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quinta-feira, 16 de maio de 2019

Salvação Fora da Igreja: A Igreja de Roma Antiga vs A Igreja de Roma Atual (Parte 3)



Nesta terceira parte, vou abordar aquela que considero a evidência mais clara e inequívoca de que o magistério de Roma mudou seu ensino doutrinal. Vamos abordar os concílios medievais e o Concílio de Trento que teriam definitivamente exposto a doutrina sobre a salvação fora da Igreja. O primeiro documento a ser analisado é a Bula Unam Sanctam do Papa Bonifácio VIII (texto na íntegra aqui). Vejamos:

Una, santa, católica e apostólica: esta é a Igreja que devemos crer e professar já que é isso o que a ensina a fé. Nesta Igreja cremos com firmeza e com simplicidade testemunhamos. Fora dela não há salvação, nem remissão dos pecados, como declara o esposo no Cântico: "Uma só é minha pomba sem defeito. Uma só a preferida pela mãe que a gerou" (Ct 6:9). Ela representa o único corpo místico, cuja cabeça é Cristo e Deus é a cabeça de Cristo. Nela existe "um só Senhor, uma só fé e um só batismo" (Ef 4:5). De fato, apenas uma foi a arca de Noé na época do dilúvio; ela foi a figura antecipada da única Igreja; encerrada com "um côvado" (Gn 6:16), teve um único piloto e um único chefe: Noé. Como lemos, tudo o que existia fora dela, sobre a terra, foi destruído.

A esta única Igreja, nós a veneramos, como diz o Senhor pelo profeta: "Salva minha vida da espada, meu único ser, da pata do cão" (Sl 21:21). Ao mesmo tempo que Ele pediu pela alma - ou seja, pela cabeça - também pediu pelo corpo, porque chamou o seu corpo como único, isto é, a Igreja, por causa da unidade da Igreja no seu esposo, na fé, nos sacramentos e na caridade. Ela é a veste sem costura (Jo 19:23) do Salvador, que não foi dividida, mas tirada à sorte. Por isso, esta Igreja, una e única, tem um só corpo e uma só cabeça, e não duas como um monstro: é Cristo e Pedro, vigário de Cristo, e o sucessor de Pedro, conforme o que disse o Senhor ao próprio Pedro: "Apascenta as minhas ovelhas" (Jo 21:17). Disse "minhas" em geral e não "esta" ou "aquela" em particular, de forma que se subentende que todas lhe foram confiadas. Assim, se os gregos ou outros dizem que não foram confiados a Pedro e aos seus sucessores, é necessário que reconheçam que não fazem parte das ovelhas de Cristo pois o Senhor disse no evangelho de São João: "Há um só rebanho e um só Pastor" (Jo 10:16). ("Bula Unam Sanctam" MONTFORT Associação Cultural)

O último parágrafo da Bula não deixa margem para dúvidas:

Por isso, declaramos, dizemos, definimos e pronunciamos que é absolutamente necessário à salvação de toda criatura humana estar sujeita ao romano pontífice.

A bula também expõe a teoria das duas espadas, segundo a qual a Igreja detém a espada espiritual, a qual exerce diretamente, e a temporal, a qual exerce por intermédio do Estado. Em síntese, o Papa estava defendendo seu poder sobre os reis, pois ele era o vigário de Cristo e autoridade suprema não somente em assuntos espirituais, mas também temporais. Sullivan traz os comentários:

Uma Bula é uma carta papal que é selada com uma bulla, que é um tipo especial de selo anexado a documentos de importância particular. A bula Unam Sanctam começa com uma profissão de fé na unidade da igreja, fora da qual não há salvação. Ele enfatiza, mais do que as declarações papais e conciliares anteriores a esta doutrina haviam feito, o papel do papa como cabeça sob Cristo desta única igreja.

Deve-se notar que, ao enunciar a doutrina tradicional sobre a necessidade de estar na igreja para a salvação, Bonifácio VIII enfatiza particularmente o papel do papa como cabeça da igreja, com a consequência de que aqueles não podem ser membros do rebanho de Cristo se não estão submetidos ao seu pastor visível.

Na nota histórica que Adolf Schonmetzer, o erudito editor das edições recentes de Denzinger, ofereceu a esta bula, ele afirma que apenas essa sentença final é uma definição dogmática. Ele a interpreta à luz dos primeiros parágrafos da bula, que afirmam a necessidade de pertencer à Igreja Católica para a salvação, em vez de definir a teoria da supremacia do espiritual sobre o poder temporal de Bonifácio. Em apoio a essa interpretação, Schonmetzer observa que a sentença final é tirada de uma obra de São Tomás, onde a necessidade de sujeitar-se ao Romano Pontífice é simplesmente outra maneira de expressar a necessidade de estar na comunhão da Igreja Católica para ser salvo. (Contra errores graecorum, 2, cap. 32 (ed. Parma 15 :25 7)

A nota histórica de Schonmetzer reflete a interpretação mais comum da bula entre os teólogos católicos, a saber, que o Papa Bonifácio, sem dúvida, sustentava e ensinava a teoria medieval da supremacia do espiritual sobre o poder temporal, e o que ele definiu solenemente na sentença final nada mais é do que a doutrina clássica de que não há salvação fora da Igreja Católica. No entanto, um estudo recente da questão, de George Tavard, oferece uma abordagem diferente. Tavard insiste que a sentença final deve ser entendida à luz do tema principal da Bula, que é a supremacia papal sobre os governantes temporais. Por outro lado, Tavard acredita que faltava uma condição essencial para uma definição dogmática, uma vez que, mesmo na época de Bonifácio, não havia consenso sobre essa doutrina na igreja, e ela não sobreviveu como parte do patrimônio de fé da igreja. (George Tavard, “The Bull Unam sanctam of Boniface VIII,” in Papal Primacy and the Universal Church (Lutherans and Catholics in Dialogue, V), Minneapolis: Augsburg, 1974, pp. 105—119)

Sem tentar decidir qual dessas duas interpretações é preferível, podemos concluir observando que nenhum teólogo católico sustenta agora que a teoria de Bonifácio sobre a supremacia do espiritual sobre o poder temporal é um dogma da fé católica. É seguro dizer que se a Bula definia alguma coisa, era simplesmente a doutrina tradicional de que não há salvação fora da Igreja Católica. (F.A Sullivan, p. 65-66)

Em suma, a Bula define dogmaticamente a doutrina tradicional, segundo a qual ninguém poderia ser salvo estando fora da Igreja. Estar na igreja tinha uma consequência inevitável, que era se submeter ao bispo de Roma. Observem que a divergência interpretativa em relação ao texto da bula não se refere a doutrina da salvação fora da igreja. Sobre isto, não resta dúvida. A divergência é sobre a doutrina da submissão dos governantes ao papa. A maioria dos teólogos católicos concordam que Bonifácio estava dogmaticamente definindo isto também – o Papa considerava que o poder temporal também deveria ser submeter ao seu comando. Dessa forma, a bula contradiz o atual ensino de Roma nesses dois aspectos: a impossibilidade de salvação dos que não estão sob o domínio do papa, bem como a submissão do poder temporal a ele.

Eu já presenciei todo tipo de malabarismo para tentar conciliar a Bula com o ensino moderno de Roma, mas não há para onde escapar – submissão explícita ao papa é condição indispensável para salvação. Observem que o documento cita os “gregos”. Oram, estes eram os cristãos ortodoxos orientais que não se submetiam ao papa. A bula os cita como exemplo de grupo que estava perdido. Agora, imaginem a situação dos mulçumanos, judeus e outros que sequer cristãos eram.

Outro documento que não deixa margem para dúvidas é o Decreto dos Jacobitas do Concílio de Florença, que fora concluído em 1445. Segue os comentários de Sullivan juntamente com o texto do decreto:

O concílio que é comumente chamado de Florença começou em Basileia em 1431, foi transferido para Ferrara em 1438, para Florença em 1439 e, finalmente, para Roma, onde foi concluído em 1445. O principal esforço deste concílio era trazer a reunião com as igrejas orientais separadas. Vários decretos de união foram promulgados, mas os eventos subsequentes provaram que a maioria deles era ineficaz para uma união duradoura. Entre esses decretos estava o da união de várias igrejas coptas, cujos membros também eram chamados de Jacobitas. O decreto tinha a forma de uma profissão de fé católica, à qual os jacobitas eram obrigados a declarar sua adesão. Entre outros artigos estava o seguinte:

A Igreja crê firmemente, professa e prega que todos aqueles que estão fora da Igreja Católica, não só pagãos, mas também judeus ou hereges e cismáticos, não podem compartilhar a vida eterna e irão para o fogo eterno que foi preparado para o diabo e seus anjos, a menos que eles estejam ligados à Igreja Católica antes do final de suas vidas, pois a unidade do corpo eclesiástico é de tal importância que somente aqueles que recebem os sacramentos da Igreja contribuem para a salvação, fazendo jejuns, obras de piedade e práticas cristãs que produzem recompensas eternas, e ninguém pode ser salvo, não importa o quanto tenha doado em esmolas e até mesmo se derramou o seu sangue em nome de Cristo, a menos que tenha perseverado no seio e na unidade da Igreja Católica. (Decreto dos Jacobitas – Concílio de Florença)

O leitor atento reconhecerá, sem dúvida, a primeira sentença deste decreto conciliar como uma que citamos anteriormente de uma obra do discípulo do século VI de Santo Agostinho - Fulgêncio de Ruspe. A frase final é também uma citação da mesma obra de Fulgêncio. Como vimos acima, Fulgêncio seguiu Agostinho mesmo em suas teorias mais extremas sobre as consequências do pecado original (...)

[Nós] Temos boas razões para entender este decreto à luz do que era então a crença comum de que todos os pagãos, judeus, hereges e cismáticos eram culpados do pecado da infidelidade, com base no fato de que eles se recusaram culposamente a aceitar a verdadeira fé ou permanecer fiel a ela. Vimos como São Tomás distinguiu três tipos de descrença pecaminosa: a dos pagãos, a dos judeus e a dos hereges e cismáticos cristãos. Os bispos em Florença estavam apenas esboçando a conclusão lógica do ensinamento de São Tomás sobre esses pecados de infidelidade. Seu decreto não pode ser entendido, exceto à luz de seu julgamento sobre a grave culpabilidade de todos aqueles que eles declararam que seriam condenados para o inferno.

Temos que tentar entender o fato de que simplesmente não ocorreu à mente medieval que pessoas como os judeus, vivendo no meio da cristandade, pudessem persistir em sua crença judaica e sua rejeição da fé cristã, e não serem culpados desse pecado. Ainda menos podiam os cristãos medievais acreditar na inculpabilidade dos muçulmanos, que eram os inimigos da cristandade contra os quais as cruzadas haviam sido travadas, e que até na época do Concílio de Florença estavam ameaçando conquistar a cidade de Constantinopla, a última fortaleza do cristianismo no leste (...)

A conclusão inescapável é que eles devem ter acreditado que todos pagãos, judeus, hereges e cismáticos eram culpados e merecedores de punição eterna. Podemos concordar com eles que o grave pecado do não arrependimento contra a fé excluiria as pessoas da salvação eterna. No entanto, não podemos concordar com o julgamento deles de que todas aquelas pessoas eram indubitavelmente culpadas por tais pecados.

Ao mesmo tempo, temos que admitir que esse julgamento, aprovado pelo Concílio de Florença em 1442, representa o que havia sido o pensamento comum dos cristãos durante toda a Idade Média sobre o estado pecaminoso dos que estavam fora da igreja. Podemos aqui tomar um tempo para refletir sobre as consequências práticas da aprovação de tal julgamento para as várias categorias de pessoas que os cristãos julgaram culpadas do pecado da infidelidade. Para St. Tomás, como vimos, a heresia é o tipo mais grave de infidelidade e, de fato, era considerada não apenas um pecado, mas um crime, punível tanto pela Igreja quanto pelo Estado, mesmo com pena capital. Como a unidade na fé cristã era um elo essencial da unidade da sociedade cristã, a heresia e o cisma eram vistos como crimes contra a sociedade, bem como contra a religião.

Os judeus também foram julgados culpados de descrença pecaminosa. A mente medieval não podia conceber como poderiam ser inocentes em sua rejeição a Cristo, já que o cristianismo parecia ter sido tão abundantemente provado ser a verdadeira religião, até pelo fato de que a grande massa da sociedade a aceitara. Os judeus eram vistos como um povo amaldiçoado por Deus, condenados a vagar pelo mundo sem uma pátria própria como punição pelo crime de deicídio. Como os cristãos julgavam que eles eram um povo sob a condenação de Deus, destinados ao fogo eterno do inferno a menos que aceitassem a fé cristã e fossem batizados, não é de surpreender que o tratamento dado aos judeus refletisse esse tipo de julgamento. É verdade que a prática da fé judaica não era considerada crime punido por lei, como era a heresia dos cristãos. Foram apenas os judeus que aceitaram o batismo cristão e, posteriormente, retornaram às práticas judias, que eram passíveis de serem punidos pelo crime de apostasia. Mas as várias formas de incapacidade civil impostas aos judeus na Europa medieval, e os massacres que eles sofreram de tempos em tempos, especialmente nas mãos dos cruzados enquanto marchavam pela Europa a caminho do Leste, eram certamente influenciados pelo comum julgamento de que os judeus estavam sob a condenação de Deus e destinados à punição eterna por seu pecado de rejeição da verdadeira fé.

Enquanto, para St. Tomás e os cristãos medievais em geral, a incredulidade daqueles que, como os muçulmanos, não eram nem hereges cristãos nem judeus, era um pecado menos grave, ainda resultava que eles fossem destinados ao castigo eterno por Deus, uma vez que foi tomado por concedido que eles sabiam o suficiente sobre a fé cristã para serem culpados por terem a rejeitado. De fato, eles eram os inimigos jurados da religião cristã, contra os quais, a partir do ano 1095, sucessivas cruzadas foram travadas. A justiça de empreender a guerra contra os “infiéis” era óbvia para a mente medieval, tanto pela ocupação da terra santa como pela rejeição pecaminosa de Cristo e da religião cristã. (F.A Sullivan, p. 68-69)

Um fato importante para nosso estudo é o descobrimento da América. A partir deste fato, ficou evidente que não apenas indivíduos isoladamente eram ignorantes sobre a fé cristã, mas nações inteiras nunca receberam o evangelho. Obviamente, isto suscitou questionamento sobre a situação dos povos indígenas. Apologistas católicos costumam dizer que como a Igreja Medieval não sabia da existência desses povos, era aceitável a solução anterior. Portanto, a nova doutrina seria resultante das informações as quais a Igreja agora dispõe. Esta desculpa incorre em sérios problemas.

(1) Uma vez que a Igreja é infalivelmente guiada pelo Espírito Santo, ignorância não pode ser invocada, afinal o Espírito Santo detém todo conhecimento;

(2) Definições dogmáticas são irreformáveis, logo, se falta de conhecimento é aceitável, todos os dogmas da Igreja passariam a ser reformáveis ma medida que novo conhecimento é adquirido. Isto inclusive reflete a opinião de alguns teólogos católicos que sugerem um novo entendimento sobre as doutrinas da Eucaristia e da virgindade no parto de Maria, pois o conhecimento científico atual tornaria o entendimento tradicional inaceitável;

(3) Os primeiros teólogos a lidarem com o problema dos indígenas se mantiveram fiéis à solução medieval (sacramentada por Aquino, a Bula Unam Sanctam e o Concílio de Florença). Levaria séculos até que o atual ensino de Roma se tornasse o padrão. Isto é problemático para uma igreja que apela à tradição para validar seus ensinos. Como já evidenciado, o atual é ensino de Roma é uma inovação dos tempos modernos e não pode ser rastreado sequer até o século XV, que dirá até os Apóstolos. Abaixo, vamos apresentar as opiniões dos teólogos católicos a respeito dos índios americanos. Sullivan escreve:

Como a Espanha foi a primeira nação europeia a estabelecer colônias na América, não é de surpreender que os dominicanos espanhóis que ensinaram na faculdade de teologia da Universidade de Salamanca estivessem entre os primeiros teólogos a lidar com esse problema. Vamos agora ver o progresso que três deles fizeram em direção à sua solução. Os três cuja contribuição ao nosso tópico consideraremos são Francisco de Vitória (1493-1546), Melquior Cano (1505-1560), e Domingo Soto (1524-1560). Esses homens estavam lecionando na Universidade de Salamanca durante o primeiro meio século da colonização espanhola da América Latina. Eles estavam cientes do fato de que havia um grande número de pessoas na América que nunca ouviram a mensagem cristã antes da chegada dos missionários. No entanto, sendo fiéis seguidores de St. Tomás, como todos os dominicanos seriam, eles tiveram que lidar com seu ensino que não havia salvação sem a fé explícita em Cristo, e sem pelo menos o desejo de ser batizado e entrar na igreja (...)

O primeiro desses teólogos dominicanos [Francisco de Vitória] na verdade não ofereceu uma nova solução para o problema de como Deus teria providenciado a salvação dos nativos da América antes que os missionários chegassem para pregar o evangelho a eles. Ele continuou a sustentar, com São Tomás, que na era do Novo Testamento não havia salvação sem fé explícita em Cristo. Sobre a questão da vontade salvífica de Deus em relação às pessoas que não tiveram chance de ouvir o evangelho, ele seguiu a solução que São Tomás deu. Eis como Vitoria afirmou:

“Quando postulamos a ignorância invencível sobre o tema do batismo ou da fé cristã, não se segue que uma pessoa possa ser salva sem o batismo ou a fé cristã. Os aborígenes, a quem nenhuma pregação da fé ou religião cristã veio, serão condenados pelos pecados mortais ou pela idolatria, mas não pelo pecado da incredulidade. No entanto, como São Tomás diz, se eles fazem o que podem, acompanhado por uma boa vida de acordo com a lei da natureza, é consistente com a providência de Deus que ele irá iluminá-los em relação ao nome de Cristo". (De Indis et de Iure Belli Relectiones, ed. E. Nys, tr. J.P. Bates (The Classics of International Law), Washington, 1917, p. 142.) (F.A Sullivan, p. 69-70)

A solução de Francisco era a mesma de Aquino. Os indígenas teriam uma revelação privada que lhes permitiria responder positivamente ao Evangelho. Fé explícita continuava necessária. Sullivan comentou a respeito da solução de Cano:

Ele [Cano] concluiu que seria mais razoável acreditar que tais pessoas teriam recebido iluminação suficiente para fazer um ato de fé em Deus, como descrito em Hebreus 11: 6, a qual, como São Tomás ensinara, implicitamente continha a fé em Cristo como mediador da salvação. Desta linha de raciocínio ele concluiu que uma fé meramente implícita em Cristo deveria ter sido suficiente para justificar as pessoas na América que haviam "feito o que estava em seu poder" para manter a lei natural. (F.A Sullivan, p. 74)

Cano apresentou alguma inovação, pois agora bastava a fé em Deus para que alguns fossem salvos. Todavia, a manifestação de fé explícita continuava indispensável e a iluminação interior proposta por Aquino continuava a vigorar. Soto, por sua vez, apresentaria solução semelhante à de Cano:

Soto concluiu que a fé implícita em Cristo, que São Tomás reconheceu como suficiente para a salvação dos gentios que viveram antes de Cristo, também deveria ser reconhecida como tendo sido suficiente para a salvação do povo do novo mundo durante os séculos anteriores ao evangelho ser pregado a eles. (Opera, ed. Cologne, 1678, pp. 753ff) (F.A Sullivan, p. 76)

Sullivan traz a posição de Albert Pigge (1490-1452), que escreveu a obra “Do Livre Arbítrio do Homem e a Divina Graça” contra a doutrina da predestinação defendida por Calvino. Pigge continuava a manter a solução tradicional de que os povos americanos poderiam receber alguma iluminação e expressar fé explícita em Deus e assim serem salvos. Contudo, ele foi o primeiro a aplicar este mesmo raciocínio a um mulçumano:

Até onde pude constatar, ele [Pigge} foi o primeiro pensador cristão a sugerir que a falta de fé cristã de um muçulmano poderia realmente ser inculpável e que ele poderia ser salvo por sua fé em Deus (...) Parece claro que foi o estímulo de ter que refletir sobre o estado de ignorância inculpável dos povos recém-descobertos da América e das Índias, e sua conclusão de que para eles a fé em Deus, sem fé em Cristo, deveria ser suficiente para salvação, que levou Albert Pigge a tirar uma conclusão que, até onde eu sei, nenhum cristão havia traçado antes dele: que os muçulmanos também podiam ser inculpavelmente ignorantes da verdade da religião cristã, e podiam encontrar a salvação através de sua fé sincera em Deus (...) É uma impressionante coincidência que esta obra do teólogo católico Albert Pigge tenha sido publicada exatamente cem anos depois do Concílio de Florença ter declarado que os católicos devem acreditar que qualquer pessoa que morresse fora da Igreja Católica estaria inevitavelmente condenada ao fogo eterno do inferno. (F.A Sullivan, p. 80-81)

Pigge continuou a adotar a solução tomista para os índios americanos. A inovação seria a aplicação da mesma solução para os mulçumanos. Sullivan reconhece que Pigge estava inovando e contradizendo o Concílio de Florença. Avançando um pouco, chegamos ao século XVI, quando ocorreu a reforma protestante e a contrarreforma. Sullivan atesta como os reformadores estavam de acordo com o ensino tradicional. Martinho Lutero declarou em seu Catecismo:

Pois onde Cristo não é pregado, não há o Espírito Santo para criar, chamar e reunir a Igreja Cristã, e fora dela ninguém pode ir ao Senhor Cristo (...) Mas fora da Igreja Cristã (isto é, onde o Evangelho não existe) não há perdão e, portanto, não há santidade. (Large Catechism, II, 45, 56)

Isto explica porque o Concílio de Trento não contém o slogan “Fora da Igreja não é salvação”. Esta era uma doutrina já estabelecida na igreja que não fora questionada pelos reformadores. Como o concílio ocorreu em meio às controvérsias da Reforma, não haveria porque reafirmar uma doutrina não contestada. Contudo, Trento afirmaria doutrinas que são absolutamente incompatíveis com a ignorância invencível como a necessidade da fé e do batismo (ainda que de desejo) para a salvação:

A causa instrumental [da justificação] é o sacramento do batismo, que é o sacramento da fé, sem o qual [fé] ninguém jamais foi justificado. (DS 1529)

Após a promulgação do Evangelho, essa transição [do estado em que o homem nasce filho do primeiro Adão até o estado de adoção como filho de Deus] não pode ocorrer sem o banho da regeneração ou do desejo dele, como está escrito: “A menos que alguém nasça da água e do Espírito, ele não pode entrar no reino de Deus (Jo 3: 5)”. (DS 1524)

Um expediente comum na teologia católica é reinterpretar os concílios passados a luz do ensino atual para assim dirimir as contradições. Obviamente esta solução comete o erro crasso de não considerar o que a fonte originalmente diz - o espírito do Concílio e de seus membros. Dessa forma, além dos textos conciliares, temos as ideias dos teólogos da época que expressam o pensamento do período. Nenhum exemplo poderia ser melhor do que Roberto Belarmino. Ele foi um grande opositor da Reforma e trouxe pensamentos claros a respeito do tema em questão:

Dizemos “em algum momento e lugar”, porque aqui não determinamos se tal ajuda está disponível em todos os momentos da vida de uma pessoa (...) Estamos dizendo que não há ninguém que, em algum momento, não receba tal ajuda. Então, nós dizemos “mediata ou imediatamente”, porque acreditamos que aqueles que têm o uso da razão recebem inspirações sagradas de Deus, e assim, sem outra mediação, eles têm graça capacitadora e se cooperarem com isso, eles podem ser dispostos para a justificação e, eventualmente, chegarem à salvação. (De gratia et libero arbitrio, lib. 2, cap. 5, ed. Giuliano, vol. 4, p. 301)

Belarmino então apresenta a objeção a sua posição:

O começo da salvação é a fé (...) Mas muitos não têm ajuda suficiente de Deus para vir à fé, uma vez que o evangelho ainda não foi pregado a eles e muitos outros no passado não tiveram tal ajuda, visto que a pregação do evangelho ainda não havia chegado até eles.

Ele então responde:

Este argumento prova apenas que nem todos recebem a ajuda pela qual podem ser imediatamente convertidos e acreditar, mas não prova que algumas pessoas simplesmente não têm ajuda suficiente para salvação. As pessoas a quem o evangelho ainda não foi pregado podem saber através da criação que Deus existe, e então elas podem ser movidas pela graça preveniente a crer que Deus existe e recompensa aqueles que o buscam. A partir de tal fé elas podem ser dirigidas e ajudadas por Deus ao caminho da oração e das obras de caridade, e desta forma podem obter através da oração uma maior luz da fé, que Deus irá comunicar facilmente a eles, por si mesmo, ou através da mediação de anjos ou homens. (Ibid)

Belarmino expressa a ideia tomista. O não evangelizado seria levado diretamente por Deus, ou até mesmo através de anjos ou homens a uma “maior luz da fé”. Esta maior luz da fé começaria apenas com a revelação da natureza, mas se desenvolveria até um estágio de maior conhecimento. É um fato que este importante teólogo e doutor da Igreja está apenas expressando a doutrina católica de seu tempo – ninguém poderia ser salvo estando ignorante a respeito da fé. Sullivan comenta:

(...) é certo que Belarmino sustentou, juntamente com São Tomás, que a fé explícita em Cristo era necessária para salvação de todos na era neotestamentária. (Sullivan, p. 91)

Para concluir, é preciso dizer que é impossível afirmar que Roma não alterou seu ensino doutrinal quando se leva em conta o atual ensino a respeito da salvação fora da Igreja. Roma mudou radicalmente o significado do slogan e abarcou ideias incompatíveis com seu ensino histórico.

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Salvação Fora da Igreja: Tomás de Aquino vs A Igreja de Roma (Parte 2)


Nesta segunda parte, vamos explorar a posição daquele que melhor representa o pensamento medieval sobre o tema – Tomás de Aquino. Seguiremos abordando o material de F.A Sullivan que apresenta a pesquisa histórica mais substanciosa sobre a doutrina “fora da igreja não há salvação”. Nosso enfoque neste teólogo se dá pela sua importância para a Igreja de Roma. Não raramente apologistas católicos citam Aquino como uma espécie de porta-voz da doutrina de Roma. Como já demonstrado em outros artigos neste blog, a suposição de que o ensino de Aquino é necessariamente o ensino de Roma é falsa. O tema em questão é mais um dentre outros que oporia o atual ensino de Roma e o teólogo medieval.

Vimos na primeira parte que Agostinho desenvolveu a ideia de que a vontade salvífica de Deus não era universal. Dessa forma, alguns não seriam salvos apenas porque não era a vontade divina salvá-los. Agostinho resolvia o problema dos não-evangelizados apelando à doutrina da predestinação. Esta posição não prevaleceria entre os teólogos medievais. Sullivan escreve:

O fato de que na igreja oriental nunca houve qualquer dúvida sobre a universalidade da vontade salvífica de Deus, e que a controvérsia levantada por Gottschalk no Ocidente tinha sido resolvida em favor da doutrina de Hincmar de Reims, significava que para os teólogos medievais não havia dúvida em rejeitar à posterior exegese de Santo Agostinho de 1 Timóteo 2: 4. Sua teoria de um salvamento menos que universal não prevaleceria para se tornar parte da tradição cristã de linha principal. Houve um claro consenso entre os teólogos medievais de que a vontade salvífica “antecedente” de Deus é verdadeiramente universal. (Sullivan, Francis A, Salvation Outside the Church? Tracing the History of the Catholic Response, Wipf and Stock Publishers, 2002, p. 45)

Sullivan menciona de relance uma questão paralela à salvação dos não-evangelizados, que seria a salvação dos infantes. Qual seria o destino das crianças que morreram sem o batismo? De forma semelhante, os teólogos medievais não seguiriam as posições de Agostinho:

Outro ponto de vista de Agostinho que não sobreviveu foi que as crianças que morreram não-batizadas sofreriam (mitigavam) a punição no inferno pela culpa do pecado original. Foi Santo Anselmo (1033-1109) que forneceu a chave para a solução desse problema, com sua percepção de que o pecado original consiste na privação da justiça original de nossos primeiros pais. A partir dessa premissa, Pedro Abelardo (1079-1142) chegou à conclusão de que a consequência do pecado original para os bebês que morreram não batizados seria simplesmente a privação da visão beatífica, e não o castigo positivo devido ao pecado pessoal. A conclusão de Abelardo foi confirmada por Pedro Lombardo, cujo Livro das Sentenças, concluído em 1158, tornou-se o livro padrão de teologia para a Idade Média e adiante. A influência de Lombardo foi tal que sua doutrina sobre o destino de crianças não batizadas foi retomada e confirmada pelo papa Inocêncio III em uma carta que ele escreveu ao bispo de Arles em 1201. O papa escreveu: “A punição do pecado original é a falta da visão de Deus; a do pecado real é o tormento do inferno eterno.” Depois dessa aprovação papal da solução dos teólogos medievais ao problema do destino de crianças não batizadas (posteriormente conhecida como a solução “limbo”), a rigorosa doutrina de Santo Agostinho sobre esta questão foi geralmente abandonada. A Igreja Católica nunca declarou definitivamente que a solução do “limbo” fosse a verdadeira, mas a defendeu contra os jansenistas que afirmavam que ela envolvia algo da heresia do pelagianismo. (F.A Sullivan, p. 45-46)

Esta é só mais uma demonstração da ineficiência do magistério da Igreja Romana. Apologistas católicos afirmam que necessitamos do magistério para ter certeza doutrinária. Sem o magistério romano, não podemos diferenciar o ensino correto do ensino falso. A questão é como um magistério que permite que gerações e gerações de cristãos morram sem estarem esclarecidos sobre a doutrina correta podem ter tal segurança doutrinária? Uma questão importante é que neste período não havia a diferenciação entre falível ou infalível, magistério extraordinário ou ordinário. Tais categorias só seriam criadas no Concílio Vaticano I com a definição de infalibilidade papal. Ou seja, cristãos desse período acreditaram sim que o limbo era parte da verdade revelada. No entanto, hoje o magistério apenas diz que não se sabe ainda.

Aquino tinha soluções diferentes a depender do tempo em questão a respeito da salvação fora da igreja. Assim como os pais da Igreja, ele considerava de forma diferente os que viveram antes e após Cristo. Sullivan comenta:

Como veremos, Tomás admitiu que, em alguns casos, uma fé em Cristo, que estava implícita poderia ser suficiente. No entanto, referindo-se à fé na providência e existência de Deus como descrita em Hebreus 11: 6, ele declarou:

“Deve ser dito que em todas as ocasiões e para todos, sempre foi necessário crer explicitamente nessas duas coisas". (Epistola 43:1)

Era um princípio absoluto para São Tomás que ninguém jamais teria sido salvo sem fé na existência e providência de Deus. Era provavelmente um princípio absoluto para ele que “ninguém jamais teve a graça do Espírito Santo exceto através da fé em Cristo, seja explícita ou implícita” (Epistola 43:3,6)

A questão, então, é: para quem e sob quais condições seria a fé implícita em Cristo suficiente? Primeiro, São Tomás admitiu a suficiência de tal fé implícita em Cristo para os gentios antes da era cristã: se não para todos eles, pelo menos para as pessoas comuns a quem nenhuma revelação do messias futuro havia chegado. Tomás acreditava que "muitos dos gentios haviam recebido revelações sobre Cristo". No entanto, ele acrescentou:

“Se alguns gentios foram salvos, sem receber qualquer revelação [sobre Cristo], eles não foram salvos sem fé no mediador. Porque, embora não tivessem fé explícita, eles tinham uma fé implícita na sua fé na provisão divina, acreditando que Deus é o libertador da humanidade de maneiras que Ele mesmo escolhe” (Epistola 43:9,27) (Citado em F.A Sullivan, p. 50-51)

Em resumo, para aqueles que viveram antes de Cristo, a fé na existência e providência de Deus já traria em si uma fé em Cristo, sendo suficiente para salvar. Isto, por si só, já poria Tomás em oposição ao moderno ensino de Roma, segundo o qual até mesmo um pagão, que não crê na existência ou providência do único Deus verdadeiro, poderia ser salvo. Todavia, as ideias de Tomás a respeito daqueles que nasceram na era Cristã eram ainda mais incompatíveis. Sullivan disse:

Enquanto São Tomás permitia a suficiência da fé implícita em Cristo antes que o evangelho tivesse sido promulgado, ele foi categórico ao afirmar a necessidade da fé cristã explícita em seus próprios dias:

“Depois que a graça foi revelada, todos, tanto os eruditos quanto os simples, estão obrigados a ter fé explícita nos mistérios de Cristo, especialmente com respeito àqueles mistérios que são celebrados pública e solenemente na igreja, tais como aqueles que se referem ao mistério da encarnação”. (Enarr. in Ps. 106:14)

Quão absoluta sua convicção foi nesse ponto é ilustrada pela resposta que ele deu ao problema levantado pela possibilidade de que, mesmo em seu próprio dia, poderia haver alguém que não tivesse tido a chance de ouvir a mensagem sobre Cristo. Sua resposta, de que Deus proveria os meios pelos quais tal pessoa poderia chegar à fé explícita em Cristo, mostra quão sem exceção ele acreditava que a necessidade dessa fé era. Por outro lado, sua resposta também envolveu sua convicção sobre a universalidade da vontade salvífica de Deus. (F.A Sullivan, p. 51)

A resposta a qual Sullivan menciona está nas citações abaixo retiradas das obras de Aquino:

Objeção: É possível que alguém possa ser criado na floresta ou entre lobos. Tal homem não pode saber explicitamente algo da fé.

Resposta: É característica da Divina Providência proporcionar a cada homem o necessário para a salvação (…) sempre que de sua parte não haja obstáculo algum. No caso de um homem que busca o bem e aparta-se do mal, pela guia da razão natural, Deus o revelaria através da inspiração interior o que deve ser crido ou enviar-lhe-ia um pregador da fé (...) (De Veritate, 14, a. 11, ad 1)

Aquino acreditava que os que nunca ouviram o evangelho, mas manifestariam a fé em Cristo caso o ouvissem, receberiam a mensagem do evangelho ou por uma revelação privada (o que ele chamou de “inspiração interior”), ou através de um pregador da fé. Era absolutamente impossível um homem nascido na era cristã ser salvo sem manifestar a fé explícita na mensagem do Evangelho. Ninguém que morrera ignorante sobre o evangelho poderia ser salvo. A mesma posição pode ser verificada em outra obra:

Se um homem nascido entre nações bárbaras faz o que pode, Deus mesmo lhe mostrará o que é necessário para a salvação, seja pela inspiração ou enviando-lhe um mestre. (Sent. II, 28, q. 1, a. 4, ad 4)

Sullivan traz outras citações em que a mesma posição é expressa por Tomás:

A convicção de São Tomás de que, por um lado, a fé explícita em Cristo era necessária e, por outro, que Deus não deixaria uma pessoa sincera sem os meios necessários para sua salvação, levou-o a oferecer a seguinte solução para este caso:

A exposição do que deve ser acreditado para a salvação seria fornecida a essa pessoa por Deus, seja por um pregador da fé como no caso de Cornélio ou por uma revelação, de modo que estaria dentro do poder do livre arbítrio fazer um ato de fé! (Encbiridion ad Laurentium de fide et spe et caritatej 23 :93)

Se alguém foi criado no deserto ou entre animais brutos, contanto que ele seguisse sua razão natural em buscar o bem e evitar o mal, nós certamente deveríamos afirmar que Deus revelaria a ele por uma inspiração interior o que deve ser acreditado, ou enviaria um pregador a ele, como ele enviou Pedro a Cornélio. (De natura et gratia 4-5)
Em seu Comentário sobre Romanos, São Tomás mencionou o mesmo caso, mas não mencionou a possibilidade de Deus fornecer revelação ou inspiração. Aqui ele disse apenas que Deus enviaria alguém para pregar o evangelho a uma pessoa criada no deserto, contanto que ele estivesse fazendo o que pudesse com a graça recebida de Deus (De correptione et gratia 7:1 1—12).  (F.A Sullivan, p. 53)

Observem como Aquino utiliza o exemplo de Cornélio para elucidar seu ponto. Deus enviou Pedro a Cornélio. Da mesma forma, Deus enviaria um pregador ao que ainda não recebeu a mensagem, ou até mesmo a revelaria diretamente. Em todo o caso, o salvo jamais morreria ignorante a respeito do evangelho. Apesar de controverso, alguns tomistas (creio ser o grupo minoritário) acreditam que Aquino amadureceu seu posicionamento teológico sobre esta questão. Sullivan traz a posição de J. Guibert, segundo o qual Tomás teria passado a usar a solução agostiniana para o problema dos não-evangelizados:

Finalmente, na Suma Teológica encontramos um tratamento diferente do problema. Aqui não há menção da “criança criada no deserto”, mas, em termos gerais, daqueles que não ouviram nada sobre a fé. O que é mais importante na Suma, que é a obra mais madura de São Tomás, é que não há menção da ideia de que se tais pessoas estivessem fazendo o que estivesse em seu poder, Deus certamente forneceria os meios pelos quais elas poderiam chegar à fé explícita em Cristo. Aqui a solução parece ser mais agostiniana. De fato, uma obra de Santo Agostinho é citada como autoridade para ela. Em resposta à objeção de que as pessoas que não tiveram a chance de ouvir o evangelho não poderiam ser obrigadas a ter fé explícita, Tomás responde:

O homem é obrigado a fazer muitas coisas que ele não pode fazer sem estar curado pela graça, como amar a Deus e ao próximo, e sabiamente acreditar em artigos de fé. Agora, a quem o socorro divino é dado, é dado pela misericórdia de Deus, e a quem é negado, é negado por sua justiça, como castigo pelo pecado anterior, pelo menos pelo pecado original, como diz Agostinho em livro De correptione et gratia. (Contra julianum 4:8,44—45)

A ideia de que Deus poderia justamente negar a graça necessária como uma punição pelo pecado pessoal é meramente o reverso do axioma de que Deus não nega graça àquele que faz o que está em seu poder para fazer. Mas que Deus poderia justamente negar a graça necessária como punição apenas pelo pecado original é uma ideia bem diferente, que São Tomás derivou de um dos trabalhos anti-pelagianos de Santo Agostinho, com o qual ele se tornou mais familiarizado no decorrer de sua sua carreira.

Isto levou à especulação se Tomás, quando escreveu a Suma, poderia não mais estar confiante de que Deus enviaria um pregador para fazer com que a pessoa que estivesse "fazendo o que estava em seu poder" não perdesse a possibilidade de vir a fé explícita em Cristo. J. Guibert sugeriu que, no curso de sua vida, Tomás pode ter percebido que não apenas a rara “criança criada no deserto”, mas nações inteiras ainda nunca haviam ouvido o evangelho pregado, e que para resolver o problema ele apelou à solução agostiniana de que sua ignorância do evangelho poderia ser entendida como um castigo pelo pecado, pelo menos pelo pecado original. (F.A Sullivan, p. 54)

Parece-me claro que Tomás apelou a solução agostiniana na Suma Teológica, o que o colocaria em franca oposição à teologia romana não somente na questão dos não-evangelizados, mas também em oposição à boa parte da soteriologia romana. Os tomistas que se opõem a Guibert afirmam que Aquino continuaria a expressar a solução anterior (não-agostiniana) em obras do mesmo período da Suma Teológica – seria o caso do comentário da Carta aos Romanos. Sabemos que a Suma é uma das últimas obras de Aquino, e embora o comentário de Romanos seja de período semelhante, é difícil afirmar se foi posterior ou anterior à Suma. Além disso, a Suma foi provavelmente escrita no período de 1265-1273, ou seja, é perfeitamente possível que toda a Suma ou ao menos trechos dela tenham sido escritas após o comentário e representem a posição mais madura de Aquino. Algumas datações afirmam que a Suma foi concluída após o comentário aos Romanos (aqui). Dessa forma, a tese de Guibert é no mínimo respeitável e está ancorada no fato de que, em sua fase teológica mais madura, Aquino fez uso da solução agostiniana.

A objeção comumente apresentada por católicos quando apontamos o posicionamento dos teólogos medievais (a exemplo de Aquino) é afirmar que tais homens eram ignorantes a respeito da existência de povos não-evangelizados. Eles viveram antes do descobrimento da América e não saberiam da existência de nações inteiras totalmente ignorantes a respeito do Evangelho. Primeiramente, é evidente que os teólogos medievais lidaram com este problema teológico e elaboraram respostas para a questão. Ainda que eles estivessem a falar apenas no campo da hipótese, não há razão alguma para pensar que eles mudariam o pensamento teológico apenas porque o exemplo deixou de ser hipotético. Ademais, há boas razões para pensar que eles estavam cientes da existência de indivíduos reais que nunca ouviram o Evangelho (caso de Aquino) ou, em alguns casos, até mesmo nações inteiras. Sullivan disse:

O pressuposto comum dos teólogos medievais parece ter sido que o evangelho havia sido pregado em toda parte, e que seria apenas a rara exceção (a criança criada no deserto) se alguém não tivesse ouvido falar de Cristo. Mas há algumas razões para pensar que Aquino pode ter chegado a saber que isso não era tão raro. Em primeiro lugar, no século XIII, Francisco e os missionários dominicanos penetraram bastante na Ásia, e Marco Polo voltou da China (...) Um dominicano contemporâneo [de Aquino], chamado Humberto dos Romanos, também falava de pagãos encontrados nas regiões do norte, referindo-se a eles como adoradores de ídolos chamados Pbiteni, cuja conversão era esperada (29). (F.A Sullivan, p. 55)

Sullivan também relatou:

A questão de se, em seu próprio dia, o Evangelho havia sido pregado em todos os lugares do mundo, São Tomás deu uma resposta diferenciada, distinguindo entre o “renome” (notícia ou fama) de Cristo que havia penetrado em todas as regiões do mundo, e a pregação do evangelho “com pleno efeito”, que envolvia o estabelecimento da igreja (De vocatione 2:17). São Tomás afirmou que este último ainda não havia sido cumprido em todos os lugares e que sua realização era uma condição a ser cumprida antes da chegada final do reino de Deus. São Tomás expressou sua opinião ao dizer que, embora a “notoriedade” do evangelho tivesse alcançado todas as nações, isso não significava que tivesse alcançado todos os indivíduos. Poderia haver alguém que, como a “criança criada no deserto”, não tenha ouvido nada sobre Cristo. (F.A Sullivan, p. 56)

Ou seja, embora não saibamos certamente se Tomás de Aquino estava ciente da existência de nações inteiras não evangelizadas, é certo que ele sabia da existência real e não apenas hipotética de indivíduos que nunca ouviram o evangelho.

Até então nos concentramos na questão dos não-evangelizados, mas devemos também tratar da questão dos judeus, muçulmanos, heréticos e cismáticos. A doutrina da ignorância invencível admite a possibilidade de até mesmo indivíduos de tais grupos serem salvos, ainda que todos eles conheçam o Evangelho. A posição de Aquino era bem diferente. Sullivan prossegue:

Em qualquer caso, a falta de fé cristã por parte de qualquer um que tivesse ouvido falar de Cristo envolveria o pecado da incredulidade, do qual Thomas distingue três tipos:

Visto que o pecado da incredulidade consiste na rejeição da fé, este pode ocorrer de duas maneiras: ou rejeita a fé que nunca foi aceita, e esta é a incredulidade de pagãos ou gentios, ou rejeita a fé cristã que uma vez foi aceita. Ou foi aceito em sua pré-definição (in fura), e esta é a incredulidade dos judeus, ou foi aceito na própria manifestação da verdade, e esta é a incredulidade dos hereges. (De veritate praedestinationis 3: 16—18)

Não pode haver dúvida sobre o fato de que São Tomás julgou todos os judeus e hereges como culpados de incredulidade pecaminosa, junto com "gentios" e os muçulmanos, que se acredita terem ouvido o suficiente sobre a religião cristã para serem culpados rejeitá-la (...) Como já vimos, São Tomás reconheceu a possibilidade de alguém ser tão totalmente ignorante da fé que sua incredulidade seria simplesmente inculpável. Ao mesmo tempo, parece claro que ele compartilhou, com seus contemporâneos, a visão de que nenhum judeu ou muçulmano teria tal desculpa, ou escaparia da justa condenação pela rejeição da fé cristã. (F.A Sullivan, p. 58)

Em síntese, podemos afirmar que Tomás de Aquino não cria na possibilidade de salvação de hereges, judeus ou mulçumanos. Muito menos acreditava que pessoas que morreram ignorantes a respeito do evangelho poderiam ser salvas. Fé explícita é uma condição indispensável para a salvação. 

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Tomás de Aquino e a Tentativa de Salvar o Dogma da Imaculada Conceição


Introdução

Os que acompanham nosso blog sabem que nos envolvemos num debate com o site apologistas católicos sobre Tomás de Aquino e a imaculada Conceição. Recentemente foi publicada uma resposta ao nosso último artigo. Os mesmos argumentos foram utilizados e como anteriormente, alguns de nossos argumentos não foram respondidos. Num debate, o ônus da prova recai sobre quem afirma. A afirmação positiva é do apologista católico. O ponto central do debate é se Tomás mudou ou não de ideia. A falsidade ou autenticidade da citação é um ponto secundário que serve como elemento de prova, mas a evidência em si não é tão importante quanto a alegação que se pretende provar. Meus comentários do artigo anterior estarão em azul e os do apologista em vermelho. Na seção “introdução” do seu artigo anterior, apologista católico afirmou:

No seu texto inicial o protestante afirmou que era “falsificação romanista”, agora o discurso muda e passa para “há sérias duvidas”, temos aqui uma mudança de discurso bastante significativa.

Não mudei de discurso. Eu afirmei que era uma falsificação romanista, mas eu não disse que havia certeza de que se tratava de uma falsificação. Eu não qualifiquei minha afirmação como certa ou infalível, por isso, o fato de eu afirmar que há sérias dúvidas é compatível com minha afirmação anterior. Quando alguém diz “o sol vai nascer amanhã”, isso quer dizer necessariamente que é uma afirmação infalível? Obviamente não. Por mais provável que seja o nascer do sol, é possível que um dia isso não aconteça, portanto, qualquer afirmação a respeito é meramente provável. Eu continuo acreditando que se trata de uma falsificação porque as evidências disponíveis apontam para isso.

Quando estamos lidando com a autenticidade de uma obra, citação ou mesmo a interpretação de um texto, o máximo que podemos ter é a posição mais provável ou plausível. Não há nenhum intérprete ou crítico textual infalível que pudesse produzir uma interpretação infalível de Tomás de Aquino. Apesar de a igreja romana supostamente ter um magistério infalível, é sabido que nenhuma declaração “infalível” sobre as obras de Tomás foi produzida até hoje.  Dessa forma, num debate como esse, vence quem apresenta a posição mais plausível que melhor se encaixa as evidências disponíveis. Todavia, o apologista católico tenta se esvair de sua responsabilidade imputando a mim algo que ele fez. Quem afirmou certeza foi ele:

Porém é certo que ele morreu crendo na Imaculada conceição da virgem Maria.

Por isso, meu artigo anterior atacou as bases dessa “certeza”. Ele afirma que a citação é autêntica com base na edição crítica de Rossi, no entanto, outras edições críticas produzidas por católicos não contém “nec origiale”. Ele citou tomistas que apoiavam sua posição, no entanto, a maioria dos tomistas discordaria, conforme opinião da obra de Juniper Carol. Nenhum dos argumentos que ele trouxe sustenta a tese inicialmente defendida. Agora, quem der uma lida nos últimos artigos, verá que não afirma mais tal certeza. Pelo contrário, ele afirmou:

Assim, a tal “falsificação romanista” não tem qualquer fundamento e é muito improvável.

Se a mudança de opinião com base no referido texto era certa, porque agora ele apela às probabilidades? Onde está a certeza?

Aqui é famosa falácia ad populum, está argumentando que algo é verdade ou não simplesmente porque uma suposta maioria aceita determinado ponto, e é nesse argumento junto o argumento ad ignoratiam que ele tenta se basear em todo o seu texto.

Além do frequente cometimento de falácias, o apologista católico demonstra pouco preparo para detectar falácias. Onde eu disse que minha posição é necessariamente verdadeira porque a maioria dos tomistas a adotam? O apologista tentou em seu artigo formular um argumento da autoridade quando afirmou em suas conclusões:

Que sabem mais do que os tomistas a respeito de São Tomás.

A implicação desse argumento é que minha tese só poderia estar certa se fosse apoiada pelos tomistas. Isso sim é uma falácia do apelo à autoridade, porque pressupõe que os tomistas necessariamente estão certos. Ainda que tal argumento não fosse falacioso, ele estaria adotando uma premissa falsa, pois não existe a “posição dos tomistas”, afinal a posição católica não é defendida por todos os tomistas ou sequer pela maioria. O apologista também disse:

Ele ainda diz que eu estava afirmando que estava apoiado em uma maioria de autores tomistas. Ora, onde tem isso no meu texto? Não afirmei em nenhum lugar, até porque “maioria” serve de que?

Ele simplesmente retrocedeu de sua posição original, pois o argumento de que eu deveria provar saber mais do que os tomistas pressupõe necessariamente que a maioria dos tomistas apoiava a posição dele. Ele também disse:

Poderíamos citar aqui a exaustão autores tomistas que confirmam que na realidade as palavras “nec originale” que foram retiradas e que São Tomás mudou e reafirmou a imaculada conceição de Maria (...)

Até agora estamos esperando as “citações a exaustão”. Ele também cometeu a falácia do apelo à autoridade em outro trecho:

Porém, o interessante disto tudo é que o interlocutor parece querer ensinar são Tomás para católicos, e achar que durante séculos os tomistas nunca explicaram a questão e ficaram calados até os protestantes descobrirem que essa é uma “falsificação romanista”.

Primeiro, eu não afirmei nada disso. Segundo, ele sugere que é inadequado um não católico ensinar “são Tomás para os católicos”. Essa afirmação pressupõe que para alguém estar certo sobre Tomás, não pode estar em oposição aos estudiosos católicos. Na verdade, é uma mistura de apelo à autoridade com ad hominem. Ele repetiu a mesma falácia aqui:

Na realidade, a resposta que ele dá se baseia em uma tentativa do Apologista protestante americano Francis Turrentin em desqualificar esta citação que é mencionada na obra de Réginald  Garrigou-Lagrange, um dos maiores teólogos do século XX e o maior Tomista de seu tempo. É interessante notar que o americano, além de querer ensinar o pensamento de São Tomás ao Garrigou (...)

Ele sugere que é inadequado um apologista americano desqualificar a citação do suposto “maior tomista de seu tempo”. Além disso, ele confunde a falácia do apelo à autoridade e a falácia ad populum. O apelo à autoridade necessariamente se refere a especialistas ou pessoas de notório saber no assunto em questão, já ad populum se refere ao apelo à maioria não qualificada. Se eu afirmasse: “a maioria das pessoas não acredita que Tomás mudou de posição, logo ele não mudou de posição”, seria uma falácia ad populum, mas eu não teci esse tipo de argumento. Ademais, em nenhum momento eu apelei à ignorância como ele diz. Eu não afirmei que os autores tomistas não conheciam a suposta mudança, logo ela não existiu. Pelo contrário, eu disse que a maioria dos tomistas afirmam que Tomás negou a imaculada conceição sem fazer qualquer menção a uma suposta mudança de posição. Isso é um argumento do silêncio e não o apelo à ignorância, até porque eu acredito que os tomistas estão cientes da existência da “tese da mudança”. Argumentos do silêncio podem ou não ser falaciosos. Isso vai depender das circunstâncias em que o silêncio é invocado.

Supunha que alguém afirme que sua casa foi arrombada. Todavia, depois de uma perícia se verifica que não há qualquer sinal de arrombamento. Todas as portas e janelas estão intactas. Isso aponta que não houve nenhum arrombamento. Da mesma forma, historiadores usam argumentos do silêncio para determinar se um evento aconteceu ou não. Isso se dá quando o acontecimento do evento sob determinadas circunstâncias era esperado. Apologistas católicos também fazem amplo uso do argumento do silêncio. Quando apontamos a controvérsia de Cipriano com Estevão, é comum ouvir que Cipriano não faz uma negação explícita da autoridade de Estevão. O mesmo argumento é também trazido na controvérsia pascal que envolveu Vítor e os bispos de Ásia. Obviamente, são argumentos falaciosos porque nos dois casos a autoridade do bispo romano foi negada, mas há circunstâncias em que o silêncio tem muita força probatória.

Agora, imagine um autor católico romano que simplesmente afirma que Tomás negou a imaculada conceição sem mencionar qualquer possível mudança de posição, e levemos em conta que o contexto dessa citação se deu numa passagem em que são mencionados outros autores que defendem que Aquino apoiou o dogma católico. Há algumas alternativas: (1) acreditar que esse autor não conhecia a “tese da mudança”; (2) Acreditar que ele cria nessa tese, mas a ignorou ou (3) Acreditar que ele de fato não aceita essa tese. A opção (1) é pouquíssimo plausível tendo em vista que se trata de especialistas e segundo nosso oponente a “tese da mudança” é antiga e bem disseminada. A opção (2) é também improvável, pois se trataria de um especialista católico que crê no dogma católico se esquecendo de mencionar o fato de um dos maiores doutores da igreja romana não ter morrido negando o dogma.  A opção (3) é mais provável, tendo em vista que se trata de autores que deveriam conhecer a tese e teriam todo o interesse em aceitar que Tomás morreu como um bom católico romano crente na imaculada conceição.

Além do fato do apologista nos acusar de cometer a falácia que ele cometeu, no meu artigo eu fiz questão de enfatizar:

O argumento da autoridade é probabilístico. Apenas torna uma posição mais provável, mas não é suficiente para fechar a questão.

Imagine que há uma pessoa doente. Você a leva a vários médicos diferentes e todos afirmam que se trata de meningite. Não contente você a leva a um curandeiro que afirma se tratar de câncer. Obviamente, a posição dos médicos é mais confiável ou provável que a do curandeiro. Porém, ainda há uma chance (por menor que seja) que o curandeiro esteja certo e os médicos errados. Dessa forma, quando citamos a apoio de um especialista, estamos tornando nossa posição mais provável do que sem esse apoio, o que não implica que a posição do especialista está imune ao erro. Por último, ele ainda me acusa de comete um ad hominem no seguinte comentário:

O apologista católico se agarra com unhas e dentes a opinião minoritária de Garrigou. Esse é o resultado prático da Sola Eclésia. Os católicos, infelizmente, não podem buscar a verdade por si próprios.

Nesse trecho eu apenas constatei um fato, sequer estava formulando um argumento. Não disse que ele estava errado causa disso. Isso sim seria um ad hominem. Eu simplesmente constatei a realidade de que os “bons católicos” não são livres para pensarem por si mesmos e precisam aceitar os dogmas da igreja romana, por mais que as evidências sejam contrárias. Os qualifico como “bons” porque é isso que um católico deve fazer, a despeito do fato de a maioria dos católicos agirem como protestantes quando se trata de acatar ou não os ensinamentos do magistério da igreja.

Com essa frase fica evidenciado que o protestante não tem conhecimento sobre essa questão, até porque essa mesma opinião é encontrada em Giovani Felice Rossi famoso por sua edição crítica dos escritos de São Tomás, e também dada anos depois pelo tomista Pe. Jacques-Marie Vosté (dominicano como São Tomás), ambos anteriores a Lagrange, logo, além de não saber do que fala a respeito da questão, acha que isso é opinião formulada por Lagrange e que estamos nos apoiando nele, como que não vimos outros autores falando da questão.

Eu afirmei que a opinião de Garrigou era minoritária com base na citação da obra de Juniper Carol. Dizer que alguém tem uma opinião minoritária não é o mesmo que dizer que ele é o único a defender tal posição. Uma minoria não é necessariamente composta por um homem, mas pode ser composta por vários. No meu próprio artigo, eu inclusive citei a posição de Rossi. Mais um detalhe – não foi trazida qualquer evidência de que Rossi apoiasse a “tese da mudança”. Até onde se trouxe, ele argumenta em favor da autenticidade do trecho, mas isso não implica que Tomás morreu acreditando na imaculada conceição. Quanto ao Voste, eu disse que o artigo do site católico trouxe uma evidência anedótica:

Poderíamos citar aqui a exaustão autores tomistas que confirmam que na realidade as palavras “nec originale” que foram retiradas e que São Tomás mudou e reafirmou a imaculada conceição de Maria como a obra de J.M Voste “Comentarius Iliam p. Summae Theolo. S. Thomae”, porém consideramos o que aqui está suficiente como prova.

Vejam que ele sequer citou a página da obra em questão. Só agora no artigo mais recente ele traz a citação de Garrigou que aponta a citação de Voste. Dessa forma, nenhuma falácia foi refutada porque não foi cometida. Ele também ataca alguns de meus outros artigos sobre a questão dos apócrifos. Esse tema será tratado em artigos a parte que serão publicados nas próximas semanas.

Trata-se aqui do argumento ad hominem a minha pessoa, o que ignorarei. Mas agora ele deve demonstrar em qual site em inglês tem a questão da autenticidade do texto, como fez dizendo que eu supostamente copiei a menção ao Padre Vosté do site do Thaylor Marshall.

Esse comentário foi direcionado ao seguinte trecho do meu artigo:

Acredito que o autor do artigo leu algum site em inglês e replicou a tese. É possível que sequer soubesse das dúvidas que pairam sobre a citação.

Mais uma vez – onde está o ad hominem? Onde eu afirmei que ele está errado porque copiou uma citação de um artigo em inglês? O apologista católico parece equiparar ao ad hominem qualquer comentário sobre suas crenças ou fontes. O artigo do Taylor Marshal que eu apontei tem o mesmo tipo de argumentação e cita o Voste igualmente sem citar a página. Como o site apologistas católicos se utiliza bastante de sites católicos em inglês, era natural supor que a citação saiu daí.

Quanto ao Mariano Spada, não há problema se o mesmo argumento está no Wikipédia. Diferente do que ele diz, eu não traduzi o trecho do Wikipedia. Basta observar as minhas palavras para perceber que foram escritas de próprio punho e não traduzidas palavra por palavra.

Em 1839, um professor de teologia do Colégio São Tomás de Aquino chamado Mariano Spada publicou a obra “Esame Critico sulla dottrina dell’ Angelico Dottore S. Tommaso di Aquino circa il Peccato originale, relativamente alla Beatissima Vergine Maria”.  O título traduzido seria “Um exame crítico da doutrina de Santo Tomás de Aquino, o Doutor Angélico, sobre o pecado original em relação à Santíssima Virgem Maria”. Ela pode ser acessada aqui. O mais importante é o objetivo da obra. Spada intentava trazer uma interpretação de Tomás que aliviasse o constrangimento de Pio IX ao declarar um dogma negado pelo teólogo (veja aqui). Contudo, se Tomás tivesse morrido acreditando nessa doutrina, não haveria constrangimento algum. Mas, o mais importante é que em nenhum momento Spada lança mão do argumento de que Tomás morreu acreditando na doutrina. Se havia um momento onde a suposta mudança deveria ficar evidente, seria aqui.
  
A página em questão tem o mérito de trazer links com a obra do autor. Por que eu não poderia usar esses links que estão num site confiável como o Google Books? Se um artigo de internet cita uma fonte, eu necessariamente preciso citar a fonte de onde a fonte saiu? Se esse é o caso, o site apologistas católicos terá que ser fechado, pois o que mais há em seus artigos são citações tiradas de artigos de apologistas americanos como o Dave Armstrong. É lógico que eu não preciso citar o site de onde uma citação saiu, basta que se aponte a fonte da própria citação. O mais interessante é que o apologista sequer atacou o argumento. Até mesmo Spada que escreveu uma obra antes da definição do dogma para compatibilizá-lo com Tomás não fez uso do argumento católico. Se a “tese da mudança” era tão aceita pelos tomistas como ele originalmente defendeu, porque essa obra não usou tal tese. Seria um argumento e tanto para quem deseja salvar o dogma católico.

Sobre a negação da imaculada conceição na Exposição da Saudação Angélica

O principal argumento que eu trouxe é que na mesma obra Tomás nega a doutrina romanista. Se eu me proponho a refutar alguém, é esperado que eu interaja com o principal argumento do meu oponente. Todavia, o artigo anterior não interagiu com o meu principal argumento. Somente no artigo mais recente, ele ensaiou uma tentativa de resposta.

Ao contrário do que ele afirma tratamos disso sim no texto anterior, ou ele não quis ler ou pode ser que eu não tenha deixado claro.

Eu estou especialmente interessado que ele mostre onde no texto anterior esse argumento foi tratado. Essa foi a “refutação” que simplesmente ignorou o principal argumento do “refutado”.

Por que necessariamente as palavras “nec originale” não fazem parte da obra original a partir dessa suposta contradição? Poderíamos argumentar também que o discurso anterior onde há a suposta contradição é que não está na obra, ou seja, esse argumento de “explicação plausível” pode servir também pra quem quiser dizer que o trecho anterior é falso, baseado na veracidade das palavras “nec originale”. Ele está escolhendo o que quer aceitar como verdadeiro ou não baseado em uma suposta contradição. Por que ele não diz que o trecho anterior é o que não faz parte do discurso? Claro, porque não convém a ele, só convém achar que “nec originale” é que é “falsificação romanista”.

A grande questão é que sobre o trecho que nega a imaculada conceição não pairam dúvidas sobre autenticidade, enquanto o trecho invocado pelo católico está envolto em controvérsias e dúvidas. Meu argumento pode ser atacado de três maneiras:

(1) Afirmar que o trecho invocado por mim é de origem duvidosa. O apologista católico bem gostaria de fazer isso, mas não há dúvidas sobre a autenticidade desse trecho. Até mesmo autores que defendem a “tese da mudança” não negam a autenticidade desse trecho;

(2) Afirmar que Tomás se contradisse. Porém, trata-se de uma hipótese pouco provável tendo em vista se tratar de uma contradição explícita e de fácil percepção. Uma solução seria afirmar que se tratam de trechos escritos em períodos diferentes da vida de Tomás. O problema é que não há evidência para isso. Ademais, a obra é bem curta e provavelmente foi escrita num curto período de tempo.

(3) Atribuir um significado ao texto harmônico com a imaculada conceição.

Nenhuma das três hipóteses é defensável, portanto, nosso argumento é a melhor explicação. Ele se amolda melhor ao sentido claro do texto e ao pensamento geral de Tomás contra a imaculada conceição. Isso implica que a passagem duvidosa é de fato é uma interpolação. Vejamos a interpretação católica:

Primeiramente, como conciliar os dois textos então? Estariam em contradição? A solução é simples, no trecho anterior a “nec originale” São Tomás está falando que ela foi “in originali concepta” isto obviamente deve ser entendido no sentido que ela foi concebida pelos pais que tinham a mancha do pecado original, logo temos que entender ai “concebida” no sentido da cópula dos pais, não da transmissão do pecado pelos pais a ela. Assim na primeira frase ela foi concebida com os pais com a mancha do pecado original e na segunda frase fica claro que esse pecado não foi transmitido a ela, por isso mesmo ele fala que não lhe ocorreu pecado original.

O argumento católico é que Maria teria nascido a partir de relações sexuais de pessoas manchadas pelo pecado original, por isso teria sido concebida em pecado. Admiro a criatividade dessa explicação, mas definitivamente não é plausível. Ele está empurrando para o texto informações que não estão lá. Em toda a obra não há qualquer menção a forma como os pais de Maria a geraram. Na verdade, eles sequer são citados. Nem no contexto imediato nem no contexto geral há qualquer informação que dê apoio a essa interpretação. Verifiquemos a citação em contexto estendido:

Da Santíssima Virgem é dito ser cheia de graça de três maneiras. Em primeiro lugar, porque a sua alma estava cheia de graça. A graça de Deus é dada para duas finalidades principais, ou seja, fazer o bem e evitar o mal. A Santíssima Virgem, então, recebeu a graça no grau mais perfeito, porque ela tinha evitado todo o pecado mais do que qualquer outro Santo depois de Cristo. POIS O PECADO É TANTO ORIGINAL, E DESSE ELA FOI LIMPA NO ÚTERO, como mortal ou venial, e destes, ela estava livre. Assim, é dito: "Você é justa minha amada e não há mancha em você" [Sg 4:7]. Santo Agostinho diz: "Se pudéssemos reunir todos os santos e perguntar-lhes se eles eram totalmente sem pecado, todos eles, com exceção da Virgem diriam a uma só voz: "Se dissermos que não temos pecado, enganamos a nós mesmos, e a verdade não está em nós" [1 Jo 1:8]. Eu, no entanto, excetuo esta Virgem santa de quem, por causa da honra de Deus, gostaria de omitir qualquer menção do pecado" [Da natureza e da graça 36]. Porque sabemos que a ela foi concedida a graça de superar todo tipo de pecado por Ele a quem ela mereceu conceber e dar à luz, e ele certamente era totalmente sem pecado. CRISTO EXCEDEU A VIRGEM SANTÍSSIMA NO FATO DE QUE ELE FOI CONCEBIDO E NASCIDO SEM PECADO ORIGINAL. MAS A SANTÍSSIMA VIRGEM FOI CONCEBIDA EM PECADO ORIGINAL, MAS NÃO NASCEU NELE.

O contexto imediato se refere à concepção no pecado original e não ao fato dos pais de Maria ter pecados. Mas, não para por aí. O pior de tudo é que Tomás diz explicitamente: “e desse ela foi limpa no útero”. Se ela não foi concebida em pecado, como poderia ter sido limpa no útero? Como alguém que não está sujo pode ser limpo? É interessante observar que Aquino se referia à Maria como pura, sem mancha, sem qualquer pecado, cheia de graça, mas ainda assim negava a imaculada conceição. A razão é muito simples. Maria teria sido santificada ainda no útero. A partir de então ela estava cheia de graça e livre de qualquer mancha. Todavia, não foi desde a concepção. Os apologistas católicos costumam trazer qualquer afirmação sobre a pureza de Maria como suporte à imaculada conceição, mas isso não é suficiente. É preciso demonstrar que ela foi totalmente pura desde a concepção. Esse é um elemento central do dogma, por isso se chama “imaculada concepção”. Qualquer tipo de santificação após a concepção não é o dogma católico, mas uma negação explícita do dogma. O texto em latim pode ser verificado no site da fundação Tomás de Aquino aqui.

Peccatum enim aut est originale, et de isto fuit mundata in utero; aut mortale aut veniale, et de istis libera fuit.

Não por acaso, as traduções para o inglês trazem o termo “pecado original” e inclusive apontam que essa foi a mesma posição expressa na Suma Teológica. A interpretação alternativa é um “duplo twist carpado” para tentar negar o significado óbvio. Mas eis que surge um interessante argumento:

Argumento parecido é dado por protestantes que negam a existência do pecado original quando apresentamos os Salmos 38 (...) Logo, Cristo neste texto foi “concebido” sem pecado, porque sua mãe não tinha pecado nem teve contato sexual, e Maria foi “concebida” em pecado, porque seus pais tinham pecado, que não foi transmitido a ela, então “concebida” deve se entender ai como o estados dos pais no ato sexual que como diz ele próprio, “não se pode realizar sem libidinagem” (Compêndio Teológico – CCXXIV), logo essa é uma das explicações que harmoniza o texto.  Se isso não satisfizer o protestante, podemos então adotar a opção presentada de achar que São Tomás era esquizofrênico. Claro que aqui vai argumentar que “isso é malabarismo” ou “está deturpando”, então que prove que todos os manuscritos são falsos.

Seria interessante saber quem são esses protestantes. Os maiores exegetas protestantes das Escrituras consideram o texto de Salmos 38 como referente ao pecado original, pois a fé reformada afirma claramente a crença no pecado original. Agora, quando um apologista católico precisa utilizar um suposto argumento protestante para demonstrar como um teólogo escolástico do século XII não negou a imaculada conceição, mostra que algo está errado. É uma comparação totalmente anacrônica e sem sentido que o próprio parece reconhecer. O mais interessante é a “lógica” do apologista. Existe muita controvérsia sobre o “nec originale”. Se o texto precisa ser harmonizado, a citação autêntica deveria prevalecer sobre a duvidosa. No entanto, ele inverte o processo. O padrão é a citação duvidosa estabelecer a interpretação da citação autêntica. Estudiosos patrísticos e críticos textuais não trabalham dessa forma – uma obra sobre a qual não há dúvidas de autenticidade possui valor probatório superior a uma de origem duvidosa.

No mais, porque eu tenho que provar que todos os manuscritos são falsos? Isso implicaria que um texto autêntico necessariamente deveria estar em todos os manuscritos – uma tese absurda. Além disso, ele traz uma citação sem nenhum contexto numa obra diferente e de contexto diferente da citação discutida. Se ele quisesse trazer alguma substância a essa interpretação (o que seria inútil devido ao contexto imediato), deveria demonstrar outros textos de Tomás em que ser concebido no original possuía o significado de ser gerado através de relações sexuais naturais. Em todos os textos que li tal significado não está presente.

Ele também afirma que Garrigou Lagrange não lida com este fato, sendo que eu coloquei nos comentários a obra “A Sintese Tomista”, onde o Garrigou fala desta questão:

Vejamos o que eu disse:

O que chamou mais atenção "na refutação" foi nem ele nem o Garrigou (até onde ele trouxe no texto) terem lidado com o fato de que na mesma obra Tomas negou explicitamente a imaculada conceição.

Eu fiz questão de frisar “até onde ele trouxe no texto”. E sim, ele não tratou essa objeção no texto anterior nem trouxe no artigo qualquer posição desse autor tratando da divergência.

Percebam aqui que Garrigou Lagrange faz menção a mais 2 Tomistas o Padre Frietoff e também outra sessão de outra edição do Boletim Tomista escrita em 1933 por Mondonnet. São mais dois tomistas apoiando a ideia, até aqui já mostramos cinco.

Essa definitivamente não é a conclusão lógica da citação trazida. Vejamos:

(...) e se quer evitar neste escrito uma contradição inaceitável em algumas linhas de distância, deve se ver nas palavras “in originali concepta” o “debitum contrahendi” em razão do corpo formado por geração ordinária, e não o pecado original em si, o que só pode estar na alma (cf. Fríetoff C., loc. cit., p. 329, e P. Mandonnet em "Thomiste Bulletin", de Janeiro a março 1933 Notas et Communications, pp. 164- 167).

Garrigou não está necessariamente afirmando que esses dois autores adotam essa hipótese, tanto é que começa a afirmação com um “se”. Eles poderiam apenas afirmar que essa é a única opção viável para harmonizar o texto, sem necessariamente adotá-la. Além do mais, não há nada nessa citação que implique que esses autores adotava a versão crítica de Rossi e defendessem a “tese da mudança”.

O apologista traz a explicação de Garrigou, segundo o qual Tomás acreditava que a concepção do corpo e a animação eram estágios distintos. Essa questão é irrelevante para a harmonização do texto, pois ele afirmou explicitamente que Maria foi limpa do pecado original no útero. Os católicos tentam “salvar” o dogma romanista apelando a essa distinção. Todavia, é irrelevante uma vez que ele acreditava na santificação de Maria após a animação. Ainda que o momento da concepção envolvesse a geração do corpo e a infusão da alma, a santificação seria após a infusão. Portanto, Maria não teria uma concepção imaculada.

E, ainda, que Aquino discordasse da imaculada conceição apenas por uma questão filosófica, o problema persistiria. Se algum pai da igreja negasse a trindade por questões filosóficas, ele estaria escusado do cometimento de heresia? Obviamente não. É comum os apologistas tentarem suavizar a contradição afirmando que Aquino concordava com os elementos centrais da doutrina. Todavia, Aquino negou o elemento central do dogma. Maria teria sido cheio de graça desde a concepção. Isso é central e não secundário. Se os católicos fossem consistentes com a frequente alegação de que o magistério da igreja apenas preserva a fé sempre crida pela igreja, deveria considerar Tomás um herege. Ademais, é interessante trazer a nota de rodapé 41 do livro de Garrigou:

(41) A objeção foi levantada Boletim Tomista de Júlio-Dezembro 1932, p. (579) no qual nós lemos o mesmo opúsculo um pouco antes: "Ipsa (Virgo) omne peccatum vitavit magis quam alius sanctus, praeter Christum. Peccatum autem aut est originate et de isto fuit mundata in utero; aut mortale aut veniale et de istis libera fuit. Sed Christus excellit B. Virginem in hoc quod sine originali conceptus et natus fuit. Beata autem Virgo in originali concepta, sed non nata." Existe contradição entre esse texto e ao que parece bem autêntico e as linhas mais abaixo. É inverossímil que a poucas linhas de distância se encontre o sim e o não. A dificuldade se desaparece quando se tem em conta que para São Tomás a concepção do corpo, no início da evolução do embrião, precede em pelo menos um mês a animação, que é a concepção passiva consumada, antes do qual não existe a pessoa, pois ainda não existe a alma racional.

Garrigou reconhece a autenticidade do texto e propõe uma explicação que não responde à questão. Se Maria foi limpa do pecado original, ela necessariamente não foi preservada do desse pecado.

Outras citações que comprovaria a “tese da mudança”

Nesta seção do artigo, o apologista católico sequer interagiu com os nossos argumentos. Ele basicamente repetiu as mesmas coisas e trouxe citações que não trazem nenhuma afirmação da imaculada conceição. Tratemos primeiro do comentário aos Gálatas. A versão trazida pela fundação Tomás de Aquino é bem diferente da que o apologista trouxe:

Pois Ele somente e exclusivamente é aquele que não está sob a maldição da culpa, apesar do fato de que fez a si mesmo maldição por nós. Por isso, é dito, "Eu estou sozinho até que passe" (Sl. 140:10); e, novamente "Não há ninguém que faça o bem, nem um sequer" (Sl. 13:3); "Um homem entre mil que eu encontrei" (ou seja, Cristo, que foi sem qualquer pecado), "uma mulher entre todos elas eu não encontrei", que fosse totalmente imune de todo pecado, pelo menos original ou venial ( Ecl. 7:29).

Nessa versão não há qualquer referência à Maria. Se alguma conclusão pode ser tirada, seria no sentido de negar a imaculada conceição, pois se afirma que nenhuma mulher imune ao pecado original ou venial foi encontrada. Porque deveríamos adotar a versão apresentada por ele e não essa que ao menos é adotada pela Fundação Tomás de Aquino? Ele não traz nenhum argumento a seu favor, se limitando a postar uma versão presente no google books sem apresentar sequer as qualificações da fonte. Quem escreveu essa versão? Quem atesta que o trecho sobre Maria está nos manuscritos mais antigos? Antes de tudo, é necessário estabelecer a versão correta.

Eu coloquei o Volume XXIII do Sancti Thomas Opera Ominia de 1862 onde são demonstradas as várias versões dos comentários aos Gálatas e os antiquíssimos manuscritos que a contém, como demonstrei no caso de “nec originale”, porém esse trecho aos Gálatas é trabalho para outro texto que vai resultar no mesmo trabalho deste. O protestante simplesmente ignorou isso e todas as explicações que tem no link e nas palavras de Pedro Espinosa e simplesmente foi na internet procurar os textos baseado nas versões posteriores nas quais as palavras foram retiradas.

Pedro Espinosa não argumentou nada. Ele apenas se limitou a afirmar sua versão preferida e apontar outra fonte que supostamente provaria a autenticidade. De fato, o interlocutor católico terá muito trabalho em provar mais essa citação duvidosa. É no mínimo suspeito que as citações a favor da “tese de mudança” sempre estejam envoltas em controvérsia. Porque será? No entanto, vou poupar o trabalho do apologista católico. Mesmo a versão que ele apresentou não implica na imaculada conceição:

Por isso, é dito, ‘Eu estou sozinho até que passe’; e, novamente ‘Não há ninguém que faça o bem, nem um sequer’; ‘Um homem entre mil que eu encontrei’ (ou seja, Cristo, que foi sem qualquer pecado), "uma mulher entre todos elas eu não encontrei", que fosse totalmente imune de todo pecado, pelo menos original ou venial. Exceto a puríssima e louvável Virgem.

Percebam a sutileza. Tomás diz que não foi encontrada mulher que não tenha contraído pecado original OU venial. A exceção não precisaria necessariamente ser livre do pecado original, bastaria não ter cometido pecado venial. Nesse aspecto, Maria seria uma exceção, pois não teria cometido qualquer pecado venial. Se a citação dissesse pecado original E venial, a exceção necessariamente deveria ter sido livre dos dois. Todavia, Maria poderia ser uma exceção por simplesmente não ter incorrido em pecado venial.

Sobre os salmos, eu tratei em mais detalhes no meu artigo anterior. Nenhuma das citações afirma:

(1) Que Maria não incorreu em pecado original; ou

(2) Que Maria foi livre de qualquer pecado desde a concepção.

Eles basicamente se limitam a afirmar que Maria não tinha nenhuma mancha ou pecado. O apologista pressupõe que o pecado original está incluso. O problema é que Tomás diferencia claramente os pecados nos trechos em que trata da questão. Como vimos em citações anteriores, ele diferencia entre pecado mortal, venial, atual ou original. No mais, é preciso demonstrar que Maria foi livre de qualquer pecado desde a concepção, o que não é afirmado nos comentários aos salmos. Nós inclusive vimos que na citação da saudação angélica, o escolástico afirmou a pureza de Maria ao mesmo tempo em que afirma seu nascimento no domínio do pecado original.

Datação das obras

Esse foi um ponto ignorado pela resposta. Como argumentei no meu artigo anterior, o católico precisa necessariamente estabelecer uma data confiável para as referidas citações, provando que Tomás passou a acreditar no dogma católico no fim da vida:

Porém, existe outro problema com a tese católica – a datação das obras. É preciso demonstrar confiavelmente que as obras onde supostamente ele afirma a doutrina mariana são posteriores a todas as citações onde nega a mesma doutrina. De acordo com três listas cronológicas que podem ser vistas aqui, aqui e aqui, a Suma Teológica foi escrita entre 1266 e 1273. A saudação angélica teria sido escrita entre 1268 e 1273. Os comentários das epístolas de Paulo estariam entre 1265 e 1273. O mais tardio seriam os comentários sobre os salmos no intervalo 1272-1273.

Percebe-se que os períodos se sobrepõem. Ainda que o apologista estivesse certo sobre a saudação angélica, não seria suficiente, pois o período tradicionalmente atribuído à obra está entre 1268 e 1273, enquanto a Suma Teológica está entre 1266 e 1273. As citações contrárias à imaculada conceição estão na terceira parte da Súmula, que foi escrita mais para o final. Qual teria sido a última posição de Aquino então?

Sobre a autenticidade do termo “nec originale”

Essa é a seção mais decepcionante do texto. O apologista católico traz a posição de Rossi. Ora, disso já sabíamos. A questão é se há evidências confiáveis que apontem que os textos que contém a expressão justificam atribuir-lhe autenticidade a despeito de outros manuscritos não conterem e de outras versões críticas não concordarem. Ele afirmou anteriormente:

Que os 16 dos 19 manuscritos analisados por Rossi que contém a expressão “NEC ORIGINALE”, são “falsificações romanistas” e os 3 restantes que são os verdadeiros.

Minha resposta foi:

Antes de tudo é preciso estabelecer que de fato existe 16 de 19 manuscritos contendo “nec originale” e que esses são os mais confiáveis e justificam confiar que trazem o texto original. Eu obviamente não analisei nenhum desses manuscritos e não foi baseado nesse argumento que afirmei se tratar de uma falsificação romanista.

Tudo o que ele fez foi replicar a tese de Rossi. Vejamos as premissas adotadas pelo católico:

Dos 16 dos 19 antigos manuscritos analisados por Rossi contém a expressão “nec originali”.

Um detalhe aqui pode passar despercebido. Dado a força probatória que o apologista atribui a isso, é passada a impressão de que existem apenas 19 manuscritos. Mas, observe-se que não é isso que Rossi ou Garrigou afirmam. Eles afirmam que Rossi analisou 19 manuscritos. Esses 19 são todos os manuscritos existentes? Caso não sejam, quantos outros existem e qual o conteúdo deles? É possível fazer um caso probatório forte quando se seleciona de antemão quais as evidências serão utilizadas e se deixa de lado as outras não favoráveis. Não estou afirmando que esse é o caso, mas se o apologista católico não traz essas informações, a afirmação de que 16 de 19 favorecem sua posição perde bastante relevância.

Além disso, eu não questionei a veracidade da citação de Garrigou, mas se de fato as provas que eles alegam ter são verdadeiras. Isso sequer implica dizer que eles estão mentindo, afinal eles podem estar sinceramente errados sobre a datação, o número de manuscritos e etc. Agora vejamos o comentário “maroto” do apologista:

Para não precisar apresentar todos os 16 manuscritos, porque além de ser obviamente um grande trabalho para apenas um texto e demorar muito tempo para conseguir todos, selecionei apenas os 3 mais antigos e melhores que contém a palavra “Nec Originale” e solicitei a Biblioteca do Seminário de Torino, e que já servem como prova, por serem justamente os mais antigos que se tem conhecimento. Também solicitei 1 dos 4 outros que a palavra foi raspada ou suprimida.

Ele diz que iria provar que todos os 16 manuscritos teriam o termo “nec originale”, agora ele nos diz que “selecionou 3” apenas. A questão é como isso prova que os 16 manuscritos contêm o termo “nec originale”, se o máximo que ele fez foi apresentar três favoráveis? Ainda mais, dos quatro manuscritos que não contém o termo, ele traz apenas um com uma suposta raspagem.

As mais antigas versões contém a expressão “nec originali”.

Essa premissa também não foi provada pelos seguintes problemas:

(1) A única razão apresentada para acreditarmos na datação desses manuscritos é a autoridade de Rossi. Não é apresentada evidência favorável às datas ali colocadas. Isso é contraditório, pois ele afirmou que as edições críticas que apresentamos não provavam nada. Todavia, ele apenas oferece um argumento de autoridade. Porque deveríamos aceitar a datação de Rossi como suficiente para afirmar autenticidade e rejeitar outras edições? Para quem diz trazer evidências, isso é muito pouco;

(2) Se esses dezesseis manuscritos são os mais antigos, quais as datas dos demais que não contém a expressão? Percebam que em nenhum momento os manuscritos contrários são datados. Se ele deseja determinar quais os manuscritos mais antigos, necessariamente deve apontar as possíveis datas de todos os analisados. Lembremos que sequer sabemos se esses são todos os manuscritos.

(3) Mesmo na datação do Rossi, a maioria dos manuscritos é do final do século XIV ou século XV. Há ai um período de mais de 100 anos entre a morte de Tomás e a data desses manuscritos.

Nas versões que não contém a expressão “nec originali” estas palavras foram suprimidas.

Posteriormente as palavras “nec originali” foram substituídas por “ipsa virgo”.

Ele só trouxe um manuscrito demonstrando que a expressão “nec originali” foi suprimida, portanto, não provou sua alegação. Além do mais ele não trouxe um manuscrito sequer para provar que após a supressão, foi adicionado “ipsa virgo” ao lugar. Porque essa expressão teria sido suprimida? E possível inclusive que tenha por um copista que acreditou se tratar de uma interpolação, afinal linhas antes Tomás tinha negado o que supostamente acabara de afirmar.

Quanto aos meus comentários sobre Pedro Espinosa mantenho que se trata de um ilustre desconhecido. Em nenhum momento eu afirmei que a tese católica estava errada por esse motivo. A questão é que o apologista quis formular um argumento de autoridade usando um autor que sequer é uma autoridade na questão. Espinosa também não trouxe nenhum argumento favorável à sua tese, limitando-se a citar outra fonte. Por outro lado, Richard Gibbings trouxe sim argumentos. Ele assim como nós citou a contradição grotesca que resultaria ao se considerar a passagem duvidosa como autêntica.

Sobre os autores tomistas supostamente favoráveis à tese da mudança

Eu trouxe no artigo anterior uma citação atribuída por mim a Juniper Carol extraída de sua obra sobre Mariologia. Eu não retirei a citação diretamente do livro, mas da transcrição do capítulo sobre a imaculada conceição hospedada num site católico. Como o próprio site atribui o texto a Carol, fui induzido a acreditar que esse capítulo era de autoria dele. Isso não muda a relevância da fonte, pois saiu de uma obra de referência no assunto. E como Carol foi o editor do livro, provavelmente também endossa a opinião de que a maioria dos tomistas admite que Tomás negou a imaculada conceição.

Eu aleguei com base nessa citação que a posição majoritária dos tomistas não era favorável ao apologista católico, e ele não provou o contrário. Eu não afirmei que Garrigou é o único defensor, mas que é o mais citado. Uma minoria não é necessariamente uma pessoa. É uma questão de lógica rudimentar. Também não disse que não havia qualquer apoio a essa tese antes da proclamação do dogma em 1854.

Quanto a Enciclopédia Católica, trata-se apenas de mais uma fonte relevante que mostra que a principal disputa sobre Tomás não é sequer uma suposta mudança (que sequer é mencionada), mas o momento que a purificação ocorreu. O fato de uma edição posterior apontar um autor que manifesta uma posição diferente da maioria é irrelevante. A própria citação que eu trouxe já apontava isso. Por último o autor católico apresenta a opinião do suposto “maior tomista brasileiro”.

Não estamos falando aqui de qualquer pessoa, de qualquer autor que possamos encontrar na internet, mas de Dom Odilão Moura, um célebre tomista brasileiro que dedicou toda sua vida intelectual a estudar o tomismo. Como é que o protestante pode afirmar que essa era opinião minoritária de Lagrange baseado na omissão de outros autores, se vários vultos do tomismo falam sobre a questão? É por isso que não há qualquer condição de debater com alguém que tem a menor noção do assunto, mas que acha que pode chegar na internet e falar do negócio com uma simples pesquisa no google.

O fato de o suposto “maior tomista brasileiro” abraçar uma posição não implica que esta não seja minoritária. Acho que não é sequer preciso trazer o significado que o dicionário atribuiu ao termo “minoria” né. Eu de fato não conhecia Dom Odilão Moura, mas sei que se um indivíduo X foi limpo do pecado original no útero de sua mãe, isso implica que ele nasceu no domínio do pecado original. E me parece que nenhum dos tomistas trazidos deu qualquer explicação razoável para isso até agora.

No mais, é muita hipocrisia um site como esse condenar alguém por fazer pesquisas no google. De onde será que saiu a maioria das pesquisas dele? De onde sai os links que ele passa. Como um site que copia quase todos os seus argumentos de blogs americanos pode criticar o fato de alguém usar o google. Ele provavelmente deve usar o yahoo. Quem acompanha meus artigos, já deve ter percebido que eu vou muito além de apenas trazer argumentos de outros sites (o que eu obviamente faço sempre que considerar um bom argumento).

Há séries de artigos no meu blog baseadas em livros inteiros que li (é o caso da série sobre sucessão apostólica fundamentada na obra do Francis Sullivan). Há capítulos inteiros retirados de livros que li (como os artigos do papado retirados da obra de Klaus Schatz ou Hans Kung). Para alguém que defende teses absurdas como a de que Gregório de Nissa acreditava no purgatório, sendo que se tratava de um universalista, recomendo fortemente que use mais o google, mas não apenas para pesquisar em blogs católicos de baixa qualidade. Sem contar as citações totalmente descontextualizados de autores protestantes como J.N.D Kelly. Kelly afirmou explicitamente em sua obra que não havia evidência para acreditar que Agostinho via o bispo de Roma como supremo e infalível. Todavia o apologista católico copiou uma citação descontextualizada de Kelly para afirmar que Agostinho defendia a infalibilidade papal (veja aqui).

Diante disso tudo, qual a relevância do protestante em trazer autores que não mencionaram a tese?

Demonstrar que a tentativa católica de apresentar um consenso ou posição majoritária em favor de sua tese fracassou. Nesse último artigo, ele adotou um tom mais cuidadoso, mas no anterior, quis implicar que a maioria dos tomistas apoiava sua posição, o que não é verdade. E apesar de ter apresentado alguns nomes a mais, sua posição continua não sendo a majoritária.

São aqui mais 14 tomistas a favor de que São Tomás não era contrário ao dogma ou mudou de opinião, todas as obras estão referenciadas para quem quiser procurar, claro que não vamos citar todos aqui, pois seria um trabalho longo.

Errado mais uma vez: (1) Garrigou não afirma que todos esses são tomistas; (2) Ele apenas diz que para tais teólogos, Tomás foi favorável ao privilégio; (3) Garrigou não afirma que esses teólogos defenderam qualquer tipo de mudança (isso ficou por conta do apologista). Além do mais, a afirmação “são favoráveis ao privilégio” é no mínimo ambígua e não implica necessariamente na ideia de que Tomás afirmou explicitamente o dogma. Eles poderiam, assim como outros, estar expressando a ideia de que Aquino defendeu a pureza excelsa de Maria, o deixando muito próximo à definição dogmática (o que é um argumento falacioso).  

Sobre a “retificação” do site Corpus Thomisticus

Quem ler essa seção do artigo católico perceberá que não houve retificação alguma. Retificar é corrigir algo que estava errado e isso não aconteceu. O site apenas acrescentou um comentário afirmando que há outra versão com “nec originale”. Como isso pode ser uma retificação? Eles continuam hospedando uma versão que não contém o termo. Caso o apologista quisesse fazer um forte argumento de autoridade deveria convencer o autor do texto crítico a se retificar, o que obviamente não aconteceu e nem sabemos se seria possível. Além disso, nós apresentamos pelo menos duas versões desse texto desfavoráveis ao pleito católico. No mais, há muitos outros textos a serem “retificados” no corpus thomisticus. Como já vimos, eles têm o hábito de hospedar textos não muito simpáticos à causa católica.

Só resta agora ver onde o protestante vai dizer que está apoiado.

Além dos outros argumentos trazidos, vou continuar apoiado nas versões críticas do texto que não contém “nec originale”. Uma delas inclusive continua hospedada ..... adivinha onde? No site Corpus Thomisticus. No dia que eles se manifestarem oficialmente afirmando que a versão de Rossi está correta e as outras erradas e deixarem de hospedar a versão “errada”, ai sim o apologista tem fundamentos para afirmar que houve uma “retificação”. Quanto à manifestação do diretor do site, ele próprio afirma que questão é controversa. Parece-me algo bem diferente de afirmar que é certo. E o fato de pairar dúvidas importantes sobre a autenticidade do termo é um ponto central do nosso argumento.

Tomás acreditou na imaculada conceição no início da vida?

A tese de Garrigou é que Tomás acreditava na imaculada conceição no início de sua vida. Como evidência, é apresentada a seguinte citação da obra “Comentários das Sentenças de Pedro Lombardo”:

Ao terceiro, respondo dizendo que se consegue a pureza pelo afastamento do contrário: por isso, pode haver alguma criatura que, entre as realidades criadas, nenhum seja mais pura do que ela, se não houver nela nenhum contágio do pecado; e tal foi a pureza da Virgem Santa, que foi imune do pecado original e do atual. (I Sent., d. 44, q. 1, a. 3)

Essa é a citação apresentada pelo primeiro artigo do apologista católico. A expressão “imune do pecado original” parece apresentar um significado claro. Todavia, eu cometi o erro básico de não verificar essa citação para ver o contexto. O blog Conhecereis a Verdade trouxe na caixa de comentários a continuação:

Foi todavia sob Deus, visto que havia nela o poder de pecar.

Essa é uma tradução possível. Outra tradução seria potência do pecado. O apologista afirma que Maria não poderia ter sido imune ao pecado original se o tivesse contraído. Como não seria possível contrair o pecado original mais de uma vez, não há sentido em se falar de imunização. Maria necessariamente foi imune ao pecado original porque foi preservada de contraí-lo. Se a citação parasse ai, de fato seria a melhor explicação. No entanto, o que vem depois não se coaduna. Como é improvável que Tomás mantivesse uma contradição tão patente, alguma explicação que harmonize todos os dados precisa ser dada. Sobre a afirmação de que havia em Maria a potência do pecado, o apologista explica:

O autor protestante traduz o termo “potentiam ad peccatum” inexatamente, este significa “potência ao pecado”, e não “poder de pecar”, muito embora possa em algum contexto ser traduzido assim, mas no caso isso deve ser entendido como os Escolásticos entendiam. Fora isso o protestante tem que urgentemente estudar o que é “ato” e “potência” para os escolásticos, explicar isso aqui é demasiado extenso.

O problema do argumento protestante seria “não entender os escolásticos”. Mas como os escolásticos entendiam? “No momento não posso dizer, é demasiado extenso”. O motivo pelo qual não explica é bem simples, a definição de potência que os escolásticos adotavam (de acordo com a filosofia aristotélica) favorece a intepretação protestante. Diga-se de passagem, não é sequer “demasiado extenso” explicar. Ato é o que algo é num dado momento. Potência é a capacidade de algo se tornar outra coisa. Por exemplo, uma semente tem a potência de se tornar uma árvore. Isso quer dizer que Maria tinha a capacidade de pecar. Havia nela o potencial de se tornar uma pecadora, o que não a levou a cometer pecados pessoais porque teria sido purificada ainda no útero. Como o blog Conhecereis a Verdade bem disse, se Maria tinha a capacidade do pecado, ela necessariamente não foi livre do pecado original desde a concepção.

Parece que o apologista católico previu essa objeção. Como ele resolve o problema? Apelando a teoria da redenção preventiva de Duns Scoto. Maria teria sido redimida preventivamente. Esse argumento tem um grande problema. Tomás de Aquino nunca adotou a teoria da redençaõ preventiva. Um dos motivos pelos quais Tomás rejeitou a imaculada conceição é que para ele toda a raça humana deveria ser redimida. Se Maria não contraiu o pecado original, ela seria uma exceção e tornaria mentiroso o ensino bíblico de que toda a humanidade necessita de redenção. Isso foi claramente apontado pela Enciclopédia Católica:

No entanto, é difícil dizer que St. Tomás não exigia um instante, pelo menos, após a animação de Maria, antes de sua santificação. Sua grande dificuldade parece ter surgido a partir da dúvida de como ela poderia ter sido redimida se ela não tivesse pecado. Esta dificuldade levantou nada menos do que dez passagens em seus escritos (veja, por exemplo, Suma III: 27: 2, ad 2). Mas, enquanto St. Tomás, assim negou o ponto essencial da doutrina, ele próprio estabeleceu os princípios que, depois de terem sido reunidos e trabalhados permitiram a outras mentes fornecer a verdadeira solução desta dificuldade de suas próprias premissas. (Fonte)

A implicação lógica é que redenção preventiva não fazia parte do pensamento de Aquino. Percebam que ele expressou esse pensamento repetidas vezes numa obra posterior a que estamos discutido. E não há absolutamente nenhuma evidência de que acreditou na redenção preventiva e mudou de opinião. O erro crasso da explicação católica é ao invés de procurar justificar a tese em outros escritos de Tomás, preferiram importá-la de um teólogo que tinha um pensamento oposto na questão. Não por acaso, Scoto afirmou enquanto Aquino negou a imaculada conceição.

Mas e a questão da imunidade ao pecado original? Tendo em vista que: (1) Maria tinha o poder de pecar; (2) A redenção preventiva não é uma explicação cabível, a expressão “imune ao pecado original” não poderia significar “não ter contraído o pecado original”. A explicação mais plausível que coaduna com a própria citação e com todo o pensamento de Tomás é que Maria teria sido imune dos efeitos e não da contração do pecado original. O pecado original inclina o homem a cometer outros pecados. Segundo Tomás, quando Maria foi purificada ainda no útero, ela teria perdido a capacidade de cometer pecados (algo que todos os outros santos tinham). O apologista católico ainda respondeu:

Há potencia ao pecado pela própria natureza intrínseca de qualquer humano de poder pecar, mas a graça infundida em Maria não permitia ela pecar. Adão não tinha pecado original, mas ele tinha a potência ao pecado mesmo sendo feito limpo de qualquer pecado, e não pecou até determinado momento, porém Maria, mesmo tendo potência ao pecado, nasceu sem ele como Adão, e não pecou durante sua vida por consequência da Graça de Deus que necessitou mais do que qualquer um de nós, mas continuou com a potência.

Há uma contradição na explicação. Maria recebeu uma graça tão grande que não lhe permitia pecar, no entanto ela continuou com potência, ou seja, com a capacidade de pecar? É preciso escolher qual das duas manter. Ademais, o paralelo entre Maria e Adão é inadequado. Adão de fato não tinha o pecado original, portanto, não tinha uma inclinação inata ao pecado. No entanto, diferente de Maria, ele não recebeu nenhuma graça especial que lhe impedia de pecar. No pensamento de Tomás, Maria não continuou com a potência do pecado, mas deixou de tê-la quando foi purificada. Além do mais, Maria foi concebida como todos os outros seres humanos, e, portanto, diferente de Adão já estava sob o domínio do pecado original.

Conclusão

O meu argumento continua de pé. A tentativa de harmonizar um texto que claramente rejeita a imaculada conceição falhou totalmente. O apologista também não lidou com a questão da datação das obras – um ponto central do argumento dele. Ele simplesmente parte do pressuposto de que a interpolação é autêntica e deve guiar a interpretação do resto do texto. Porém, este é o jeito errado de fazer as coisas. O texto sobre o qual não há dúvidas tem precedência sobre o de origem duvidosa.

Ele também falhou em provar a existência de outros textos que apoiem a tese da mudança da opinião. Também falhou em trazer evidências suficientes favoráveis à autenticidade de “nec originale”. Ele se limitou a peneirar a evidência e trazer apenas a amostra conveniente como se isso fechasse a questão. Todo argumento em favor da autenticidade se baseia na autoridade de Rossi. A datação, antiguidade e até mesmo a amostra dos manuscritos depende da autoridade dele. Essa não é uma prova decisiva, uma vez que há outras edições críticas que seguem o caminho oposto.

Se o site católico deseja substanciar sua tese, tem as seguintes alternativas:

(1) Provar que a interpretação verdadeira não nega a imaculada conceição na saudação angélica (duvido que isso seja possível sem fazer outro “duplo twist carpado”);

(2) Provar que existe uma contradição explícita – algo que até mesmo os defensores da “tese da mudança” consideram inaceitável;

(3) Provar a falsidade do trecho que nega o dogma. Improvável que o faça uma vez que até mesmo Rossi e Garrigou afirmam a autenticidade.

Tomás é apenas um exemplo entre os muitos teólogos, papas e pais da igreja que negaram a imaculada conceição. A tentativa católica é um exemplo prático da Sola Eclesia que Inácio de Loyola sintetizou em tão poucas palavras:

Acredito que o branco que eu vejo é negro, se a hierarquia da igreja assim o tiver determinado.