sexta-feira, 10 de junho de 2016

Tomás de Aquino e a Imaculada Conceição Novamente


O site apologistas católicos  publicou uma resposta ao nosso artigo sobre Tomás de Aquino e a Imaculada Conceição. Eles defenderam a tese de que Tomás abraçou a ideia da imaculada conceição no fim de sua vida. No artigo a qual inicialmente respondemos, o apologista católico afirmou em suas conclusões:

Porém é certo que ele morreu crendo na Imaculada conceição da virgem Maria, o que é atestado em seus escritos mais tardios, o que derruba toda a teoria protestante de que um doutor católico tenha negado um dogma católico.

Como ele é o autor dessa tese, cabe a ele o ônus da prova. Ele não disse apenas que é possível que Tomás tenha mudado, mas afirmou que é algo certo. Vamos então analisar se ele tem motivos justificáveis para ter essa certeza. Além do mais, a tese de nosso oponente tem um erro de natureza lógica. Ainda que Tomás tivesse mudado de posição no fim de sua vida, a afirmação “um doutor católico negou um dogma católico” continua verdadeira.

A autenticidade da citação da obra “Exposição da saudação angélica”

O problema do argumento católico é que ele se baseia numa obra sobre a qual há sérias dúvidas a respeito da autenticidade do trecho que contém a expressão “nec originale”. Nós trouxemos uma versão crítica dessa obra produzida por autores católicos que não contém essa expressão. Perceba que essa não é somente a opinião de autores protestantes, mas de católicos. Isso por si só já seria suficiente para refutar a certeza aludida pelo católico, pois até mesmo entre os críticos textuais católicos, a questão é disputada e gera dúvidas.

Além disso, o link acima pertence à Fundação Tomás de Aquino, que é ligada a Universidade de Navarra. Eles têm como projeto disponibilizar todos os textos de Tomás através da internet. A apresentação inicial da fundação pode ser vista aqui. Portanto, estamos falando de uma fonte confiável.  Agora, o principal argumento do meu texto, com o qual ele não interagiu, é que Tomás nega explicitamente a imaculada conceição na mesma obra:

Sed Christus excellit beatam virginem in hoc quod sine originali conceptus et natus est. Beata autem virgo in originali est concept (…)

Cristo excedeu a Virgem Santíssima no fato de que ele foi concebido e nascido sem pecado original. Mas a Santíssima Virgem foi concebida em pecado original, mas não nasceu nele.

Poucas linhas antes do texto onde é alegado que Tomás defendeu a imaculada conceição, ele a negou. Deixe-me explicitar duas premissas:

(1) Há um trecho da obra em que Tomás afirma que Maria foi concebida em pecado original;
(2) Há outro trecho, em que ele defende a liberdade de Maria do pecado original, sobre o qual há sérias dúvidas de autenticidade mesmo entre os autores católicos.

A explicação mais plausível é que a ideia da liberdade do pecado original não faz parte da obra original. Nós poderíamos também alegar que Tomás era esquizofrênico a ponto de se contradizer num espaço de poucas linhas, mas acredito que essa é uma hipótese não muito provável. Parece que essa versão foi traduzida para o inglês aqui. É possível que se trate de uma versão diferente e então teríamos outra edição crítica corroborando a nossa posição, contudo, o texto me pareceu muito similar, o que faz pensar que se trate da mesma edição. A tradução para o inglês deixa clara a posição de Tomás:

Cristo excedeu a Santíssima Virgem no fato de que Ele foi concebido e nascido sem o pecado original, enquanto a Santíssima Virgem foi concebida em pecado original, mas não nasceu nele. [Como na Suma, mas de outra forma em I Sent., C. 44, q. 1, ad. 3]

O tradutor (ou seria o editor?) ainda fez questão de destacar entre os colchetes que se trata da mesma opinião exposta na Suma Teológica. Onde está a suposta mudança de posição? Mas não para por ai. Há outra tradução aparentemente de uma edição diferente aqui. O texto igualmente não contém a suposta defesa da imaculada conceição, pelo contrário, apresenta a mesma negação das demais. Nela, ainda vemos a seguinte nota de rodapé:

(1) Nesta avaliação, St. Tomás errou ao não considerar que para a mais perfeita redenção é adequado ter o mais perfeito redentor, e isso não somente depois de contrair o pecado, desde a concepção, mas antes mesmo de contraí-la, na concepção. Cf. Ineffabilis Deus, Papa Pio IX.

O próprio tradutor aponta como Aquino contrariou o documento papal “Ineffabilis Deus”, que declarou o dogma da imaculada conceição.  Há ainda uma publicação católica que comenta o texto em questão. Numa nota de rodapé, eles escrevem:

(1) St. Tomás diz que Maria foi purificada do pecado original no útero, em vez de concebida sem pecado original. Ele escreveu muito antes da definição da Imaculada Conceição, em 1854 e, ao contrário de Duns Scotus, não pensava que era da fé. (Fonte)

Até mesmo o apologista Jimmy Akin traz um comentário sobre a mesma obra reconhecendo a negação da imaculada conceição, sem mencionar qualquer trecho que dissesse o contrário.

A opinião dos estudiosos

No meu artigo inicial, eu trouxe a opinião de Richard Gibbings. O site católico basicamente aplicou um argumento ad hominem a opinião desse autor o qualificando como um “anti-católico”. Os católicos que defendem a mudança de posição de Agostinho citam sempre o mesmo estudioso - o tomista Réginald Garrigou-Lagrange. Garrigou afirma com base no estudo de Rossi que a citação seria autêntica. O apologista traz o argumento:

O Especialista Giovanni Felice Rossi, em sua famosa edição crítica do Expositio salutationis angelicae, mostrou que a citação está presente em 16 dos 19 manuscritos analisados e o próprio Rossi conclui que a citação da forma que apresentamos é certamente autêntica.

Vamos pressupor que Rossi está certo – realmente a citação está presente em 16 dos 19. Esse critério somente é insuficiente para provar a autenticidade da citação. Mais importante do que a quantidade de manuscritos é a qualidade dos manuscritos. Se ele realmente deseja substanciar a sua posição, espero que de fato prove que são 16 manuscritos e que eles justificam considerar a citação autêntica. Simplesmente trazer a opinião de autores católicos claramente comprometidos em salvar o dogma católico não é suficiente para fechar a questão. Garrigou ainda escreveu:

Apesar da objeção levantada pelo Pe P. Synave (42) o texto parece ser autêntico. Se for, então, São Tomás voltou atrás no final da sua vida e mudou - podemos acreditar por seu amor da Mãe de Deus - para a posição que ele tinha adotado quando afirmou Imaculada Conceição, em seu Comentário sobre as Sentenças. Nem é o texto que estamos considerando a única indicação de tal retorno (43).

O próprio Garrigou aponta a objeção de outro estudioso católico. A questão é – se a autenticidade do texto é objetada até mesmo por estudiosos católicos, como o apologista católico pode afirmar que é certo que Tomás mudou de posição? Além disso, ele se limita a dizer que “parece” autêntica – uma afirmação mais cuidadosa e contida. Ainda é trazida outra fonte:

O que Pedro Espinosa diz é crucial aqui. Como demonstrado por Rossi, a citação está presente nos melhores e mais antigos manuscritos, e ela foi substituída posteriormente por “ipsa virgo”. Logo não foi uma “falsificação romanista”, foi exatamente o contrário, as palavras “nec originale” foram na realidade trocadas em versões posteriores, provavelmente um erro de copista, ou outro motivo desconhecido.  

Pedro Espinosa não é especialista em Tomás. Na verdade se trata de um ilustre desconhecido sem qualquer relevância acadêmica. O pior de tudo é a tese de que na verdade a falsificação foi trocar “nec originale” por “ipsa virgo”. Trata-se de uma tese para a qual não é apresentado nenhum argumento. Nem o próprio Garrigou afirmou isso em seu livro. E por último:

Poderíamos citar aqui a exaustão autores tomistas que confirmam que na realidade as palavras “nec originale” que foram retiradas e que São Tomás mudou e reafirmou a imaculada conceição de Maria como a obra de J.M Voste “Comentarius Iliam p. Summae Theolo. S. Thomae”, porém consideramos o que aqui está suficiente como prova.

Qual é o sentido de citar uma obra que supostamente o apoia sem trazer a respectiva citação? Ele provavelmente copiou a citação desse site aqui, que igualmente não traz a suposta prova. Trata-se claramente de uma evidência anedótica. Isso se dá quando alguém alega ter apoio ou evidências a uma tese, mas não traz as referidas evidências. Diante de tudo isso, o apologista católico tenta passar a ideia de que sua tese é amplamente apoiada pelos especialistas. Ele citou apenas um reconhecido tomista e transmite essa opinião como se fosse majoritária. Mas, nada poderia estar mais longe da realidade. Juniper Carol, considerado a maior autoridade em mariologia no séc. XX, cuja obra é considerada de referência no meio católico, escreveu:

São Tomás de Aquino (1225-1274) tratou a questão da Imaculada Conceição apenas incidentalmente, como cognato à sua consideração da impecabilidade de Cristo. Ele seguiu o ensino de St. Bernardo, e assim possivelmente se pode considerar que sua relutância em admitir a imunidade de Maria do pecado desde o primeiro momento da sua concepção foi devido ao fracasso dos escolásticos em desenvolver uma noção precisa do momento da concepção e animação. Alguns expoentes de St. Tomás têm se esforçado para estabelecer que o Doutor Angélico virtualmente ensinou a Imaculada Conceição, e certamente eles têm sustentando que a "concepção" tinha sido tratada de forma completamente por ele. Mas a maioria dos estudantes de St. Tomás estão bastante preparados para admitir que o Doutor Angélico simplesmente negou a liberdade de Maria do pecado original. (Fonte)

Apesar dos esforços do apologista católico, Carol esclarece que a maioria dos tomistas simplesmente admite o óbvio. Já prevejo a alegação de que Carol não está tratando de uma possível mudança no fim da vida de Tomás, porém, é simplesmente inexplicável nenhuma menção explícita a isso em seu tratado sobre mariologia. Se Carol acreditasse numa mudança de posição, ele obviamente faria menção a isso, afinal estamos falando de um autor católico romano que acredita nesse dogma mariano. De maior interesse é a nota de rodapé n. 173:

Cf. G. M. Roschini, O.S.M., La Mariologia di S. Tommaso (Roma, 1950), pp. 236-237. É extremamente difícil conciliar o parecer do St. Tomás em n S. Th., III, q. 27, a. 2 ad 2um, com a imunidade de Maria do pecado original: "... si nunquam anima B. Virginis fuisset contagio originalis peccati inquinata, hoc derogaret dignitati Christi, secundum quam est universalis omnium Salvator." Cf. Dominicus Palmieri, S. J., op. cit., p. 291; Armandus Plessis, S.M.M., Manuale Mariologiae Dogmaticae (Pont-Chateau, 1942), p. 60; Emile Campana, Marie dans le Dogme Catholique (Montrejeau, 1913), Vol. 2, p. 200.

Só nessa nota, Carol cita quatro tomistas: G. M. Roschini, Dominicus Palmieri, Armandus Plessis e Emile Campana. A própria Enciclopédia Católica afirma:

St. Tomás, primeiramente se pronunciou a favor da doutrina em seu tratado sobre as "Sentenças" (I. Sent. c. 44, q. I ad 3), contudo, na "Suma Teológica", concluiu contra ela. Muita discussão tem surgido quanto ao fato de St. Tomás ter ou não negado que a Santíssima Virgem foi imaculada no instante de sua animação, e livros de eruditos foram escritos para reivindicar que ele realmente chegou à conclusão negativa. No entanto, é difícil dizer que St. Tomás não exigia um instante, pelo menos, após a animação de Maria, antes de sua santificação. Sua grande dificuldade parece ter surgido a partir da dúvida de como ela poderia ter sido redimida se ela não tivesse pecado. Esta dificuldade levantou nada menos do que dez passagens em seus escritos (veja, por exemplo, Suma III: 27: 2, ad 2). Mas, enquanto St. Tomás, assim negou o ponto essencial da doutrina, ele próprio estabeleceu os princípios que, depois de terem sido reunidos e trabalhados permitiram a outras mentes fornecer a verdadeira solução desta dificuldade de suas próprias premissas. (Fonte)

A ideia de que Tomás mudou de opinião é tão “difundida” e “aceita” que nem a Enciclopédia faz qualquer menção a isso. É mencionada a concordância inicial de Aquino e depois a sua clara discordância. Vejam que o ponto de discussão não é se ele negou ou não a imaculada conceição, mas se ele acreditava que Maria foi imaculada no momento da animação ou algum tempo depois. Alguém em sã consciência acredita que uma publicação como essa não mencionaria que um dos maiores doutores da igreja não morreu negando um dogma, mas o aceitou no fim da vida? Ainda mais sendo a posição majoritária dos tomistas? O apologista católico tenta formular um argumento da autoridade com base em apenas um tomista. Ele não demonstrou que essa é a posição majoritária entre os tomistas. E de fato ele sequer conseguirá. Garrigou é “uma voz que clama no deserto” nessa questão.

A própria Enciclopédia reconhece que a posição da santificação após a animação é a mais defensável e conta com muitos apoiadores. Tomás compreendia que Maria precisou ser redimida, logo ela precisaria ter contraído o pecado. Os católicos hoje afirmam com base em Duns Escoto que Maria foi redimida preventivamente. Alguns chegam a afirmar que se Aquino tivesse ouvido essa explicação, teria a acatado prontamente. No entanto, é muito improvável que um filósofo como Tomás sequer tivesse cogitado a hipótese de uma redenção preventiva.

A negação de do dogma é algo tão sacramentado mesmo entre os teólogos católicos que não é difícil encontrar páginas na internet trazendo a opinião de estudiosos que aceitam a negação. Podemos citar Francis Beckwith, Fr. William G. Most, e o já citado Jimmy Akin.

Em 1839, um professor de teologia do Colégio São Tomás de Aquino chamado Mariano Spada publicou a obra “Esame Critico sulla dottrina dell’ Angelico Dottore S. Tommaso di Aquino circa il Peccato originale, relativamente alla Beatissima Vergine Maria”.  O título traduzido seria “Um exame crítico da doutrina de Santo Tomás de Aquino, o Doutor Angélico, sobre o pecado original em relação à Santíssima Virgem Maria”. Ela pode ser acessada aqui. O mais importante é o objetivo da obra. Spada intentava trazer uma interpretação de Tomás que aliviasse o constrangimento de Pio IX ao declarar um dogma negado pelo teólogo (veja aqui). Contudo, se Tomás tivesse morrido acreditando nessa doutrina, não haveria constrangimento algum. Mas, o mais importante é que em nenhum momento Spada lança mão do argumento de que Tomás morreu acreditando na doutrina. Se havia um momento onde a suposta mudança deveria ficar evidente, seria aqui.

Cumpre ainda destacar outra citação trazida pelo apologista:

(...) vale a pena mostrar aqui ao que encontramos o seguinte no Volume VI “Mariologia”, do Manual de Teologia Dogmática de Pohle-Preuss, página 67:

“5. O Ensino de São Tomás --- Os teólogos estão divididos em sua opinião sobre qual era a mente de São Tomás em relação à Imaculada Conceição. Alguns francamente admitem que ele se opôs , pois em sua época ainda não era um dogma definido, mas insistem que ele na prática admitiu o que ele formalmente negou. Outros afirmam que o Doutor angélico defendeu expressamente a Imaculada Conceição e que as (cerca de quinze) passagens adversas citadas dos seus escritos deve ser consideradas como interpolações posteriores. Entre esses dois extremos estão dois outros grupos de teólogos, um dos quais afirmam que São Tomás estava indeciso em sua atitude para com a Imaculada Conceição, enquanto o outro apenas mantém a impossibilidade de provar que ele se opunham a ela”.

É digno de nota observar até onde certos autores católicos vão para reabilitar a doutrina católica. Afirmar que todas as citações de Tomás em que nega a imaculada conceição é uma interpolação é simplesmente uma aberração. Essas ocorrem principalmente na Suma Teológica, a sua obra mais bem atestada. Eu duvido que haja qualquer edição da Suma Teológica que exclua todas essas supostas interpolações. Ademais, afirmar que Tomás negou formalmente a doutrina, mas a aceitou na prática é outra tentativa esdrúxula. Alguns católicos querem de toda a forma passar a imagem de um Tomás “esquizofrênico”. Dizer também que ele não se opôs a ela é outra tentativa frágil, pois é bem atestado a partir de passagens da Suma que ele se opôs. Eu não conheço o resto desse livro, mas seria interessante dizer quais são os teólogos que sustentam posições tão absurdas, caso contrário, se torna mais uma evidência anedótica. Todavia, o mais importante é que a posição do apologista católico não está entre as elencadas por esse autor. Nenhuma das quatro posições afirma que ele negou o dogma e voltou atrás no fim da vida.

Outras supostas citações que provam o apoio de Tomás à imaculada concepção

Diante dos vários problemas da citação da saudação angélica, o romanista apela a outras três citações. Das três, apenas uma está em português. Vamos então analisa-la primeiro:

Tem havido alguns, de fato, tão presunçosos dizendo que o homem poderia viver neste mundo e por sua própria força sem ajuda e evitar o pecado. Mas esta condição não foi dada a ninguém, exceto Cristo, que tinha o Espírito além de qualquer medida, e à Santíssima Virgem, que era cheia de graça e em quem não houve pecado. “E a respeito de quem”, isto é, a Virgem, “quando a questão é pecado eu não desejo fazer nenhuma menção”, diz Santo Agostinho.”

Ele não afirma que Maria foi livre do pecado original. Inclusive a citação de Agostinho também não afirma isso – ambos se limitam a dizer que Maria não cometeu pecados pessoais. Isso fica claro quando se traz a afirmação que Tomás rejeita: “tão presunçosos dizendo que o homem poderia viver neste mundo e por sua própria força sem ajuda e evitar o pecado”. Ele claramente está se referindo a pecados pessoais cometidos durante a vida. Somente Cristo e Maria teriam vivido sem cometê-los. Para ficar ainda mais claro, vejamos a continuação dessa citação:

Mas para todos os outros santos, nunca foi concedido que não devam incorrer em pecado, pelo menos venial: "Se dissermos que não temos pecado, enganamos a nós mesmos, e a verdade não está em nós". E, por outro lado, esta mesma petição prova isso; pois é evidente que todos os Santos e todos os homens dizem "Pai Nosso", no qual está contido "Perdoai nossas ofensas". Assim, todos admitem e confessam que são pecadores ou transgressores. Se, portanto, você é um pecador, você deve temer e se humilhar. (Fonte)

Todo o contexto aponta em que sentido Maria era diferente dos demais – ela, diferente de outros santos nunca cometeu pecados durante a vida. Todos os demais pelo menos pecados veniais cometeram. Essa interpretação é mais consistente com todo o pensamento de Tomás de Aquino. 

Depois são trazidas citações em latim sem tradução. Qual o propósito de um site em português que escreve para pessoas que em sua maioria não sabem latim trazer uma citação sem tradução? Ele então cita comentário de Tomás sobre Gálatas. Pode ser visto aqui o texto em latim com a respectiva tradução para o inglês:

O significado deste testemunho, ele explica, quando diz: Ele não diz: "E a seus descendentes", como falando de muitos, mas como de um só, "E à tua descendência" Ele explica isto de acordo com o próprio espírito em que o testamento foi feito. Isso é óbvio das palavras do testamento: Ele não diz: "e aos seus descendentes", como de muitos, isto é, como Ele o faria, se fosse válida para muitos, mas como de um só: "E à tua descendência" que é Cristo, porque Ele é o único através de quem e no qual todos poderiam ser abençoado. Pois Ele somente e exclusivamente é aquele que não está sob a maldição da culpa, apesar do fato de que fez a si mesmo maldição por nós. Por isso, é dito, "Eu estou sozinho até que passe" (Sl. 140:10); e, novamente "Não há ninguém que faça o bem, nem um sequer" (Sl. 13:3); "Um homem entre mil que eu encontrei" (ou seja, Cristo, que foi sem qualquer pecado), "uma mulher entre todos elas eu não encontrei", que fosse totalmente imune de todo pecado, pelo menos original ou venial ( Ecl. 7:29).

O texto em latim:

Unde dicitur in Ps. CXL, 10: singulariter sum ego, et cetera. Item: non est qui faciat bonum, et cetera. Eccle. VII, 29: virum de mille unum reperi, scilicet Christum, qui esset sine omni peccato, mulierem autem ex omnibus non inveni, quae omnino a peccato immunis esset, ad minus originali, vel veniali.

O texto em questão está afirmando justamente o oposto. Tomás usa vários textos bíblicos para expressar que somente Cristo foi sem pecado. E ainda afirma que nenhuma mulher foi encontrada sem pecado. Não há nenhuma referência à Maria no texto. A fundação Tomás de Aquino igualmente usa um texto em que não há qualquer referência à Maria:

Eccle. VII, 29: virum de mille unum reperi, scilicet Christum, qui esset sine omni peccato, mulierem autem ex omnibus non inveni, quae omnino a peccato immunis esset, ad minus originali, vel veniali.

Por último, é trazida uma citação do comentário ao Salmo XVIII, 6, a partir da mesma fonte que temos trazido os textos anteriores:

idest in beata virgine, quae nullam habuit obscuritatem peccati: Cant. 4: tota pulchra es amica mea, et macula non est in te.

O texto em latim e inglês pode ser visto aqui. A tradução seria:

(...) é que ele [Jesus] colocou seu corpo no sol, ou seja, na Virgem Santíssima, que não tinha as trevas do pecado. Cant. 4: “Você é completamente linda, minha amiga, e não há nenhuma mancha em você.”

Tomás aplica o texto de Cânticos à Maria. Ele não afirma que Maria foi concebida sem pecado. Percebam que o texto se refere ao momento da encarnação, quando Cristo “colocou seu corpo” na virgem. Nesse momento, Maria já havia sido santificada, portanto, não tinha mais nenhuma mancha. Isso obviamente não implica que ela foi concebida sem o pecado original.

O problema da datação das obras

Creio já termos argumentos suficientes para afirmar que a hipótese mais plausível é que Tomás não mudou de ideia. Porém, existe outro problema com a tese católica – a datação das obras. É preciso demonstrar confiavelmente que as obras onde supostamente ele afirma a doutrina mariana são posteriores a todas as citações onde nega a mesma doutrina. De acordo com três listas cronológicas que podem ser vistas aqui, aqui e aqui, a Suma Teológica foi escrita entre 1266 e 1273. A saudação angélica teria sido escrita entre 1268 e 1273. Os comentários das epístolas de Paulo estariam entre 1265 e 1273. O mais tardio seriam os comentários sobre os salmos no intervalo 1272-1273.

Todas as obras invocadas para provar a suposta mudança estão dentro do intervalo de elaboração da Suma Teológica. Isso nos permite concluir que mesmo que as referidas citações apoiassem a tese católica, não há como estabelecer que a mudança de posição foi no sentido de apoiar a doutrina católica. Seria temporalmente possível uma mudança no sentido de negar a doutrina.

O pensamento geral de Aquino

Na seção “O pensamento Geral de Tomás de Aquino”, o artigo católico tenta explicar os motivos pelos quais ele negou o dogma católico:

Logo, o que o protestante em questão não entende é que quando falamos “negar”, não quer dizer que ele tinha a mesma concepção protestante, ou que ele negava que Maria era imaculada, mas sim que sua ideia da impecabilidade de Maria, não compreendia o momento da concepção. Maria seria Concebida em pecado, mas Nascida sem pecado.

E quem afirmou que Tomás tinha a mesma concepção protestante? O fato de um teólogo negar um dogma católico não implica dizer que ele abraçou a posição protestante. Fazendo malabarismo para negar o óbvio, ele afirma: “Maria seria Concebida em pecado, mas Nascida sem pecado”. Logo, Maria não teve uma concepção imaculada, o que é contradizer o dogma católico. O fato de ele acreditar que ela foi santificada antes do nascimento é irrelevante. Isso não muda a implicação lógica de que um “doutor” católico romano negou um dogma católico.

Basicamente, Tomás acreditava que a animação (o momento em que o corpo recebe a alma) ocorre depois da concepção do corpo. Dessa forma, Maria, em sua concepção, recebeu um corpo manchado pelo pecado. Só depois ela receberia a alma. Em virtude disso, o apologista argumenta:

Logo, São Tomás além de não pensar como um protestante na questão do pecado atual, também não pensava da mesma forma sobre a questão do pecado original mesmo quando “negou” a imaculada conceição, uma vez que sua ideia da Concepção do embrião era diferente, por isso seus comentários desfavoráveis existiram.

Se Tomás acreditasse que a alma é infusa no momento da concepção do corpo, sua opinião sobre a imaculada conceição seria diferente? A resposta é não.  O próprio Garrigou escreveu:

Os textos que temos considerado até agora não implicam, portanto, em qualquer contradição do dogma da Imaculada Conceição. Eles poderiam até mesmo ser mantidos se a ideia de redenção preventiva fosse introduzida. Há, porém, um texto que não pode ser tão facilmente explicado. Na III Sent., dist. III,  q. 1, a. 1, ad 2am qm, nós lemos: "Nem (aconteceu), mesmo no instante da infusão da alma, ou seja, pela graça sendo então dado a ela, de modo a preservá-la de incorrer no pecado original. Somente Cristo entre os homens tem o privilégio de não precisar de redenção. (Fonte)

A santificação de Maria ocorreu após a animação. Ela não foi preservada do pecado original no momento em que recebeu a alma. Dessa forma, mesmo que a concepção do corpo e a animação ocorressem no mesmo momento, Maria teria contraído o pecado original segundo Aquino.
  
Resposta à seção conclusões e minhas próprias conclusões

Assim, a tal “falsificação romanista” não tem qualquer fundamento e é muito improvável. As mentes caluniosas agora serão obrigadas a provar os seguintes pontos:

1) Que sabem mais do que os tomistas a respeito de São Tomás.

(1) Essa é só mais uma falácia lógica. O argumento da autoridade é probabilístico. Ele apenas torna uma posição mais provável, mas não é suficiente para fechar a questão. O mesmo poderia ser dito a respeito dos católicos que se metem a falar de Lutero. Baseado nesse tipo de argumento, um apologista católico não poderia afirmar nada sobre Lutero e estar certo se estiver em desacordo com o que os especialistas protestantes em Lutero afirmam.

(2) O apologista católico apresentou apenas um reconhecido tomista. Nós apresentamos a posição do mariólogo Carol que apontou pelo menos quatro tomistas que acreditam no oposto. Mas ele foi além e afirmou que a maioria dos estudantes de Aquino concordam que ele simplesmente negou a imaculada conceição. Dessa forma, se o argumento católico fosse válido, quem deve explicações é que defende a posição minoritária segundo a qual Tomás teria mudado de opinião.

2) Que os 16 dos 19 manuscritos analisados por Rossi que contém a expressão “NEC ORIGINALE”, são “falsificações romanistas” e os 3 restantes que são os verdadeiros.

Antes de tudo é preciso estabelecer que de fato existe 16 de 19 manuscritos contendo “nec originale” e que esses são os mais confiáveis e justificam confiar que trazem o texto original. Eu obviamente não analisei nenhum desses manuscritos e não foi baseado nesse argumento que afirmei se tratar de uma falsificação romanista.

3) Que as outras citações apresentadas tal qual a do Comentário aos Gálatas são falsificadas também.

(1) Eu não afirmei que essas outras citações são falsificações. Eu afirmei que a interpolação do “Comentário sobre a Saudação Angélica” é uma falsificação. Então, eu não tenho o ônus de provar algo que não aleguei;

(2) Eu sequer preciso provar que essas outras citações são falsificações, pois nenhuma delas afirma que Maria foi preservada do pecado original. Limitam-se a afirmar a impecabilidade de Maria ou sua grande pureza, portanto, são irrelevantes para o debate em questão;

(3) Caberia ainda ao apologista determinar qual das versões do comentário aos Gálatas é a definitiva. O link que ele apresentou contém mais de uma versão. Qual é a verdadeira? Nós apresentamos a versão usada pela fundação Tomás de Aquino que não afirma a imaculada conceição. Pelo contrário, a nega.

É muito estranho que pouco tempo após a morte de São Tomás tenham existidos manuscritos com a expressão em questão e alguém a tenha falsificado.

Pouco tempo quando? Em nenhum momento o apologista estabeleceu a idade dos tais manuscritos.

Por que alguém nesta época, onde supostamente os autores negavam a imaculada Conceição de Maria, teria se preocupado em falsificar pelo menos 16 manuscritos acrescentando ali algo que ele próprio não escreveu? Qual a probabilidade disso? Quase nula!

No período do século XII ao XVI, houve intenso debate sobre a imaculada conceição de Maria. Não foi alegado que não havia defensores dessa doutrina, caso contrário, não existiria debate algum. Houve um intenso conflito nesse período entre franciscanos (pró-imaculada) e dominicanos (contra-imaculada). Portanto, trata-se apenas de mais um argumento falacioso.

O apologista ainda afirma num exercício de “futurologia” que Tomás teria aceitado a definição dogmática do séc. XIX, pois ele acatava a autoridade da igreja romana. Qualquer coisa que Tomás tenha dito sobre a autoridade do papa e de Roma só é válida para igreja de seus dias ou antecedente. Não há como saber a sua reação se ele visse a igreja romana de hoje. Nós não encontramos, por exemplo, em Tomás uma afirmação explícita da infalibilidade papal. Não por acaso, há atualmente diversos grupos na igreja romana afirmando que o magistério atual apostatou da fé. E, geralmente, esses grupos se apoiam em Tomás.

Ademais, o argumento mais inaceitável é a afirmação de que não é problemático o fato de um doutor da igreja ter negado um dogma. Eles nos dizem que não há problema, pois o dogma só foi definido em 1854. O apologista católico ainda afirma que os pais da igreja discordavam sobre a trindade para substanciar sua ideia.  Esse argumento tem uma série problemas:

(1) Nenhum pai da igreja negou a trindade como Aquino negou a imaculada conceição, portanto, é uma falsa analogia. Eles poderiam divergir sobre detalhes secundários da doutrina, mas concordavam com os pontos principais: por exemplo, a divindade de Cristo. Já Tomás negou o elemento principal da doutrina. Além do mais, a trindade é uma ideia mais complexa do que a imaculada conceição ou impecabilidade de Maria. Afirmar que alguém não cometeu pecados é uma ideia simples que não exigira séculos e séculos de reflexão. Todavia, vários pais da igreja ensinaram que Maria cometeu pecados pessoais.

(2) Esse argumento implica que não havia problema em negar a divindade de Cristo antes do concílio de Niceia. Alguém em sã consciência acredita que a crença na divindade de Cristo só se tornou obrigatória após a definição do concílio. Quem o fizesse antes, não poderia ser considerado herege?

(3) Pais da igreja como Irineu dedicaram a vida a combater heresia gnóstica. Mas partindo do pressuposto católico, os gnósticos sequer poderiam ser chamados de hereges naquele tempo, pois até então não havia nenhuma afirmação dogmática contra eles. Ninguém poderia considerar Marcião um herege por negar a canonicidade do Antigo Testamento, afinal a igreja só afirmaria dogmaticamente o cânon séculos depois;

(4) Os apóstolos deixam de ser uma autoridade real. Essa é a implicação mais inaceitável. O que eles pregaram ou ensinaram só se tornaria de assentimento obrigatório após a definição dogmática da igreja, que como vimos, só viria 18 séculos depois. Não importa se eles ensinaram claramente a trindade, a concepção virginal, a ressurreição e todo o resto. Só depois da aprovação da igreja é que tais doutrinas seriam obrigatórias;

(5) A igreja romana reivindica manter incólume o depósito apostólico. O que ela define não seria uma inovação, mas apenas a afirmação daquilo que foi a fé da igreja desde sempre. Por isso, o fato de reconhecidos teólogos medievais, 12 séculos depois dos apóstolos, negarem essa suposta doutrina apostólica é extremamente grave. Se a imaculada conceição é parte do depósito da fé, quais as evidências históricas favoráveis? Simplesmente não há. O que vemos são pais da igreja, papas e teólogos medievais negando a doutrina;

(6) A igreja romana reivindica ter um carisma especial que permite guiar os fiéis na crença correta. Como isso pode ser possível se apenas 17 séculos depois o magistério finalmente afirmou “infalivelmente” a crença correta? Como o Espírito Santo pode permitir que gerações e gerações de cristãos mantivessem a doutrina errada? Como não acreditamos que o Espírito Santo é ineficiente, rejeitamos a reivindicação romanista.

Em síntese, o apologista católico falhou em provar a autenticidade da citação, falhou em trazer provas adicionais de sua tese e falhou em demonstrar que sua opinião é majoritária entre os especialistas tomistas. Nós reafirmamos os motivos que nos levaram a concluir que se trata de uma falsificação: (1) Há várias edições críticas dessa obra que não contém o trecho em questão e principalmente; (2) A mesma obra poucas linhas antes da interpolação afirma claramente que Maria foi concebida no pecado original. 

O apologista católico se agarra com unhas e dentes a opinião minoritária de Garrigou. Esse é o resultado prático da Sola Eclésia. Os católicos, infelizmente, não podem buscar a verdade por si próprios. Eles precisam aceitar de antemão e sem qualquer senso crítico o que a igreja romana determina como dogma. Por isso, mesmo diante de tanta evidência contrária, se agarram a qualquer posição simpática à igreja romana. Caso semelhante ocorre com Jerônimo. Os eruditos protestantes e católicos são majoritários em afirmar que ele negou a canonicidade dos apócrifos. Ainda assim, quando surge um ou outro autor católico “remando contra a corrente” e afirmando que Jerônimo mudou de ideia, os apologistas se agarram a ele como se representasse a posição correta, a despeito das evidências.

Um último esclarecimento se faz necessário. Em nenhum momento eu afirmei que o site apologista católicos é o responsável pela falsificação. Obviamente, a interpolação é muito mais antiga que o site e que qualquer pessoa que lá escreva. Acredito que o autor do artigo leu algum site em inglês e replicou a tese. É possível que sequer soubesse das dúvidas que pairam sobre a citação. Esse site é bem conhecido por deturpar os pais da igreja, trazer citações fora do contexto e apresentar citações a partir obras de origem duvidosa – algo que eu já explorei mais de uma vez em meus artigos (dois exemplos podem ser visto aqui e aqui). Agora, se eles inventam citações eu não sei, e até que se prove o contrário, creiamos que não.

Atualização (13/06/2016)

O Hugo do excelente blog Conhecereis a Verdade fez um comentário que merece ser colocado nessa atualização. Nosso artigo respondeu a tese de que Tomás passou a acreditar na imaculada conceição mais para o fim da vida. No entanto, o artigo católico defendeu que Aquino acreditava na imaculada conceição no  início da vida, tendo mudado de posição no meio e retornado a posição no fim. O comentário a seguir esclarece um ponto que deixamos passar - mesmo no início, a evidência apontada não suporta o dogma da imaculada conceição:

“Ao terceiro, respondo dizendo que se consegue a pureza pelo afastamento do contrário: por isso, pode haver alguma criatura que, entre as realidades criadas, nenhuma seja mais pura do que ela, se não houver nela nenhum contágio do pecado; e tal foi a pureza da Virgem Santa, que foi imune do pecado original e do atual”. [Continuação] Foi todavia sob Deus, visto que havia nela o poder de pecar.”

O primeiro texto onde Tomás de Aquino supostamente teria afirmado a imaculada conceição NÃO FALA DA CONCEIÇÃO DE MARIA. Diz apenas que Maria foi imune do pecado original e do atual, mas não diz que isto aconteceu na sua concepção. 

Por exemplo, a doutrina católica diz que todos os fiéis são imunes do pecado original no batismo. A doutrina da imaculada conceição não é ficar imune do pecado original mas ter sido concebida sem pecado original. 

Não há no texto nenhuma referência à concepção de Maria logo não há nenhuma afirmação da imaculada concepção. 

O texto continua dizendo “Foi todavia sob Deus, visto que havia nela o poder de pecar“.
Se Tomás de Aquino diz que havia nela o poder de pecar necessariamente não podia entender que ela foi imaculadamente concebida. O que ele quer dizer é que pela graça de Deus a certa altura da sua existência foi imune do pecado original e atual. Nada de imaculada conceição portanto.

O texto citado faz parte da obra "Comentário das Sentenças de Pedro Lombardo". O texto em latim pode ser visto aqui

Ad tertium dicendum, quod puritas intenditur per recessum a contrario: et ideo potest aliquid creatum inveniri quo nihil purius esse potest in rebus creatis, si nulla contagione peccati inquinatum sit; et talis fuit puritas beatae virginis, quae a peccato originali et actuali immunis fuit. Fuit tamen sub Deo, inquantum erat in ea potentia ad peccandum.

Isso nos leva a uma reflexão importante. Teólogos como Tomás poderiam afirmar que Maria não tinha mancha ou pecados, mas não é suficiente para provar a imaculada conceição. Como bem dito, é necessário demonstrar que a opinião do teólogo indica a posição de que Maria foi preservada do pecado original desde a concepção. Aquino cria que ela foi santificada ainda no útero da sua mãe, mas não desde a concepção. Portanto, não há qualquer evidência de que ele tenha aceitado tal doutrina em qualquer fase de sua vida.

Agradeço ao blog Conhecereis a Verdade pelo excelente apontamento.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Tomás de Aquino e a Primazia da Escritura



Os defensores do romanismo afirmam que sua igreja apenas preserva o depósito da fé. Quando um papa faz uma declaração dogmática, estaria apenas afirmando aquilo que é a fé da igreja desde sempre. Obviamente, uma boa olhada na evidência histórica prova a falsidade desse tipo de afirmação. Isso fica patente quando verificamos que um dos maiores teólogos do romanismo (alguns diriam o maior) não defendeu algumas das doutrinas hoje ensinadas pela igreja romana. Já tratamos de sua negação da imaculada conceição aqui. A seguir vamos tratar da visão de Aquino sobre a autoridade da Escritura:

Deve-se notar que, embora muitos possam escrever a respeito da verdade católica, há diferença entre aqueles que escreveram a Escritura canônica, os evangelistas e apóstolos, e outros deste tipo, que tão constantemente afirmam que eles não deixam margem para dúvidas. Esse é o significado quando ele diz "nós sabemos que seu testemunho é verdadeiro". Gálatas 1: 9: "Se alguém pregar outro evangelho a vocês diferente daquele que receberam, seja anátema!" A razão é que só a Escritura canônica é a regra de fé. Outros, contudo, escreveram sobre a verdade, mas não devem ser cridos exceto na medida em que dizem coisas verdadeiras. (Thomas Aquinas, Lectures on the Gospel of John, ed. P. Raphaelis Cai, O.P., Editio V revisa [Romae: Marietti Editori Ltd., 1952] n. 2656, p. 488)

Somente a Escritura canônica é a regra da fé. Tomás claramente colocou a Escritura no ponto mais alto da autoridade. Enquanto todos os outros escritos estão sujeitos ao erro, a Escritura é infalível. 

No entanto, a doutrina sagrada faz uso dessas autoridades como extrínsecas e argumentos prováveis, mas corretamente usa a autoridade das Escrituras canônicas como uma prova incontroversa, e a autoridade dos doutores da Igreja como algo que pode ser adequadamente utilizado, mas meramente como provável. Pois a nossa fé repousa sobre a revelação feita aos apóstolos e profetas que escreveram os livros canônicos, e não sobre as revelações (se tais existissem) feitas para outros doutores. Por isso diz Agostinho [Ep. 82]: "Eu confesso a sua bondade que eu aprendi a render este respeito e honra apenas aos livros canônicos da Escritura: Desses somente eu mais firmemente tenho acreditado que os autores foram completamente livre de erro. E se nesses escritos eu esteja confuso por qualquer coisa que me parece oposta à verdade, não hesitaria em supor que o manuscrito seja defeituoso, ou o tradutor não pegou o significado do que foi dito, ou eu mesmo tenho falhado em entender isso". (Suma Teológica, Parte I, Questão 1, Artigo8, Resposta a Objeção 2)

Tomás afirma a primazia das Escrituras sobre as demais autoridades. Ele cita os doutores que formam a tradição da igreja, mas esses podem fornecer apenas um argumento provável – ou seja – não infalível. Escritura é infalível e oferece uma prova incontroversa e final. O doutor da igreja acreditava numa hierarquia de autoridades, em que a Escritura era suprema.

Ou, querendo mostrar aqueles discursos que são completamente fora das Escrituras, é dito: se eles irão dizer a você: aqui e no deserto, não se afastem da regra da fé. (Thomas Aquinas, Catena Aurea, Commentary on the Gospels, at Matthew 24:23-38)

Ele está citando com aprovação provavelmente Orígenes. Percebam que o discurso é criticado por estar fora da Escritura. Isso implica que ele necessariamente deve estar na Escritura – o que é oposto ao ensino romanista da insuficiência material das Escrituras.

Objeção 1. Parece que não é adequado que os artigos de fé sejam incorporados num símbolo [credo]. Pois, a Sagrada Escritura é a regra de fé, à qual não pode ser legalmente feita nenhuma adição ou subtração, uma vez que está escrito (Deuteronômio 4: 2): "Tu não deves adicionar a palavra que eu falei a ti, nem deve tirar nada dela." Por isso, era ilegal fazer um símbolo como regra de fé, após a Sagrada Escritura já ter sido publicada.

Resposta à objeção 1. A verdade da fé está contida nas Sagradas Escrituras, difusamente, sob vários modos de expressão, e às vezes obscuros, de modo que a fim de obter a verdade da fé da Sagrada Escritura, é necessário longo estudo e prática, que são irrealizáveis por todos aqueles que necessitam saber a verdade da fé, muitos dos quais não têm tempo para o estudo, sendo ocupados com outros assuntos. Assim, foi necessário reunir um resumo claro das palavras das Escrituras Sagradas, para ser proposto à crença de todos. Isso na verdade não foi além de Sagrada Escritura, mas tirado dela. (Suma Teológica, Parte II, Questão I, Artigo 9)

Mais uma afirmação clara da suficiência material das Escrituras. Vejam que a objeção afirma que a Escritura é a regra da fé, e não uma regra da fé. Tomás não contraria essa afirmação. Ele se limita a observar que a objeção não é válida porque os símbolos de fé não adicionam nada, mas apenas expressam resumidamente o ensino da Escritura. Alguns católicos provavelmente afirmarão que há uma negação da suficiência formal nessa citação. Esse não é o caso porque a a suficiência formal admite que haja partes obscuras na Escritura. No mais, Aquino não apela a nenhum intérprete infalível para esclarecer as partes obscuras. Ele apela ao estudo da própria Escritura que muitas pessoas não podem realizar. Se uma passagem obscura pode ser compreendida por um intérprete falível mediante estudo, essa não é uma objeção válida à doutrina reformada da suficiência formal. O mesmo de tipo de argumento é respondido abaixo:

1. Parece que você não deve reunir os artigos no símbolo. Na verdade toda a fé é ensinada de uma forma abrangente com a Sagrada Escritura. Então não era necessário compor o símbolo.

2. O símbolo é proposto como uma regra de fé, cujo fato é o consentimento. Agora, apenas aos apóstolos e profetas deve ser concedida esta honra, na qual tudo que eles disseram é para ser acreditado como verdade, como Santo Agostinho afirma. Então, depois de um Credo dos Apóstolos não deveria ser elaborado outros símbolos.

Resposta a 1. Foi necessário recolher num único texto as diversas verdades transmitidas em vários lugares das Sagradas Escrituras para que a fé estivesse mais facilmente à mão.

Resposta a 2. Os Padres que publicaram outros símbolos depois dos Apóstolos não adicionaram nada deles próprios, mas adicionaram o que eles extraíram das Escrituras Sagradas. Agora, desde que no símbolo dos Apóstolos há algumas coisas difíceis, o Credo de Nicéia que expõe mais plenamente a fé sobre determinados itens foi publicado. Desde que algumas verdades estavam contidas nesses símbolos em forma implícita, era necessário dar uma explicação sobre o surgimento das heresias, e assim foi adicionado o símbolo S. Atanásio, que especialmente se colocou contra os hereges. (Comentário sobre as Sentenças [de Lombardo], Livro 3, Distinção 25, Pergunta 1, Resposta 1)

Ele claramente pressupõe a suficiência material. De fato os símbolos de fé tornam acessíveis e mais claras as verdades espalhadas pela Escritura. Não por acaso, as igrejas reformadas também adotam símbolos de fé como o Credo Apostólico. À medida que uma questão era levantada, outro símbolo era produzido para explicitar a questão, mas nada de novo era adicionado. Toda a doutrina já estava na Escritura.

A diversidade de sentidos não traz equívoco ou qualquer ambiguidade de sentidos (...) Neste sentido, nada na Escritura se presta a confusão, posto que todos os sentidos partem de um - o literal. Somente do sentido literal pode surgir o argumento, não do alegórico, como Agostinho diz em sua carta a Vicente o donatista. No entanto, não se perde algo da Escritura por isso, uma vez que se há em sentido espiritual algum conteúdo necessário da fé, a Sagrada Escritura em algum outro lugar o transmite explicitamente no sentido literal. (Suma Teológica, Parte I, Questão 1, Artigo 10, Resposta a Objeção 1)

O argumento implica na clareza das Escrituras. Há mais de um sentido na Escritura como o literal e o espiritual. Um argumento não pode vir do sentido espiritual, pois esse seria mais obscuro. No entanto, tudo o que é necessário para a fé está disposto no sentido literal, não trazendo assim equívocos ou ambiguidades. Ou seja, tudo o que é “conteúdo necessário da fé” está disposto na Escritura num sentido claro.

3. A Sagrada Escritura é a regra da fé. Mas, nas Escrituras do Antigo Testamento, a Trindade não foi explicitamente mencionada. Por isso, não era necessário [a acreditar na Trindade] para ser um crente.

Resposta a 3. Desde que não era necessário que todos fossem explicitamente conhecidos no Antigo Testamento, o mistério da Trindade não foi formulado manifestamente, mas velado, para que o sábio pudesse entender. (Ibid., Resposta 2)

Esse comentário é especialmente interessante, pois afirma que os sábios poderiam perceber a trindade mesmo no Antigo Testamento, no qual a doutrina ainda não era claramente manifesta. O fato é que não havia qualquer autoridade interpretativa infalível na Antiga Aliança (Tomás concordaria com essa opinião), e mesmo assim o sábio (um intérprete falível) poderia conhecer a trindade.

Não se deve obedecer ao superior contra o mandamento divino, de acordo com Atos 5:29: "Devemos obedecer antes a Deus do que aos homens". Por isso, quando o superior ordena que se diga algo que é digno de correção, há de se tomar o preceito prudentemente, exceto a ordem que deve ser seguida na correção fraterna, seja o preceito dado para todos em geral, seja dado especialmente para alguns. Mas se o superior ordena contra a ordem estabelecida por Deus, pecaria quem manda e quem obedece, por atuar contra o preceito do Senhor. Assim não deveria obedecer-lhe. (Suma Teológica, Parte II, Pergunta 33, Artigo 7, Objeção/Resposta 5)

Tomás se referia a obediência ao superior, seja na esfera civil ou religiosa. Se ele ordena algo contra a palavra de Deus, deve ser rejeitado. Dessa forma, o cristão necessariamente deve ter alguma liberdade de examinar a ordem superior e rejeitá-la se julgá-la improcedente.

Todos os intermediários através dos quais a fé vem para nós estão acima de qualquer suspeita. Acreditamos nos profetas e apóstolos, porque o Senhor disse que suas testemunhas realizariam milagres como Marcos (16:20) diz: "(...) e confirmando a Palavra com os sinais que se seguiram." Nós acreditamos nos sucessores dos apóstolos e profetas apenas na medida em que eles nos dizem o que os apóstolos e profetas deixaram em seus escritos. (Citation: St. Thomas Aquinas, Truth, Vol. 2, Questions X-XX, trans., James V. McGlynn, S.J., Question 14, Article 10, Reply, Answer 11 [Chicago: Henry Regnery Company, 1953], p. 258)

Tomás afirma a suficiência material das Escrituras. A implicação é que tudo o que os sucessores dos apóstolos ensinam deve ser encontrado nos escritos dos apóstolos e profetas. Perceba que ele não diz “o que os apóstolos e profetas pregaram”, mas o que eles escreveram. Em oposição a muitos romanistas, ele não acreditava que alguma doutrina revelada teria sido preservada fora da Escritura. Implicitamente, ele também afirma algum tipo de suficiência formal, pois o cristão poderia julgar o ensino dos sucessores segundo o que apóstolos e profetas escreveram.   

Tais princípios são chamados de "virtudes teologais": primeiramente, porque seu objeto é Deus, na medida em que eles nos direcionam corretamente a Deus; em segundo lugar, porque são infundidos por Deus somente: em terceiro lugar, porque essas virtudes não são conhecidas por nós, salvo pela revelação divina contida na Sagrada Escritura. (Suma Teológica,Parte II, Seção I, Questão 62, Artigo 1)

As virtudes teologais são encontradas somente na Sagrada Escritura. Isso a coloca no patamar supremo da autoridade, acima da Igreja e Tradição. Já antevendo algumas objeções, creio que os romanistas ofereceriam a citação abaixo:

Um herege que nega um só artigo de fé não tem nem fé viva ou fé morta. A razão disso está no fato de que a espécie de qualquer hábito depende da razão formal do objeto, e se este desaparece, desaparece também a espécie do hábito. Pois bem, o objeto formal da fé é a verdade primária relevada na Sagrada Escritura e no ensino da igreja. Por isso, quem não adere ao ensino, como regra infalível e divina, ao ensino da igreja que procede da verdade primária revelada na Sagrada Escritura, não possui o hábito da fé, a não ser que retenha as coisas da fé por outro meio distinto. (Suma Teológica, Parte II, Seção II, Questão 5, Artigo 3)

Tomás afirma que o objeto da fé cristã é a verdade primária. Mas onde está essa verdade primária? A resposta é na Sagrada Escritura. Os romanistas podem objetar afirmando que a verdade primária era tanto a Escritura como o ensino da igreja, mas logo depois, a primazia da Escritura é clarificada: “ao ensino da igreja que procede da verdade primária revelada na Sagrada Escritura”. Ainda no artigo três ele escreveu:

Aos artigos da fé, por outro lado, se presta um assentimento obrigatório por um único meio, isto é, a verdade primária proposta na Sagrada Escritura, corretamente interpretada segundo a doutrina santa da igreja.

A verdade primária está na própria Escritura. A igreja atua como um intérprete dessa verdade, nunca como um produtor dessa verdade. Por isso, Tomás de Aquino jamais afirmou a insuficiência material da Escritura – algo que um bom número de apologistas católicos defendem. Apesar de atualmente muitos teólogos católicos defenderem a suficiência material, esse não é o ensino histórico da igreja romana. A Enciclopédia Católica já disse:

Nem a tradição nem a Escritura contém toda a tradição apostólica. A Escritura é materialmente (ou seja, em termos de conteúdo) insuficiente, exigindo a tradição oral como um complemento para ser verdadeira toda a revelação divina. (New Enciclopédia Católica (1967) Vol. 14, p. 228)

O Concílio de Trento afirmou:

Vendo que esta verdade e disciplina estão contidas nos livros escritos e nas tradições orais, que – recebidas ou pelos Apóstolos dos lábios do próprio Cristo, ou dos próprios Apóstolos sob a inspiração do Espírito Santo – chegaram até nós como que entregues de mão em mão, fiéis aos exemplos dos Padres ortodoxos, com igual sentimento de piedade e reverência aceita e venera todos os livros, tanto os do Antigo, como os do Novo Testamento, visto terem ambos o mesmo Deus por autor, bem como as mesmas tradições que se referem tanto à fé como aos costumes, quer sejam só oralmente recebidas de Cristo, quer sejam ditadas pelo Espírito Santo e conservadas por sucessão contínua na Igreja Católica. (Sessão IV – 783)

Este texto foi retomado pelo Concílio Vaticano I na Constituição Dogmática Dei Filius, cap. II:

Esta revelação sobrenatural (...) está contida nos livros escritos e nas Tradições não escritas. (DZ 3006)

E no cap. III:

Deve-se crer de fé divina e católica em tudo o que está contido na palavra de Deus escrita ou transmitida. (DZ 3011)

O renomado teólogo católico romano Karl Rahner escreveu:

Não seremos capazes de duvidar ou questionar o fato de que na teologia pós-tridentina a principal tendência de pensamento tem sido a de manter, com base numa frente antiprotestante, que há não somente a verdade da inspiração e do cânon das escrituras, mas que também há outras verdades de fé que não são encontradas nas escrituras, de modo que para eles tradição oral é uma fonte materialmente distinta da fé. (Theological Investigations [Londres: Darton, Longman & Todd, 1969], Vol. VI, 106-107)

Isso ilustra bem como a igreja romana contrariou um dos seus principais doutores mesmo numa questão tão crucial. Antes de encerrar esse artigo, é preciso fazer um esclarecimento. Sempre que demonstramos a incompatibilidade de um determinado teólogo com a igreja romana, os católicos apressadamente concluem que estamos afirmando que esse teólogo defendia a posição protestante. Esse não é o caso aqui. Tomás de Aquino não defendeu a doutrina reformada da Sola Scriptura, pelo menos não em todos os seus elementos. Ele de fato argumentou em favor de alguns elementos como a sua autoridade suprema, inspiração e infalibilidade, a suficiência material e possivelmente a suficiência formal.

No entanto, apesar de não ter defendido a infalibilidade papal (uma doutrina inexistente em seus dias), ele defendeu algum tipo de infalibilidade da igreja, o que contraria a ideia de que somente a Escritura é uma regra infalível de fé. Tomás atribuía à igreja um nível de autoridade que a fé reformada não faria e ele também acreditava que o bispo de Roma era o órgão autoritativo supremo dento da igreja. Contudo, não interpretava Mateus 16:18 como os atuais romanistas:

Novamente no tempo da Lei a primeira revelação que foi dada a Moisés era mais excelente e sobre esta revelação todas as outras revelações dos profetas foram fundadas. E assim, também, no tempo de graça toda a fé da Igreja é fundada sobre a revelação concedida aos apóstolos, acerca da fé num Deus em três pessoas de acordo com Mateus 16:18: "Sobre esta pedra", ou seja, sobre tua confissão: "Eu edificarei a minha Igreja". (Summa Theologica,2nd Part of the 2nd Part, Question 174, Article 6)

Tomás interpretou como a maioria dos protestantes interpreta. A rocha era a confissão de Pedro e não a sua pessoa, e isso faz toda a diferença. Dessa forma, ele contrariou os ensinos posteriores da igreja romana em vários pontos. Tomás não afirmaria que Escritura e Tradição são autoridades no mesmo patamar, nem afirmaria a insuficiência material. Ele não poderia ser contado como defensor da Sola Eclésia – a real posição da igreja romana na questão da autoridade.