prática tão generalizada poderia ter evidência tão escassa e tardia? A datação do papiro também é objeto de controvérsia:

Este fragmento de papiro é uma oração para Theotokos escrito em torno de 250 d.c, por papirorólogos que examinaram o estilo de caligrafia. Alguns inicialmente colocaram o papiro no quarto ou quinto século (a descrição da Biblioteca de John Rylands abaixo o enumera como 3º - 4º século), talvez porque não pensassem que os cristãos estariam orando pelos Theotokos tão cedo. (Fonte)

O apologista católico afirma que a oração é do séc. III, mas não menciona a controvérsia sobre a datação. O ponto é muito simples – como uma prática tão central na vida de qualquer católico romano apresenta evidências tão escassas e problemáticas? Se a Igreja antiga desde o início orasse aos santos, não haveria discussão. A quantidade de evidências, escritos e tratados sobre isso seria enorme. O católico também cita inscrições nas Catacumbas de São Sebastião que apresentam o mesmo problema – não sabemos nada sobre a ortodoxia dos autores, não sabemos se eles estavam expressando uma crença oficial da Igreja (na verdade a evidência aqui exposta sugere o contrário), e não sabemos quão generalizadas tais práticas eram (a julgar pela escassez e pontualidade das inscrições, não eram generalizadas). Além disso, tais inscrições são na melhor das hipóteses do séc. III. Como isso permite a conclusão “a Igreja Católica sempre acreditou na intercessão dos santos”? Romanistas são especialmente seletivistas quando tratam a história da Igreja. Quando um pai da igreja contraria o que mais tarde Roma proclama como dogma, esse pai estava apenas expressando uma opinião privada. No entanto, quando se encontra uma inscrição de uma fonte anônima e contrários ao ensino dos mestres da Igreja, magicamente isso se torna em prova do que a Igreja sempre ensinou.

O autor ainda traz uma inscrição da Basílica da Anunciação. Basicamente foi encontrada uma inscrição que segundo Michael O’Caroll (autor católico romano) seria datado entre 90 d.c e século III que faz referência a uma mulher cujo nome começa com M. Um peregrino que séculos depois a encontrou supôs que se tratasse de Maria. Além da datação tardia e do encadeamento de suposições que precisam ser feitas para concluir que se tratava de Maria, não há nada na inscrição que sugira ser uma oração. Nem o próprio O’Carrol afirma se tratar de uma oração. Nada no pequeno texto sugere que alguém estava orando a Maria. Ele ainda traz uma última inscrição bem mutilada que também não trata de oração e muito menos de veneração a Maria como ele sugere.

Em relação aos comentários dirigidos a pessoas e anjos falecidos em inscrições de catacumbas, em poesia e em lápides modernas, é preciso dizer que tais mensagens não são equivalentes à oração. Quando os salmistas falam às montanhas, por exemplo (Salmo 68:16, 114: 6), ou alguém escreve uma mensagem para uma pessoa falecida em sua lápide, isso não é equivalente à oração. O salmista não está rezando para as montanhas, e a mensagem na lápide não é para ser uma oração. Equacionar tais dispositivos retóricos com a oração é um erro. Ninguém que vai a um cemitério protestante e vê "descanse em paz" dirigido a uma pessoa morta, ou que vê os anjos serem abordados em um hino protestante, concluiria que os protestantes devem, portanto, acreditar em orar aos mortos e aos anjos. Esses dados não seriam conclusivos na melhor das hipóteses.

Conclusão

A conclusão do artigo católico é o perfeito exemplo da falácia do não-segue: “independente do Período, a Igreja sempre invocou os santos e acreditou que eles possuíam o poder de interceder por nós nos Céus”. O apologista não apresentou uma evidência patrística sequer de que os falecidos oram pela igreja no segundo século. A evidência mais adiantada para tal é Orígenes (séc. III). No entanto, o pior é que ele não apresentou uma evidência sequer de invocação dos santos no período pré-niceno. Ele esboçou uma tentativa somente em Orígenes – equivocada por sinal. Para os demais pais da Igreja, ele sequer tentou apresentar qualquer citação referendar a invocação dos santos e anjos. Para encerrar, ele cita de forma descontextualizada J.N.D Kelly. Até hoje, não vi um apologista católico citá-lo sem distorcer o que ele dizia. Em minha série sobre Agostinho eu tratei do caso mais esdrúxulo, em que o apologista citava Kelly como confirmação de que Agostinho cria no papado, quando poucas linhas depois da citação, o historiador protestante nega justamente que Agostinho cresse no papado. Isto se dá porque os católicos não leram a obra patrística de Kelly (facilmente disponível em português). Geralmente eles copiam a citação de blogs católicos em inglês, no qual há pouco ou nenhum cuidado em contextualizar as citações. Segue a citação retirada da obra em português:

Um fenômeno de grande significação no período patrístico foi o surgimento e gradual desenvolvimento da veneração aos santos, mais particularmente à bem-aventurada virgem Maria. Seu pleno florescimento e as definições formais que a sancionaram pertencem a períodos posteriores não cobertos por este livro, mas as etapas iniciais requerem um breve exame. (Kelly, p. 374)

Vejam que Kelly está tratando de todo o período patrístico que vai até o séc. VII. Meu artigo abordou a evidência patrística até o início do séc. IV (período pré-niceno). No meu artigo anterior, eu deixei bem claro que as primeiras evidências patrísticas em favor da invocação dos falecidos situam-se no século IV. Será que Kelly contradiz minhas conclusões? Segue a continuação:

No início de tudo, havia a devoção aos mártires, os heróis da fé que os cristãos consideravam já estarem na presença de Deus, gozando de glória aos olhos divinos. Em primeira instância, isso assumiu a forma de uma preservação reverente de suas relíquias e da celebração anual de seus aniversários. Uma vez que eles já estavam com Cristo na glória, daí até a busca da ajuda e das orações dos mártires era um pequeno passo, e no terceiro século acumulam-se provas da crença no poder intercessório deles [Orígenes (Sobre a oração 31:5); Cipriano (Ep. 60:5)]. (Kelly, p. 374)

O que Kelly chama de poder intercessório nada mais é do que o que afirmamos em nosso artigo – Orígenes e Cipriano criam que os cristãos no céu oravam pela Igreja na terra. Kelly não está afirmando que eles ensinavam a oração aos santos. As referências a obra de Orígenes e Cipriano são do próprio livro de Kelly e foram tratadas por nós aqui – elas falam apenas que os cristãos no céu oram por nós. A continuação da citação deixa claro o que seria esse poder intercessório:

Ao defender este ponto de vista, Orígenes apelava para a comunhão dos santos, propondo a ideia de que a Igreja no céu auxilia, com suas orações, a igreja na terra. (Kelly, p. 374)

Esse era o poder intercessório aludido no séc. III. Não há nada de orar a santos e anjos. Além disso, Kelly corretamente situa a evidência mais antiga do poder intercessório no séc. III. Como então o apologista pode usar Kelly para referendar a opinião de que a Igreja sempre acreditou nisso? Mais interessante é o que Kelly afirma sobre as orações a Maria:

Nos primeiros três séculos, pelo menos, a devoção à virgem bendita desenvolveu-se com maior lentidão, sendo obscurecida pelo culto entusiástico dos mártires. Tal devoção assumiu formas bem diferentes. Desse modo, provas confiáveis de orações dirigidas a ela ou da busca de sua proteção e ajuda são quase inexistentes (embora não totalmente) nos primeiros quatros séculos da Igreja. (Kelly, p. 375)

Quatro séculos e tudo o que se tem é o quase silêncio total sobre orar a Maria (a oração mais antiga a Maria é na melhor das hipóteses do séc. III, como abordado acima). No entanto, os romanistas concluem a partir disso que orar a Maria foi a prática da Igreja desde sempre. Dessa forma, prevalecem as afirmações de meu artigo anterior – não há qualquer evidência patrística pré-nicena (três primeiros séculos) favorável a oração aos santos e anjos.