O conceito correto de
Sola Fide
Sola
Fide e Sola Scriptura são doutrinas fundamentais do protestantismo, não por
acaso são as mais atacadas pela igreja romana. De forma similar ao debate sobre
a Sola Scriptura, apologistas católicos criam um espantalho da Sola Fide ao
afirmarem que ela significa salvação apenas pela fé sem nenhum envolvimento de
boas obras no processo. É comum alguém dizer que para os protestantes uma
pessoa só precisa ter fé e assim ela pode levar uma vida persistente no pecado
sem que isso afete sua salvação. Diante disso, vamos então apresentar o
verdadeiro significado dessa doutrina.
O
protestantismo reconhece o ensino bíblico de que todos os homens estão em
pecado e naturalmente separados de Deus. Qual seria então a causa da salvação?
Deus olha para a fé do homem como se fosse uma obra e então o salva?
Definitivamente não. A causa e mérito de nossa salvação estão em Cristo. Ao
morrer na cruz ele suporta o castigo devido pelos nossos pecados e assim
satisfaz a justiça de Deus. É na cruz que a justiça, a graça e a misericórdia
de Deus se manifestam. A justiça porque Deus pune o pecado, a misericórdia
porque ele pune o seu próprio filho e não o pecador, a graça porque esse perdão
é oferecido como um presente ao pecador. A doutrina de que Cristo morreu na
cruz para pagar pelos nossos pecados é chamada de substituição penal. Nossa
dívida foi transferida para Cristo que por sua vez a pagou em nosso lugar.
Percebam que a causa final de nossa salvação é a obra de Cristo e não a nossa
fé. Mas onde entra a fé nesse processo? A fé é o meio pelo qual (causa
instrumental) o pecador recebe esse presente (graça). Nesse momento, o pecador
é justificado de seus pecados, ou seja, é declarado justo não por seu próprio
mérito, mas porque a ele é transferida a justiça conquistada por Cristo
(doutrina da imputação).
Outro
detalhe importante é que essa fé não vem sozinha. A fé da qual falamos vem
necessariamente acompanhada de boas obras. Essas não são a causa, mas o
resultado de nossa salvação. Por isso a chamamos de fé salvadora. Não se trata
apenas de uma aceitação intelectual da narrativa bíblica, mas também da
confiança em Deus. O mero assentimento intelectual é a fé morta que Tiago
critica em sua epístola. A justificação pela fé não é a única etapa da
salvação. Há também a regeneração (a mudança das disposições pecaminosas do
coração do homem em direção a Deus), a santificação (processo gradativo em que
o crente fica cada vez mais parecido com Cristo se afastando do pecado e
abundando na prática de boas obras) e a glorificação (etapa final em que
qualquer resquício da natureza pecaminosa é retirado). A salvação é todo um
processo comandando pelo Espírito Santo. O verdadeiramente salvo é habitado
pelo espírito de Deus que garante a ocorrência desse processo. Por isso, fé
salvadora e obras são os dois lados de uma mesma moeda. Elas necessariamente
vêm juntas.
Conceito protestante vs
católico romano e os pais da igreja
É
comum os apologistas católicos afirmarem que nenhum pai da igreja defendeu a
Sola Fide. Por outro lado, a justificação por obras teria sido ensinada por
eles, o que seria um forte argumento histórico em favor da doutrina romanista.
Ainda que isso fosse verdade, a doutrina protestante estaria de pé, pois a
autoridade final é a Escritura e não os pais. Nossa defesa da Sola Fide está
alicerçada na exegese do texto bíblico que expressa claramente a veracidade
dessa doutrina. É difícil entender como alguém que leu cuidadosamente as
epístolas paulinas pode duvidar disso.
Todavia,
o fato é que alguns pais da igreja defenderam a justificação somente pela fé. É
isso que este artigo pretende demonstrar. De fato, muitos pais da igreja
defenderam algum tipo de justificação por obras, mas o que os apologistas
católicos não dizem é que o tipo de justificação por obras defendido por eles é
diferente do que defende a igreja romana. O romanismo não ensina simplesmente
que basta ter fé e fazer obras para ser justificado. Na teologia romana, a
justificação não é um ato legal, mas um processo que envolve obras
sacramentais. Não basta que uma pessoa tenha fé e ajude os necessitados por
exemplo, ela precisa recorrer ao sacramento da confissão auricular se cometer
um pecado mortal. Por mais que alguém tenha fé em Cristo e tenha praticado
obras de misericórdia em sua vida, se ela não recebeu um batismo considerado
válido, sua salvação estará em risco. Por mais que alguém tenha abundado em
ajuda aos necessitados, se ele morreu em pecado mortal (o que pode ser algo tão
banal como faltar à missa aos domingos por preguiça), será condenado ao
inferno. Por mais que alguém tenha sido piedoso, se morreu em pecado venial,
terá que passar pelo purgatório para expiar as faltas que ainda restam.
A
justificação no catolicismo romano envolve um sistema sacramental (batismo,
confissão e penitência, eucaristia, purgatório e indulgências). A paz com Deus
que esse sistema pode oferecer é extremamente precária. Se na última hora, o
indivíduo morreu em pecado mortal, toda uma vida de boas obras será inútil para
salvá-lo. O mais interessante de tudo é que esse sistema sacramental com todos
esses elementos não é encontrado em nenhum pai da igreja. A doutrina das
indulgências por exemplo é completamente desconhecida do período patrístico. O
purgatório só foi defendido pela primeira vez por Agostinho (sec. V) como uma
especulação teológica e não um artigo de fé – mais detalhes aqui. A doutrina da
confissão e penitência atualmente praticada pela igreja romana não pode ser
rastreada até o período patrístico (aqui). A ideia que a
eucaristia é uma reapresentação do sacrifício de Cristo por nossos pecados é
contrariada pela maioria dos pais igreja (aqui). A necessidade do
batismo para a salvação bem como a regeneração batismal contam com alguns
defensores, mas passa longe de ser um consenso patrístico (aqui). O fato é que a
Sola Fide encontra algum apoio nos pais da igreja, enquanto esse sistema
sacramental com todas as suas etapas e elementos não pode contar com nenhuma
testemunha desse período.
Outro
detalhe precisa ser mencionado – a doutrina da justificação não foi objeto de
muita reflexão teológica no período patrístico. Vários pais da igreja tinham
ideias sobre a justificação totalmente abandonadas nos tempos atuais como a
teoria de que Jesus ao morrer na cruz estava pagando um resgate a satanás. O
primeiro pai da igreja a trazer mais detalhes sobre o tema foi Agostinho (séc.
V). O debate mais extensivo sobre a questão só iria acontecer no período da
reforma (séc. XV). Alister Macgrath escreve:
Durante os primeiros
trezentos e cinquenta anos da história da igreja, seu ensinamento sobre a justificação era incipiente e mal definido. (Iustitia Dei: A History of the Christian Doctrine of Justification (New
York: Cambridge University Press, 2000), p. 23)
Clemente de Roma (? - 100)
E assim nós, tendo sido chamados pela sua vontade
em Cristo Jesus, não nos justificamos a nós mesmos, ou por meio da
nossa própria sabedoria ou entendimento ou piedade ou obras que tenhamos feito
em santidade de coração, mas por meio da fé, pela qual o Deus Todo-poderoso
justifica todos os homens que foram desde o princípio; ao qual seja a glória
para sempre. Amém. (Carta
aos Coríntios XXXII)
Em sua carta à Igreja de Corinto, Clemente reverbera o ensino paulino de que o homem não é justificado por obras, mas pela fé. Ao se depararem com textos como esse, os católicos costumam alegar que não há o termo “somente pela fé”. Ocorre que o somente é a conclusão lógica do texto. Se não é por obras e é pela fé, não há uma terceira categoria além de obras e fé. Então, é somente pela fé. Clemente é uma testemunha patrística bastante qualificada devido sua antiguidade e provável contato com apóstolos. Um tratamento mais extenso sobre o testemunho dele pode ser visto aqui. Ele é também considerado um papa pelos romanistas. Assim, temos um suposto papa negando todo o sistema soteriológico da igreja romana.
Policarpo
de Esmirna (70 – 155)
E vós sabeis que é pela graça que fostes salvos,
não pelas obras, mas pela vontade de Deus, por meio de Jesus Cristo (...) Portanto, sem cessar, estejamos agarrados à nossa esperança e ao
penhor de nossa justiça, isto é, Cristo
Jesus, que carregou nossos pecados em seu próprio corpo sobre o madeiro,
ele que não cometeu pecado e em cuja boca não foi encontrada nenhuma falsidade,
mas que tudo suportou por nós, a fim de
que vivêssemos nele. (Aos Filipenses caps. 1 e 8)
Policarpo também repete o ensino paulino da
salvação pela graça e não pelas obras. A igreja romana também diz que a
salvação é pela graça, porém seu ensino é inconsistente. É uma graça que não é
de graça, pois exige do cristão a prática de boas obras para ser justificado.
Policarpo repudiaria esse conceito. Paulo disse claramente:
Porquanto,
se é pela graça, já não o é mais pelas
obras; caso fosse, a graça deixaria
de ser graça. (Rm.
11:6)
Não é possível ensinar salvação pela graça e
justificação pelas obras. Ou se escolhe uma ou outra. Policarpo também afirma
que nossa justiça advém de Cristo que carregou nossos pecados na cruz. Ele
claramente defende o ensino da substituição penal e da imputação da justiça de
Cristo ao pecador quando afirma “de nossa justiça, isto é, Cristo Jesus, que
carregou nossos pecados em seu próprio corpo sobre o madeiro”.
A igreja romana não ensina a justiça imputada, mas
a justiça inerente. Qual seria a diferença? A justiça é imputada não é nossa,
ela é de Cristo. Os créditos de Jesus perante Deus são transferidos para nossa
“conta”. Por causa disso, somos declarados justos perante Deus. Já a doutrina
romanista defende que a justiça de Cristo é infundida no cristão. Mas ela por
si só não o torna perfeitamente justo. Ele precisa aumenta-la e recuperá-la
sempre que é perdida através das boas obras (incluso obras sacramentais). Uma
analogia razoável seria dizer que a graça é como a gasolina de um carro. O
cristão precisa realizar obras sacramentais para se “abastecer” dessa graça. No
entanto só a gasolina não faz um carro andar, é preciso uma estrutura própria
conduzida por um motorista que fará o movimento acontecer. Da mesma forma o
cristão precisa cooperar com essa graça através de boas obras e recuperá-la
quando perdida através de obras sacramentais. Essa é a justiça inerente, pois
não se trata de uma justiça totalmente alheia, mas da própria pessoa que recebe
uma ajuda externa (graça) que permite o aperfeiçoamento dessa justiça. Trata-se
de ser tornado justo e não declarado justo. É um processo que dura toda a vida
e pode durar até após a morte (purgatório). R.C Sproul dá uma ótima explicação
sobre a diferença entre o conceito católico e protestante aqui.
Inácio de Antioquia (35-105)
Inácio
enfatiza que os crentes vivem de acordo com a graça e centrados em Jesus Cristo:
Não vos deixeis
enganar por doutrinas heterodoxas nem por velhas fábulas que são inúteis. Com
efeito, se ainda vivemos segundo a lei,
admitimos que não recebemos a graça. (Aos magnésios 8:1)
Inácio
se refere à dicotomia lei e graça sem adicionar qualificadores à lei. Alguém
pode afirmar que ele se referia apenas à lei cerimonial. Embora em suas cartas
dê exemplos da lei cerimonial (a guarda do sábado), ele nunca afirma que a lei
em questão se restringe ao aspecto cerimonial. Como a Lei incluía naturalmente
aspectos morais, é provável que Inácio estivesse se referindo a salvação pela
graça sem obras.
O evangelho, porém,
tem algo mais especial: a vinda do Salvador, nosso Senhor Jesus Cristo, sua
paixão e ressurreição. De fato, os amados profetas o haviam anunciado, mas o
evangelho é a consumação da incorruptibilidade. Tudo é igualmente bom, se acreditardes no amor. (Aos Filadelfienses
9:2)
Quando
ele afirma acreditar no amor, está se referindo a acreditar no evangelho. A
parte negritada parece referendar a ideia de que as obras são fruto da fé. Crer
no evangelho torna tudo bom, ou seja, a fé na obra de Cristo gera boas obras.
Para nada me
serviriam os encantos do mundo, nem os reinos deste século. Para mim, é melhor
morrer para Cristo Jesus do que ser rei até os confins da terra. Procuro aquele que morreu por nós; quero
aquele que por nós ressuscitou. Meu parto se aproxima. (Aos Romanos 6:1)
Ele
claramente defendeu a morte substitutiva de Cristo.
Que ninguém se
engane: até para os seres celestes, a glória dos anjos, os principados visíveis
e invisíveis, se não crerem no sangue de
Cristo, haverá julgamento. (Aos Esmirniotas)
A
fé é um elemento indispensável. Roma atualmente diz que pessoas que nunca
exerceram fé em Jesus podem ser salvas.
Quando vos submeteis
ao bispo como a Jesus Cristo, demonstrais a mim que não viveis segundo os
homens, mas segundo Jesus Cristo, que
morreu por nós, a fim de que, crendo em sua morte, possais escapar da morte. (Aos Tralianos 2:1)
Essa
citação envolve fé e obras. Crer na morte de Cristo possibilita escapar da
morte. No mesmo contexto ele diz que se submeter ao bispo demonstra um viver
segundo Cristo. Parece haver uma conexão ai: fé que leva a viver segundo Cristo
que leva à submissão ao bispo, ou seja, obras como fruto da fé.
Ele realmente
ressuscitou dos mortos, pois o seu Pai o ressuscitou, e da mesma forma o seu Pai ressuscitará em Jesus Cristo também a
nós, que nele cremos e sem o qual não temos a verdadeira vida. (Aos Tralianos 9:2)
Inácio
não está explicitamente afirmando a Sola Fide aqui, mas num momento em que
descreve os que serão ressuscitados, não menciona as obras, apenas a fé. De
fato, não encontramos em Inácio uma afirmação explícita sobre a questão da justificação,
mas há bons indícios de que ele se aproximava da salvação pela graça mediante a
fé e absolutamente nenhum indício da salvação através de um sistema
sacramental.
Epístola a Diogneto (séc. II)
Quando
Deus dispôs tudo em si mesmo juntamente com seu Filho, no tempo passado, ele
permitiu que nós, conforme a nossa vontade, nos deixássemos arrastar por nossos
impulsos desordenados, levados por prazeres e concupiscências. Ele não se
comprazia com os nossos pecados, mas também os suportava. Também não aprovava
aquele tempo de injustiça, mas preparava o tempo atual de justiça, para que nos
convencêssemos de que naquele tempo, por causa de nossas obras, éramos
indignos da vida, e agora, só pela bondade de Deus, somos dignos dela. Também
para que ficasse claro que por nossas forças era impossível entrar no Reino de
Deus, e que somente pelo seu poder nos tornamos capazes disso. Quando
a nossa injustiça chegou ao máximo e ficou claro que a única retribuição que
poderiam esperar era castigo e morte, chegou o tempo que Deus estabelecera para
manifestar a sua bondade e o seu poder. Oh imensa bondade e amor de Deus! Ele
não nos odiou, não nos rejeitou, nem guardou ressentimento contra nós. Pelo
contrário, mostrou-se paciente e nos suportou. Com misericórdia tomou
para si os nossos pecados e enviou o seu Filho para nos resgatar: o santo pelos
ímpios, o inocente pelos maus, o justo pelos injustos, o incorruptível pelos
corruptíveis, o imortal pelos mortais. De fato, que outra coisa
poderia cobrir nossos pecados, senão a sua justiça? Por meio de
quem poderíamos ter sido justificados nós, injustos e ímpios, a não ser
unicamente pelo Filho de Deus? Oh doce troca, oh obra insondável, oh
inesperados benefícios! A injustiça de muito é reparada por um só justo, e a
justiça de um só torna justos muitos outros. Ele antes nos convenceu
da impotência da nossa natureza para ter a vida; agora mostra-nos o salvador
capaz de salvar até mesmo o impossível Com essas duas coisas, ele quis que
confiássemos na sua bondade e considerássemos nosso sustentador, pai, mestre,
conselheiro, médico, inteligência, luz, homem, glória, força, vida, sem
preocupações com a roupa e o alimento. (Cap. 9)
Mathetes,
personagem fictício escritor da epístola, ensina a justificação do homem com
base unicamente na obra de Cristo. Ele exclui a possibilidade do homem realizar
qualquer obra para ser justificado. A justificação é tratada como um fato
consumado e não como um processo. A morte de Cristo é tratada como
substitutiva. A luz dessas informações, apesar de não falar da fé
expressamente, a hipótese mais provável é que Mathetes defendesse a Sola Fide.
Sua abordagem exclui o ponto de vista católico romano e traz uma série de
elementos da doutrina protestante. Se as obras eram excluídas do processo, só
restaria a fé como causa instrumental da justificação.
Justino Mártir
(100-165)
Se não havia
necessidade da circuncisão antes de Abraão, ou da observância dos sábados, das
festas e dos sacrifícios antes de Moisés; não há mais necessidade deles agora.
Após isso, de acordo com a vontade de Deus, Jesus Cristo, o Filho de Deus
nasceu sem pecado de uma virgem oriunda da linhagem de Abraão. Quando o próprio
Abraão estava na incircuncisão, ele foi
justificado e abençoado por causa da fé que ele depositou em Deus, como diz
a Escritura. Além disso, as Escrituras e os fatos em si obrigam-nos a admitir
que ele recebeu a circuncisão por um
sinal, e não por justiça. (Diálogo com Trifão 23)
Trifo
era um judeu que defendia a observância da lei para a salvação. A resposta de
Justino lembra muito o ensino paulino de que Abraão foi justificado pela fé e
não por obras. A circuncisão seria um sinal dessa fé e não a causa da
justificação. Alguém pode argumentar que Justino se refere aos aspectos
cerimoniais da lei. Isso é verdade, mas em todo diálogo ele nunca limita sua
abordagem da lei apenas ao aspecto cerimonial. De toda forma, ele toma o
exemplo de Abraão que teria sido justificado pela fé sem realizar nenhuma boa
obra – que implica em justificação somente pela fé.
Toda a raça humana
encontra-se sob uma maldição. Pois está escrito na lei de Moisés, "Maldito
todo aquele que não permanece em todas as coisas que estão escritas no livro da
lei" [Deuteronômio 27:26]. Ninguém tem feito tudo com perfeição, nem você
vai se atrever a negar isso. Alguns mais e outros menos têm observado as
ordenanças prescritas. Se aqueles que estão sob esta lei parecem estar sob uma
maldição por não ter observado todos os requisitos, quanto mais estarão todas
as nações que praticam a idolatria, seduzem jovens e cometem outros crimes? Se o Pai de todos desejou que seu Cristo
tomasse sobre si a maldição de toda família humana, sabendo que depois de
ter sido crucificado e morto Ele ressuscitou, por que você discute sobre Ele, que se submeteu a sofrer essas coisas de
acordo com a vontade do Pai, como se Ele estivesse amaldiçoado, e nem
sequer se lamenta por vocês mesmo. (Ibid., 95)
Justino
claramente adota a visão protestante da substituição penal. Cristo tomou sobre
si a maldição que estava sobre nós em virtude do pecado. Se ele anula essa
maldição, nenhuma condenação pode permanecer sobre quem está em Cristo. O
contrário disso seria afirmar a insuficiência do sacrifício de Cristo.
Tertuliano de Cartago
(160-220)
E assim eles dizem
"o batismo não é necessário pois para eles a fé é suficiente; além disso,
Abraão agradou a Deus por um sacramento sem qualquer água, mas de fé". Em
todo o caso, são as coisas posteriores que têm força probatória, e as
subsequentes prevalecem sobre as antecedentes. Concedo que, em tempos passados, houve salvação por meio da fé nua,
antes da paixão e ressurreição do Senhor, mas agora essa fé foi ampliada, e se
tornou uma fé que acredita em seu nascimento, paixão e ressurreição (...) (Sobre o batismo 13)
Tertuliano
de fato acreditava em justificação por obras, mas ele testemunha a existência
de um grupo cristão defensor da justificação somente pela fé. Esse pai da
igreja expressa o que falamos sobre aqueles que acreditavam num tipo
justificação por obras diferente do conceito romanista. Ele concedeu que a
justificação de Abraão foi pela fé, enquanto a igreja romana ensina que o
patriarca foi justificado também por obras. Os católicos interpretam Tiago como
dizendo que Abraão foi justificado por obras, já Tertuliano não sustentaria
essa interpretação. Além do mais, Tertuliano acreditava que o perdão por
pecados graves após o batismo estava disponível apenas uma vez, o que se choca
com a teologia romana a respeito.
Vitorino (280-356)
Cada mistério que é
promulgado por nosso Senhor Jesus Cristo exige
apenas a fé. O mistério foi decretado naquela época por nossa causa e
destina-se a nossa ressurreição e libertação, devemos ter fé no mistério de Cristo e em Cristo. Os patriarcas
prefiguraram e predisseram que o homem
seria justificado pela fé. Portanto, assim como foi creditado como justiça
a Abraão que tinha fé, assim também nós
se tivermos fé em Cristo e em cada um de seus mistérios, seremos filhos de
Abraão. Toda a nossa vida será
considerada como justa. (Epistle to the Galatians, 1.3.7. Mark J. Edwards, ed., Ancient Christian Commentary on Scripture, New
Testament VI: Galatians, Ephesians, Philippians [Downers Grove: InterVarsity
Press, 1998], p. 39)
Vitorino
ensina a suficiência da fé para nossa justificação. Quem tiver fé em Cristo e
em seus mistérios (aqui entendido como seu evangelho) se torna filho de Abraão
(uma expressão que designa um cristão genuíno) e tem não somente uma parte, mas
toda a sua vida considerada justa.
“Pois vocês são
salvos pela graça mediante a fé". O apóstolo explicou claramente que
deveria haver fé da nossa parte, mas devemos acreditar somente em Cristo. Esta [salvação] é nossa somente desta
forma, não somos salvos pelo nosso mérito, mas pela graça de Deus. Para
resumir, Paulo acrescenta o seguinte: "E isso não vem de vocês, é um dom
de Deus; não vem de obras, para que ninguém se glorie". Nós fomos salvos
pela graça, Paulo afirma, isso é de Deus. Então vocês também Efésios, porque
vocês foram salvos, isso não é de vocês, é um dom de Deus. Também não é de suas obras, mas é a graça de Deus, é o dom de Deus -
não pelo seu mérito. (Commentary on
Ephesians (ed. A. Locher 152; also in CSEL 83,2); translation S.A. Cooper, Metaphysics
and Morals in Marius Victorinus Commentary on the Letter to the Ephesians, New
Yorketc., 1995, 67; see also his comments, 159-160)
A
salvação é pela graça somente mediante a fé somente. Vitorino ao comentar
Efésios 2:8 excluiu as obras do processo.
Sabemos que o homem não é justificado por obras da lei,
mas que ele é justificado através da fé, isto é, a fé em Jesus Cristo. Desde que nós sabemos isso - diz ele - acreditamos em
Jesus Cristo, para sermos justificados pela fé, não pelas obras da lei. Por
pelas obras da lei nenhuma carne, isto é, nenhum homem que está na carne, será
justificado (Rm. 3:20). Então, sabendo disso, nós acreditamos que a
justificação se dá pela fé, estamos muito errados se retornarmos ao judaísmo,
do qual viemos a fim de ser justificado não pelas obras, mas pela fé e pela fé
em Cristo. Pois precisamente fé somente
dá justificação e santificação. (Ed. Locher, 26. Sola fides also occurs in Marius Victorinus‟ comments on Gal. 3:2; 3:7;
3:21-22; 6:10; Eph. 2:14-15; 3:16-17; Phil. 1:29.)
Trata-se
de uma exposição clara da Sola Fide.
Hilário de Poitiers
(300-368)
Era perturbador para
os escribas [em Mateus 9: 3] que o pecado fosse perdoado por um homem (eles
consideravam que Jesus Cristo era apenas um homem) e que ele perdoasse o
pecado, já que a lei não era capaz de garantir o perdão, uma vez que somente a fé justifica. (Comentário sobre
Mateus 8:6)
Em outras palavras, o
filho mais novo [em Mateus 21:30] declarou obediência, embora ele não a tenha realizado
porque somente a fé justifica. Por
esta razão, os publicanos e as prostitutas estarão em primeiro lugar no reino
dos céus.
(Ibid., 21:15)
Pela duplicação dos
talentos [em Mateus 25:22] descobrimos que obras foram adicionados à fé. O que alguém acredita em sua mente, ele
realiza através de atos e ações. (Ibid., 27:8)
As
citações são claras. Nas duas primeiras é explicitamente afirmado que somente a
fé justifica. Tenhamos em mente que Hilário está comentando passagens em que as
pessoas foram salvas pela fé sem realizar nenhuma obra. A última afirma que obras
são frutos da fé. Aquele que acredita de fato realizará boas ações. O erudito patrístico D.H. Williams escreve:
Em todo o comentário
há uma ênfase inequívoca na teologia que decorre das epístolas de Paulo,
especialmente no que diz respeito ao
conceito de ser justificado pela fé. Aqui, cerca de sessenta anos antes de
Agostinho e sem as contribuições origenistas, Hilário segue pouco ou nenhum
precedente. Cerca de vinte ocorrências
da frase justificado pela fé (fidei iustificatio) são encontradas expressando
uma interpretação pertinente da compreensão do Evangelho. Parece que o
interesse de Hilário envolve muito mais do que meras reformulações de passagens
paulinas. (Commentary On Matthew [Washington, D.C.: The Catholic
University of America Press, 2012] pp. 30-31)
Dídimo o cego
(313-398)
Mas como é que alguns
dizem que porque o espírito dá vida ao corpo é mais honroso do que o corpo,
portanto, as obras são mais honrosas do que a fé? Eu tenho olhado este assunto
em detalhe e devo tentar explicar a minha posição. É sem dúvida verdade que o
espírito é mais nobre do que o corpo, mas isso não significa que as obras podem
ser colocadas antes da fé, porque uma
pessoa é salva pela graça, não pelas obras, mas pela fé. Não deve haver
nenhuma dúvida de que a fé salva e então
vive para realizar suas próprias obras, assim as obras que são adicionadas
para a salvação pela fé não são as da lei, mas de um tipo completamente
diferente.
(Gerald Bray, ed., Ancient Christian Commentary on
Scripture: New Testament, Vol. XI, James, 1-2 Peter, 1-3 John, Jude [Downers
Grove: InterVarsity Press, 2000] p. 34)
A
afirmação não poderia ser mais clara – a salvação é pela graça mediante fé.
Essa fé salvadora “vive para realizar suas próprias obras”, ou seja, uma fé que
gera boas obras.
Basílio de Cesareia
(330-379)
Aquele que se gloria,
glorie-se no Senhor, que Cristo para nós foi feito por Deus santificação,
sabedoria, justificação, e redenção. Este é o perfeito e puro gloriar-se em
Deus, quando alguém não se orgulha devido à sua própria justiça, mas sabe que é
realmente indigno da verdadeira justiça e
é justificado unicamente pela fé em Cristo. (Homilia XX,
Homilia De Humilitate, §3, PG 31:529)
É
autoexplicativo. Basílio assim como outros pais da igreja nem sempre foi
consistente, mas é um fato que eles ensinaram a justificação somente pela fé.
Gregório de Níssa
(335-394)
Abandonando a
curiosidade da mente, Abraão, diz o texto, creu em Deus, e isso lhe foi
imputado como justiça [Romanos 4:3; cf. Gênesis 15: 6]. E isso, diz o Apóstolo,
não foi escrito para Abraão, mas para nós, pois
é pela fé e não pela sabedoria que os homens são considerados justos diante de
Deus. A sabedoria tem um tipo de valor comercial, concedida apenas ao
conhecedor. Mas isso não é assim na fé cristã. Pois é o firme fundamento das
coisas que se esperam [Hebreus 11: 1], não de coisas que são conhecidas. Nós
não esperamos pelo que já possuímos. Como diz o Apóstolo "porque o que
alguém vê como o esperará?" [Romanos 8:24]. (Against Euonius - Book
XII)
Apesar
de não contrastar fé com obras, Gregório acredita que a fé é causa instrumental
da justificação.
A igreja católica não crê na substituição penal de Cristo,mas sim na teoria da satisfação de Anselmo,vc poderia fazer un artigo falando da substituição penal e abordar as críticas feitas à essa visão (substituição penal de Cristo)?
ResponderExcluirPretendo escrever sobre isso mais pra frente. Sobre a Sola Fide em geral.
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