terça-feira, 12 de abril de 2016

João Crisóstomo e o Papado - Parte 1


João Crisóstomo foi bispo de Constantinopla e considerado uma dos principais pais orientais. Ele é frequentemente citado em favor da doutrina papal. Esses dois sites católicos o apresentam em favor dessa doutrina: apologistas católicos e heresias refutadas.

Os católicos deturpam os pais da igreja basicamente de três formas:

(1) Citar algo que é dito sobre Pedro considerando prova de sua primazia sem aplicar o mesmo raciocínio às citações semelhantes relacionadas aos outros apóstolos;
(2) Pressupor que uma afirmação feita sobre Pedro automaticamente se aplica ao bispo de Roma;
(3) Citar algo sobre o bispo de Roma como evidência do papado sem aplicar o mesmo raciocínio quando palavras semelhantes são dirigidas a outros bispos de destaque;
(4) Pressupor que quando um pai da igreja atribui uma posição mais importante ao apóstolo Pedro ou ao bispo de Roma significa necessariamente o que os papistas hoje entendem como primazia papal.

Primazia de honra vs primazia jurídica

Esses quatro erros acontecem na análise papista de João Crisóstomo. É inegável que Crisóstomo atribui algum tipo de primazia a Pedro. A questão é se Pedro tinha primazia jurídica sobre os demais apóstolos. É óbvio que Pedro tinha autoridade jurídica (jurisdição) sobre toda a igreja. Pedro também teve uma atuação destacada no colégio dos 12. Ele foi o primeiro a fazer a confissão de Mateus 16:18, foi ele quem primeiro pregou no dia de pentecostes e também parecia ter uma relação mais próxima a Jesus (João também – chamado de “o discípulo amado”). Tudo isso coloca Pedro numa posição de destaque no colégio apostólico, mas não implica que tinha autoridade sobre os demais. Pedro não poderia tomar decisões que vinculavam aos demais com base somente na sua própria autoridade.

É nesse aspecto que protestantes e ortodoxos fazem uma distinção entre “primado de honra” e “primado jurídico”. Se Pedro recebeu de Cristo uma autoridade sobre os outros apóstolos que lhe permitia tomar decisões que vinculavam os demais com base em sua própria autoridade, ele tinha autoridade jurídica. Mas, se ele não podia fazer isso, tendo apenas uma atuação destacada entre os doze, podendo até mesmo assumir a liderança em determinadas situações ou mesmo ser o porta-voz dos apóstolos, ele tinha apenas um primado de honra.

Deixe-me fazer uma analogia que pode esclarecer o conceito. Imagine um grupo de doze pessoas que precisa fazer um projeto qualquer. Nenhum dos doze foi apontado como o chefe jurídico do grupo, ou seja, ninguém pode impor sua vontade sobre os demais sem o consentimento ou apoio dos outros. Imagine que as decisões tomadas devessem ser aprovadas mediante apoio da maioria ou então por consenso unânime. Nesse caso, podemos afirmar que ninguém detinha a primazia jurídica no grupo. Porém, como em todo o grupo, alguém se destaca. Um dos doze tem mais iniciativa e se envolve de forma mais intensa no projeto. Ele dá mais ideias, dá mais contribuições. É ele quem geralmente se comunica com o público externo. Em situações críticas, ele toma a frente para executar o que o grupo havia acordado em fazer. O público externo geralmente o vê como aquele que tem mais sabedoria e conhecimento. Esse indivíduo naturalmente se tornou um líder no grupo, mas as decisões do grupo ainda precisam ser aprovas pela maioria ou por todos. Esse é um típico exemplo de alguém com primazia de honra. Era esse o posto ocupado por Pedro entre os doze (e aqui estou excluindo Paulo). Veremos então qual desses conceitos é adotado por João Crisóstomo.

O argumento católico

Pedro, a cabeça dos Apóstolos, o primeiro na Igreja, o amigo de Cristo, que não recebeu a revelação do homem, mas do Pai... esse Pedro, e quando digo Pedro, eu quero dizer rocha inquebrável, o fundamento inabalável, o grande apóstolo, o primeiro dos discípulos, o primeiro chamado, o primeiro a obedecer. (De Eleemos III, 4, vol II, 298 [300])

Pedro, o corifeu do coro dos apóstolos, a boca dos discípulos, o fundamento da fé, a base da confissão, o pescador do mundo, que trouxe de volta a nossa raça da profundidade do erro para o céu, aquele que é em todos os lugares fervoroso e cheio de ousadia, ou melhor, mais cheio de amor do que de ousadia... (Hom de Dezem mille talentis, 3, vol III, 20 [4])

Trouxe essas duas por questão de brevidade, mas há outras em que adjetivos semelhantes são dados a Pedro. Deveríamos concluir a partir disso que Pedro era um papa, ou seja, ele tinha autoridade jurídica sobre os outros apóstolos? Veremos que não.

A primazia de Tiago

Não havia arrogância na Igreja. Depois que Pedro e Paulo falam e ninguém os silencia: Tiago espera pacientemente, ele não começa (para a próxima palavra). Grande era a ordem (do processo). Nenhuma palavra João fala aqui, nenhuma palavra dos outros apóstolos, mas mantiveram a harmonia, pois Tiago foi investido com o governo principal [em Atos 15], e concebo isso sem dificuldade. Tão limpa era a sua alma do amor da glória. "E depois que eles terminaram de falar, Tiago respondeu" [v. 13]. Pedro falou com mais força, mas Tiago aqui [fala] mais suavemente, pois assim cabe [agir] alguém na mais alta autoridade, deixar o que é desagradável para os outros a dizerem, enquanto ele próprio aparece na parte mais moderada. (Homilias sobre os Atos dos Apóstolos, 33)

Aqui vemos a deturpação (1). Destaca-se que essa citação se dá num contexto em que Pedro é mencionado. Veja a natureza do argumento – Tiago falou mais moderadamente porque cabia agir assim por estar no posto mais alto da autoridade, já aos que não estão nesse posto, cabia dizer as coisas mais desagradáveis. O detalhe primordial é que ele inclui Pedro nesse segundo grupo. Ou seja, Tiago estava numa posição de autoridade sobre Pedro pelo menos nesse episódio específico. A questão é – se Crisóstomo acreditava que Pedro tinha primazia jurídica sobre os demais, como ele poderia estabelecer esse tipo de relação entre Pedro e Tiago? A melhor explicação é que ele podia atribuir a alguém um papel de liderança ou proeminência sem ter em mente uma primazia de natureza jurídica. O concílio de Jerusalém é uma forte evidência da ausência do papado na igreja apostólica, pois se fosse o caso, deveria ser evidente nesse concílio. Pedro não convocou, nem presidiu, nem deu a palavra final e muito menos ratificou esse concílio.

O apologista católico Dom Champman responde a essa questão afirmando que Tiago era chefe dos fariseus, portanto, cabia a ele a autoridade na questão porque era líder dos fariseus cristãos que havia começado a polêmica debatida pelo concílio. O problema é que essa explicação não consta do texto de Crisóstomo. O católico está empurrando para o texto algo que não está lá. Crisóstomo entendeu que Tiago foi o presidente do concílio, o que é inconsistente com a ideia de que Pedro fosse um papa.
  
A primazia de João

O filho do trovão [o apóstolo João], o amado de Cristo, o pilar das Igrejas em todo o mundo, que possui as chaves do céu, que bebeu o cálice de Cristo e foi batizado com o Seu batismo, que se coloca sobre o peito do seu Mestre com muita confiança, este homem vem adiante para nós agora. (Homilias sobre o Evangelho de João, 1:2)

Não era somente Pedro que tinha o poder das chaves. Assim como Pedro, João também é o pilar das igrejas em todo o mundo. Os católicos argumentam que Pedro foi chamado de fundamento, enquanto João apenas de pilar, como se houvesse uma hierarquia entre fundamento e pilar. Essa hierarquia não existe nos escritos de Crisóstomo. Lembremos que João, Tiago e Pedro são chamados por Paulo de pilares da igreja (Gal. 2). Supunha-se que João era um pilar que estava sobre o fundamento que era Pedro. Como então Pedro poderia ser um dos pilares se era o fundamento que sustentava os pilares? Como alguém poderia ser simultaneamente pilar e fundamento? A explicação católica dessas metáforas bíblicas não faz sentido algum.

Ainda sobre João, diz:

João estava prestes a conversar conosco para dizer suas próprias palavras, nós precisamos descrever sua família, seu país e sua educação (...) Não é assim com este pescador [João], pois tudo o que ele diz é infalível, como se estivesse sobre uma rocha, ele nunca muda seu fundamento. Uma vez que ele tem sido considerado digno de estar nos lugares mais secretos, e tem o Senhor de todos falado através dele, ele não está sujeito a nada que é humano. (Segunda Homilia do Evangelho de São João)

Alguns argumentos anti-papais podem ser formulados das palavras de Crisóstomo:

(1) João era infalível. Apesar de não dizer explicitamente, ele deveria considerar Pedro e todo o colégio apostólico infalível. Se todos eram infalíveis, para que a necessidade de um apóstolo com a primazia jurídica para preservar a igreja do erro? Se nenhum dos apóstolos poderia ensinar algo errado por carisma divino, o papado entre os apóstolos tornar-se-ia dispensável e obsoleto.
(2) Para não deixar dúvidas, ele diz “ele não está sujeito a nada que é humano”. A igreja romana afirma que João estava sujeito ao homem Pedro, e mais, sujeito aos supostos bispos de Roma (Lino, Anacleto e Clemente). João viveu enquanto esses homens estavam vivos, supostamente liderando toda a igreja. A ideia de que um apóstolo foi subordinado a um bispo não foi expressa por nenhum pai da igreja e seria considerada blasfema;
(3) Se João era individualmente infalível e isso não dependia de Pedro como testemunha Crisóstomo, os bispos de Éfeso (supostos sucessores de João) também seriam infalíveis (de acordo com a lógica argumentativa que os católicos aplicam aos sucessores de Pedro);
(4) Se Pedro de fato fosse um papa (concedemos para o bem do argumento), porque o seu sucessor direto seria o bispo de Roma e não João. Entre um apóstolo vivo e um bispo, quem seria mais qualificado para sucedê-lo? Obviamente o apóstolo.

A primazia de Paulo

Assim que Paulo viu todo o povo da Galácia entusiasmado, uma chama acendeu-se contra a sua Igreja, e o edifício abalado cambaleou a ponto de cair. [Paulo] estava preenchido com uma mistura de sentimentos de raiva e desânimo, que ele expressa nas palavras: "Eu bem quisera estar presente convosco agora, e mudar a minha voz" [Gal 4:20]. Ele escreve a epístola como uma resposta a essas acusações. Esse é o seu objetivo desde o início, pois os detratores de sua reputação tinham dito que os outros eram discípulos de Cristo, mas ele era homem dos "apóstolos”. Por isso, ele começa assim: "Paulo, apóstolo não dos homens, nem por intermédio de homem". Esses enganadores, como eu estava dizendo antes, tinham dito que este homem era o último de todos os Apóstolos e foi ensinado por Pedro, Tiago e João. Eles foram primeiramente chamados, tendo uma primazia entre os discípulos, e também receberam suas doutrinas de Cristo; e que era, portanto, apropriado obedecê-los, em vez deste homem [Paulo]; e que não proibiam nem a circuncisão nem a observância da Lei. Por isso e por linguagem semelhante, e por depreciarem Paulo exaltando a honra dos outros Apóstolos, embora não falassem para louvá-los [os outros apóstolos], mas para enganar os Gálatas, induzindo-os a aderir demasiadamente à Lei. Daí a conveniência de seu início. Como eles depreciavam sua doutrina, dizendo que veio de homens, enquanto que a de Pedro veio de Cristo, ele imediatamente se dirige a este ponto, declarando-se um apóstolo "não de homens, nem por intermédio de homem”. Foi Ananias quem o batizou, mas não foi ele que lhe tirou de seu modo errado e o iniciou na fé, mas o próprio Cristo enviou do alto sua voz maravilhosa, pela qual Ele o incluiu em sua rede. Ele chamou Pedro e seu irmão e João e seu irmão enquanto caminhava à beira do rio [Matt 4:18.), mas Paulo depois de sua ascensão ao céu [Atos 9:3,4]. E assim como estes não requereram uma segunda chamada, mas deixaram logo as redes e tudo o que tinham, e o seguiram, do mesmo modo este homem em sua primeira chamada foi vigorosamente adiante, travando, assim que ele foi batizado, uma guerra implacável com os judeus. Nesse sentido, ele principalmente se sobressaiu aos outros Apóstolos, quando ele diz "Eu trabalhei muito mais do que todos eles" [I Cor 15:10]. No entanto, ele não faz tal afirmação, mas se contenta em ser colocado no mesmo nível que eles. Na verdade, seu objetivo era não estabelecer uma superioridade para si, mas derrubar o fundamento do erro deles [os inimigos de Paulo]. Não sendo "dos homens" faz referência a todos para dizer que a raiz e origem de seu evangelho é divino, mas não sendo "através do homem" é específico para os Apóstolos, pois ele os chamou não pela ação dos homens, mas por sua próprio ação. Mas por que ele não fala da sua vocação ao invés de seu apostolado e diz "Paulo, chamado não por homens"? Porque aqui estava toda a questão, pois eles diziam que o ofício de professor tinha sido cometido a ele por homens, ou seja, pelos Apóstolos, a quem, portanto, ele devia obedecer. Mas que não foi confiada a ele por homens, Lucas declara nessas palavras: "Enquanto eles ministravam perante o Senhor e jejuavam, disse o Espírito Santo: separem para mim Barnabé e Saulo" [Atos 13:2]. (Comentário sobre Gálatas, 1:1-3)

A exegese de Crisóstomo não deixa espaço para a doutrina papista. O objetivo de Paulo ao escrever a epístola aos Gálatas era se defender das seguintes acusações:

(1) Ele recebeu seu evangelho através dos outros apóstolos;
(2) Ele tinha que obedecer aos outros apóstolos.

A defesa de Paulo era afirmar a origem de seu evangelho e apostolado em Cristo. Ele não foi autenticado por outro apóstolo, o que incluiria Pedro, mas sua autoridade vinha diretamente de Jesus. Isso por si só já refutaria qualquer primazia jurídica de Pedro sobre Paulo. Porém, Crisóstomo vai mais longe. Ele afirma que Paulo “se sobressaiu aos demais apóstolos”, embora a intenção do apóstolo dos gentios fosse apenas estar em pé de igualdade aos demais. O ponto central do argumento que derruba qualquer pretensão papal é esse: diferente do que os detratores de Paulo afirmavam, ele não devia obediência aos demais apóstolos. Portanto, ele não devia obediência a Pedro. É interessante observar que até mesmo os inimigos de Paulo desconheciam o papado de Pedro, pois afirmavam que ele devia obediência não somente ao pescador, mas também a Tiago e João.

Da mesma forma, quando discute Gálatas 1:18, Crisóstomo comenta que Paulo se humilhou diante de Pedro e Tiago, como se ele fosse uma autoridade inferior, mesmo que ele realmente não fosse (Comentário sobre Gálatas, 1:18). A conclusão é que Crisóstomo atribuía tipos de primado a diferentes apóstolos e pessoas em diferentes contextos, mas quando tratava da jurisdição, tratava todos os apóstolos como iguais.

Os corifeus, Pedro o fundamento da Igreja, Paulo o vaso da eleição. (Contra ludos et theatra 1, PG VI, 265. Cited by Chapman, Studies on the Early Papacy (London: Sheed & Ward, 1928), p. 76)

Outros apóstolos também eram corifeus – um título que significa líder de um coro. Por isso, a aplicação desse termo a Pedro não prova seu papado, pois não era exclusivo. Os argumentos católicos falham nisso. Os títulos de Pedro não são exclusivos.

O Deus misericordioso costuma dar esta honra aos seus servos: por sua graça outros podem adquirir a salvação, como foi o caso do abençoado Paulo, o professor do mundo, que emitiu os raios de seu ensino em todos os lugares. (Homilia 24 sobre o Gênesis)

Quando o Querubim cantar na glória, onde o Serafim estará voando, lá veremos Paulo com Pedro, e como chefe e líder do coro dos santos, e desfrutaremos de seu generoso amor (...) Eu amo Roma por isso, embora certamente alguém tenha outros motivos para elogiá-la (...) O céu não é tão brilhante quando o sol envia seus raios, como é a cidade de Roma enviando essas duas luzes em todas as partes do mundo. Dali irá Paulo ser alcançado, dali Pedro. Apenas reflita e trema com o pensamento do que Roma irá ver quando Paulo se levantar subitamente de seu jazigo juntamente com Pedro, e for elevado até ao encontro do Senhor. Roma irá enviar uma rosa até Cristo! (...) A cidade terá sobre ela duas coroas! (...) Portanto, eu admiro a cidade, não pela grande quantidade de ouro, nem pelas colunas, nem por outra ostentação de lá, mas por esses pilares da Igreja. (Homilias sobre a Epístola aos Romanos, 32)

Um lugar onde a doutrina papal de Crisóstomo deveria ser explícita é aqui. Ele explica os motivos pela admiração a Roma, mas não cita algo como o papado de Pedro. Na verdade, ele contraria essa ideia ao colocar não somente Pedro, mas também Paulo como pilar dessa igreja. Ou Crisóstomo desconhecia o papado de Pedro ou era um péssimo professor ao ignorar o motivo fundamental do porque Roma deveria ser louvada.

Diferentes em honra, mas iguais juridicamente

E se alguém disser "Como, então, Tiago recebeu a cadeira em Jerusalém?". Eu daria essa resposta, que Ele nomeou Pedro professor não de uma cadeira, mas do mundo (...) e ele fez isso para tirar deles (Pedro e João) a simpatia inadequada que sentiam um pelo outro, pois desde que eles estavam prestes a receber a carga do mundo, era necessário que eles deixassem de ser estreitamente associados juntos. (Homilias sobre o Evangelho de João, 88,1-2)

O primeiro trecho da citação acima é geralmente trago por insinuar a superioridade de Pedro em relação a Tiago. Mas, logo adiante, vemos que Pedro e Tiago são colocados em pé de igualdade. Ambos vão receber a carga do mundo. Crisóstomo poderia falar de um apóstolo como tendo a liderança sem ter uma primazia jurídica em mente. Isso fica especialmente patente abaixo:

Ele [Paulo] chama os gentios de incircuncisos e os judeus de os da circuncisão, e declara o seu próprio posto como sendo igual a dos Apóstolos, e, comparando-se ao seu líder [Pedro], não com os outros, ele mostra que a dignidade de cada um era a mesma. (Comentário sobre Gálatas, 2, v.8)

No mesmo contexto, ele afirma a liderança de Pedro e a igual dignidade de todos os apóstolos, tomando como exemplo Paulo. Se todos eles tinham a mesma dignidade, não poderia haver um apóstolo com primazia jurídica. Crisóstomo atribui primazia a diferentes pessoas como Tiago, Pedro e Inácio. Por isso, essa primazia não pode ser jurídica. Vemos abaixo:

Pedro, Tiago e João foram primeiramente chamados, e tinham uma primazia entre os discípulos. (Comentário sobre Gálatas, 1, vv. 1-3)

Mas de que se tratava essa primazia? Ele responde:

Ele tomou os corifeus e os levou para cima num alto monte (...) Porque Ele levou apenas eles [Mateus 17: 1]? Porque estes eram superiores aos demais. E Pedro de fato mostrou a sua superioridade ao amá-lo excessivamente, mas João por extremamente amá-lo e Tiago novamente por sua resposta na qual ele disse com o seu irmão: "Nós somos capazes de beber o cálice", não por sua resposta somente, mas também por suas obras, tanto pelo resto deles e por cumprir o que ele disse. Ele era tão zeloso e penoso para os judeus que o próprio Herodes supôs que ele tinha aqui feito um grande favor aos judeus quando o matou. (Homilias sobre o Evangelho de Mateus, 56:2)

Católicos criticam a distinção primazia jurídica vs primazia de honra que ortodoxos e protestantes fazem, mas é evidente que Crisóstomo podia afirmar a primazia de alguém sem implicar uma autoridade jurisdicional sobre outros. Pedro era superior não porque recebeu uma autoridade especial de Cristo, mas porque amou a Jesus especialmente. Da mesma forma, João e Tiago detinham a primazia sem terem autoridade jurídica sobre os outros apóstolos.

Você não vê que a liderança estava nas mãos destes três, especialmente de Pedro e Tiago? Esta foi a principal causa de sua condenação por Herodes. (Homilias sobre os Atos dos Apóstolos, XXVI)

Mas uma vez a liderança é atribuída não somente a Pedro. Ele ainda diz:

Mas observe como Pedro faz tudo com o consentimento comum; nada imperiosamente. (Homilia III em Atos 1:12)

Em outras palavras, Pedro não mandava nos demais. Esse é um argumento geralmente ignorado pelos católicos. O pescador poderia em certos momentos assumir uma posição de liderança ou tomar a frente em momentos importantes como a pregação no dia de pentecostes, mas isso não implica que tinha autoridade sobre os demais. Quando foi preciso tomar decisões vinculantes para toda a igreja, Pedro não decidiu sozinho. Pelo contrário, um concílio foi convocado e foi Tiago quem o presidiu e deu a palavra final (Atos 15).

Análise de citações apresentadas pelos católicos

Por conseguinte, no reino a honra será diferente, e os discípulos não eram todos iguais, mas três se destacavam, e entre os três havia muita diferença. Diante de Deus há muita exatidão, até em extremo. “E até de estrela para estrela há diferença de brilho” [1Cor 15:41]. Apesar de serem todos apóstolos, todos se assentarão em doze tronos, todos deixaram tudo o que tinham, todos conviveram com Cristo, no entanto especialmente assumiu três. Além disso, de dois deles também Cristo afirmou que são mais eminentes e excelentes, pois declarou: “Todavia, sentar à minha direita ou à minha esquerda não cabe a mim concedê-lo, mas é para aqueles a quem está preparado” (Mc 10,40). Prefere Pedro a todos, dizendo: “Tu me amas mais do que estes?” [Jo 21:15]. João era o mais amado. De fato, o exame é o mais apurado. Por pouco que superes o próximo, seja fraco, seja quem for, Deus não o negligencia. (Homilia Sobre o livro de Romanos 31)

Que Crisóstomo atribuía primazias de honra aos discípulos nós concordamos, a questão é se ele atribuía primazia jurídica ao apóstolo Pedro. Todo o contexto dessa citação se refere a primados de honra. Faço os seguintes apontamentos:

(1) A citação fala de primados de honra ao dizer: “no reino a honra será diferente”;
(2) Ele destaca três discípulos entre os doze e não apenas Pedro;
(3) Ele estabelece primado somente entre os doze. Paulo não fazia parte dos doze, portanto, mesmo que alguém fosse o maior dos doze, isso por si só não quer dizer que ele seria maior do que Paulo;
(4) Dentre os três, Cristo preferiu dois e não apenas um. Esses dois sentariam a sua esquerda e direita;
(5) Quando diz que Cristo preferiu Pedro, não tem em vista autoridade jurídica. Pedro seria o primeiro, pois era quem mais amava a Cristo e não porque recebeu autoridade sobre os demais. João foi o mais amado;
(6) Se Crisóstomo tinha primados jurídicos em vista, ele acreditaria numa estrutura hierárquica no mínimo estranha: três apóstolos mandavam nos doze. Desses três, dois mandavam num terceiro e o primeiro mandava no segundo. Seria uma hierarquia de quatro níveis;
(7) Que se trata de primados de honra, fica mais claro a partir do contexto dessa citação:

Pois mesmo que todos fossem crentes, nem todos eram iguais, mas eram diferentes em seus méritos. Portanto, Ele trouxe a eles uma rivalidade, não deixando de elogiar nenhum homem. Pois, quando os que trabalham mais não recebem recompensa maior, muitos se tornam mais apáticos (...) Haverá um exame rigoroso de tudo, e se você foi melhor do que o seu vizinho, mesmo que seja por muito pouco, Deus não vai esquecer disso (...) Ló era um homem justo, mas não tanto como foi Abraão. Ezequias era justo, mas não tanto como foi Davi, e todos os profetas eram justos, mas não tão como era João.

Fica muito claro como não havia qualquer autoridade jurídica em vista. Alguns crentes eram melhores do que outros e isso não implicariam em autoridade. O zelador da igreja pode ser um cristão melhor do que o Padre, mas isso não implica que ele tenha autoridade sobre o sacerdote. Da mesma forma, Paulo disse que trabalhou mais do que os outros, o que o colocaria acima de Pedro. Isso não implicaria que ele mandasse em Pedro. Sigamos:

Depois daquele importante [Pedro] cair (pois não há pecado igual à negação), após um tão grande pecado, Ele o trouxe de volta à sua antiga honra e lhe confiou a chefia da Igreja universal, e, o que é mais do que tudo, Ele nos mostrou que ele tinha um grande amor por seu mestre mais do que qualquer um dos apóstolos, pois ele disse: “Pedro amas-me mais do que estes”. (Homilia V sobre a Penitência 2)

Ninguém duvida que Pedro tivesse a chefia da igreja universal. O que duvidamos é que ele tivesse autoridade jurídica sobre os demais apóstolos e que fosse o único chefe da igreja universal. No mais, Crisóstomo nos dá um dos motivos da primazia honorífica de Pedro: “Ele nos mostrou que ele tinha um grande amor por seu mestre mais do que qualquer um dos apóstolos”. Ou seja, nada de primazia jurídica em vista.

E por que, tendo passado pelos outros, Ele fala com Pedro sobre estas questões? Ele foi o escolhido dentre os Apóstolos, a boca dos discípulos, o líder do coro [corifeu]; por isso, Paulo foi vê-lo em vez de ir aos outros. E também para mostrar que ele tem que ter confiança agora, já que a sua negação tinha sido expurgada, Jesus coloca em suas mãos a principal autoridade entre os irmãos. Ele não traz a negação, nem o repreende pelo lugar que ele tinha tomado, mas diz: Se você me ama, presida seus irmãos, e o amor ardente que você já manifestou no qual se alegrou, mostra agora; e a vida que você disse que iria dar para mim, agora dê pelas minhas ovelhas. (Homilia Sobre o Evangelho de João, 88)

Crisóstomo de fato coloca Pedro numa posição de destaque aqui. Os títulos “boca dos discípulos”, “líder do coro” (corifeu) não são suficientes para afirmar o papado de Pedro, pois títulos semelhantes foram dados a outros apóstolos. Elenco abaixo alguns problemas do uso papista dessa citação:

(1) Quem seriam os irmãos? Ele termina a citação falando das ovelhas. É possível que a referência aos irmãos não incluíssem os demais apóstolos, mas as ovelhas da igreja. Obviamente Pedro foi constituído pastor, e segundo Crisóstomo o principal pastor, mas isso não implica em autoridade jurídica sobre os demais. Essa interpretação está mais de acordo com tudo o que vimos de Crisóstomo. Ele disse que o apóstolo João não estava sujeito a homem algum. Seria flagrante incoerência dizer que João devia obediência a Pedro;
(2) Supondo que a interpretação correta seja que “irmãos” inclui os outros 11 discípulos, precisamos lembrar que Paulo não fazia parte desse grupo. Nesse momento, Paulo sequer era um cristão. Ele afirma que Paulo foi ao encontro de Pedro reconhecendo sua primazia entre os discípulos (jurídica ou de honra), mas não afirma que Pedro estava sobre Paulo. Lembremos que ele disse que Paulo não devia obediência a nenhum apóstolo;
(3) Ele disse “principal autoridade entre os irmãos” e não “autoridade sobre os irmãos”. É no mínimo ambíguo. Ele poderia estar falando de um líder mais preeminente entre os outros líderes, no sentido de alguém que se destacaria em seu papel;
(4) Mesmo que “irmãos” inclua os discípulos, o termo presidir ou líderar não implica necessariamente em autoridade jurídica. Crisóstomo poderia estar falando de encaminhar os seus irmãos ou levá-los ao mesmo amor que ele nutria por Cristo. Para isso, não seria necessário uma autoridade jurídica.

Esses são alguns problemas da interpretação papista. De qualquer forma, temos que levar em conta tudo o que Crisóstomo escreveu. Dessa ótica, a interpretação que entende primazia de honra é mais plausível do que primazia jurídica.

E naqueles dias, levantou-se Pedro no meio dos discípulos, e disse. Tanto sendo ardente, e tendo sido colocado sob a responsabilidade do rebanho por Cristo, e tendo precedência em honra, ele sempre começa o discurso (...) Mas observe como Pedro faz tudo com o consentimento comum, nada imperiosamente. E ele não fala, portanto, sem um significado. Mas observe como ele os consola sobre o que se passara. Na verdade, o que tinha acontecido não lhes causou pequena consternação (...) Por isso, no início, ele disse: “Irmãos, cabe a nós escolher dentre eles.” Ele defere a decisão a todo o corpo, tornando-os objetos eleitos de reverência, e se mantendo afastado de tudo individualmente no que diz respeito ao resto (...) “Um deve ser ordenado para ser testemunha”, que seu colégio não pode ser deixado mutilado. Então por que não coube ao próprio Pedro fazer a eleição? Qual foi o motivo? Este: que ele pudesse não parecer concedê-la de favor. E, além disso, ele ainda não estava dotado com o Espírito (...) Aqui é premeditado para fornecer um professor, aqui estava o primeiro que foi ordenado professor. Ele não disse: “Nós somos suficiente”. Até agora ele está além de toda glória vã, e olhou para uma coisa só. Ainda assim, ele tinha o mesmo poder de ordenar como todos eles coletivamente. Mas bem poderiam essas coisas serem feitas desta forma, através do nobre espírito do homem, e no respeito que prelazia, então não era uma questão de dignidade, mas do cuidado providente para os governados. (Homilia sobre os Atos dos Apóstolos, 3)

A própria citação no início diz “e tendo precedência em honra”. O motivo pelo qual Pedro começa o discurso e toma a frente na questão da eleição de Matias é sua primazia de honra. Tanto é que o apóstolo faz tudo pelo consentimento comum. Crisóstomo indaga porque Pedro não escolheu por si mesmo. Nesse ponto, os papistas veem a evidência da primazia jurídica de Pedro. Mas o contexto nos conduz para outra possibilidade. Pedro tinha primazia de honra e a iniciativa de escolher outro apóstolo foi dele.  Por isso, era natural que Crisóstomo atribuísse a ele a prerrogativa de escolher Matias, pois a iniciativa foi inteiramente dele. O trecho “ele tinha o mesmo poder de ordenar como todos eles coletivamente” apenas expressa que Pedro poderia ordenar por sua própria iniciativa devido a sua primazia de honra na questão. Ainda assim, esse trecho contraria a supremacia papal de Pedro. A decisão do colégio dos apóstolos tinha o mesmo poder que a decisão individual do pescador na questão, sendo assim, Pedro não estaria acima do colégio apostólico, mas no mesmo patamar que ele.

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