quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Os Pais Nicenos e o Culto às Imagens (Eusébio de Cesareia)



Aqui damos continuidade ao nosso estudo sobre os pais da igreja e o culto às imagens e ícones. Vamos elencar os pais nicenos (séc. IV), especialmente Eusébio e Epifânio. Antes de tudo, vejamos o panorama da situação no séc. IV. O especialista em história da Arte Ernst Kitzinger escreveu:

Quando, no início do século IV, a arte cristã tornou-se objeto de comentários mais articulados, estes eram a princípio ou de alguma forma restritivos. Não foi antes da segunda metade do quarto século que algum escritor começou a falar da arte pictórica cristã em termos positivos. Ainda assim, era uma questão com referências fugazes ao invés de uma defesa sistemática (...) Estas justificativas das imagens cristãs como foram tentadas durante a segunda metade do século IV baseava-se exclusivamente em sua utilidade como ferramentas educacionais, particularmente para os analfabetos. (Kitzinger,Ernst, "The Cult of Images in the Age before Iconoclasm", DumbartonOaks Papers, Vol. 8, (1954), p. 87)

Mesmo durante o século quatro, as vozes mais importantes da igreja eram contrárias às imagens. E mesmo entre as vozes apoiantes, não havia qualquer culto envolvido. O argumento favorável apelava à utilidade pedagógica das imagens para instruir uma população predominantemente analfabeta. Ernst Kitzinger prossegue:

A aversão primitiva do cristianismo às artes visuais estava enraizada em sua espiritualidade. "É chegada a hora em que os verdadeiros adoradores adoram o Pai em espírito e em verdade" (João 4:23). O conceito espiritualizado de culto encontrou o que é talvez a sua expressão mais eloquente nas palavras de Minucio Felix (...) (Ibid., p. 89)

Não transcrevi a citação de Minúcio porque está contida na primeira parte de nosso estudo. Kitzinger prossegue:

Como esta passagem mostra [a citação de Minúcio], a rejeição radical das artes visuais pela Igreja primitiva foi parte de uma rejeição geral aos acessórios materiais na vida religiosa e no culto. A resistência para fazer representações foi, no entanto, particularmente forte, em parte devido à proibição de imagens que fazia parte da Lei Mosaica, e em parte por causa do papel central que as estátuas e as imagens em geral ocupavam nas religiões do paganismo greco-romano. (Ibid., 89)

Observem que os cristãos primitivos tinham razões teológicas (a lei mosaica) e razões práticas (as religiões pagãs) para rejeitar o uso de imagens. Kitzinger vai então nos dar importante informações de quando e como o culto às imagens se originou no seio da Igreja cristã:

O caminho para o culto às imagens foi pavimentado no século IV pela adoção generalizada de outros suportes materiais que não eram barrados por quaisquer proibições específicas, nomeadamente cruzes e relíquias. A veneração da cruz pode ter sido praticada aqui e ali mesmo durante o período de perseguições, mas recebeu seu maior impulso através da identificação simbólica do instrumento da Paixão de Cristo com o padrão vitorioso do exército de Constantino o Grande, uma identificação expressa graficamente no sinal do labarum, que aparece em moedas na terceira década do quarto século. No final do século IV, a proskynesis [veneração] diante do sinal da paixão [a cruz] foi considerada perfeitamente natural para um cristão. O culto das relíquias deve ter se espalhado ainda mais amplo e rapidamente. Pequenas partes da cruz verdadeira, supostamente redescoberta no reinado de Constantino, foram logo ansiosamente procurados pelos fiéis em todo o mundo, de acordo com Cirilo de Jerusalém (ano 350) (...) O culto da cruz e das relíquias estava em pleno andamento no tempo dos grandes padres da Capadócia. O culto às imagens, no entanto, não veio ao seu alcance, mesmo de forma negativa. Ao menos o culto de imagens religiosas não veio. É bom lembrar ao considerar a ascensão das práticas idólatras entre os cristãos que os Pais do quarto século admitem a justeza das honras e cumprimentos tradicionalmente prestados à imagem do Imperador. De acordo com Malalas, Constantino instituiu a prática de ter sua própria imagem carregada em procissões solenes no dia do aniversário da fundação de sua capital e ter o dia de ser curvar diante dela (...) Não faltam evidências de que o culto tradicional ao imperador sofreu pouca ou nenhuma interrupção por causa do triunfo do cristianismo. Numerosas fontes do século IV mostram que uma vez que o imperador se tornou um cristão, tais práticas não foram mais contestadas pela maioria das autoridades clericais. A famosa citação do Tratado de São Basílio sobre o Espírito Santo, tantas vezes utilizada em séculos posteriores em defesa do culto de imagens de Cristo, bem como passagens de outros escritores desse período no qual o culto à imagem imperial é apresentado para ilustrar um ponto, mostram que essa forma de culto era de fato considerada costumeira e apropriada. Gregório Nazianzeno, em sua primeira diatribe contra Juliano, afirmou que a atitude cristã com relação ao que ele chama de “costumeira honra ao soberano” mais explicitamente: “(...) eles devem ter adoração para que eles possam parecer mais terríveis - e não apenas a adoração que recebem em pessoa, mas também que recebem em suas estátuas e retratos, a fim de que a veneração pode ser mais insaciável e mais completa (Contra Juliano 1:80). Quanta influência o culto à imagem do imperador teve sobre o culto às imagens religiosas é bem ilustrado por duas passagens na História Eclesiástica de Philostorgio, escrita durante a primeira metade do quinto século. Se nós podemos confiar no testemunho de Potios (...) O culto à estátua de Constantino no fórum era, no tempo de Philostorgio, era completo com sacrifícios propiciatório, queima de velas e incenso, orações e súplicas (...) Finalmente, na primeira metade do sexto século, encontramos a primeira alusão na literatura de proskynesis [veneração] sendo praticada diante das imagens nas igrejas. Isto parece ter sido contido em um inquérito recebido pelo Bispo Hypatio de Éfeso de um de seus subordinados, Juliano de Atramytion. (Ibid., p. 90-95)

Assim como outras práticas heréticas, o culto às imagens nasceu a partir da influência pagã sobre o cristianismo. O embrião desse desenvolvimento foi o culto à imagem do imperador que não foi devidamente censurado pelos cristãos. Já havia no séc. IV o precedente do culto à cruz e às relíquias. Daí para o culto às imagens foi um passo não muito grande. Contudo, a primeira alusão à veneração de imagens na igreja remonta ao século VI. Isto é absolutamente incompatível com a afirmação de que a veneração das imagens foi sempre praticada pela Igreja Cristã. O bispo ortodoxo oriental Kallistos Ware confirma o relato acima:

O primeiro tipo de ícone que recebeu veneração não era religioso, mas secular - o retrato do imperador. Este era considerado como uma extensão da presença imperial, e as honras que eram mostradas ao imperador em pessoa eram prestadas também ao seu ícone. Incenso e velas eram queimados diante dele, e como um sinal de respeito os homens inclinavam-se até ao chão perante ele, tal prostração era normalmente descrita pelo termo proskynesis [1]. Este culto da imagem imperial remonta aos tempos pagãos: com a conversão do imperador ao Cristianismo ele foi prontamente aceito pelos cristãos, e não houve qualquer objeção levantada por parte das autoridades eclesiásticas.

Se os homens dispensam tal respeito à imagem do governante terreno, não devem mostrar igual reverência à imagem de Cristo o Rei celestial? Foi uma inferência óbvia e natural, mas não foi uma inferência que foi feita de uma só vez. Na verdade, proskynesis foi mostrado para com as relíquias dos santos e da Cruz antes de começar a ser mostrado para com o ícone de Cristo. Foi só no período seguinte a Justiniano - durante os anos 550-650 - que a veneração dos ícones em igrejas e casas particulares tornou-se aceito na vida devocional dos cristãos orientais. Pelos anos 650-700 foram feitas as primeiras tentativas por escritores cristãos de fornecer uma base doutrinal para este crescente culto de ícones e de formular uma teologia cristã da arte. De particular interesse é a obra, que sobrevive apenas em fragmentos, de Leôncio de Neápolis (em Chipre), rebatendo críticas judaicas.

A veneração dos ícones não foi aceite em todos os lugares sem oposição. No final do século VI foram feitos protestos em extremos geográficos distantes, em ambos os casos fora dos limites do Império Bizantino - a Ocidente, em Marselha, e a Oriente, na Arménia». (Extraído de “Christian Theology in the East,” in A History of Christian Doctrine, editado por Hubert Cunliffe-Jones [Philadelphia: Fortress Press, 1980], pp. 191-92)

O estudioso ortodoxo aponta a origem espúria do culto às imagens – o culto pagão à imagem do imperador. Ele ainda atesta que este culto, embora tenha surgido apenas no século VI, encontraria ainda ferrenha oposição no seio da igreja. 

Eusébio de Cesareia

A Evidência mais contundente a respeito de Eusébio está contida em sua carta à Constância Augusta – irmã do Imperador Constantino. Ela pede uma imagem de Cristo, mas a resposta de Eusébio é a seguinte:

Você escreveu a mim a respeito de um certo ícone de Cristo e o seu desejo de que eu enviasse tal ícone a você: o que você tinha em mente, e de que tipo este ícone de Jesus deveria ser? Como você chama isto? (...) Qual ícone de Cristo você está procurando? A verdadeira e imutável imagem que tem por natureza a semelhança de Cristo, ou melhor, aquela que ele tomou para nós quando se vestiu com a forma de um servo (Fp 2:7)? (...) Eu não posso imaginar que você está requerendo um ícone de imagem divina. O próprio cristo instruiu você de que ninguém conhece o Pai exceto o filho, e de ninguém é digno conhecer o filho exceto somente o Pai que o gerou (...) Então, eu presumo que você deseje um ícone de sua forma como um servo, a forma da carne humilde a qual ele próprio vestiu para nosso amor. Já a respeito disso nós aprendemos que ela está misturada com a glória de deus e o que é mortal foi engolido pela vida (...) é repugnante só a ideia de que possa haver pinturas nos lugares destinados ao culto. (Carta a Constância)

O renomado estudioso ortodoxo George Florovsky escreveu:

A carta não pode ser datada com precisão. Foi uma resposta a Constância Augusta -  uma irmã de Constantino. Ela pediu a Eusébio que lhe enviasse uma imagem de Cristo. Ele ficou surpreso. Que tipo de imagem ela quis dizer? Ele nem conseguia entender por que ela deveria querer um. Seria a imagem verdadeira e imutável, que teria em si o caráter de Cristo? Ou era a imagem que ele assumira quando tomou a forma de um servo por nossa causa? A primeira, observa Eusébio, é obviamente inacessível ao homem, pois somente o pai conhece o filho. A forma de um servo, que ele assumiu na Encarnação, foi amalgamada com sua Divindade. Após sua ascensão ao céu, ele havia mudado essa forma de servo para o esplendor que, por antecipação, revelara aos seus discípulos (na Transfiguração) e que era mais elevado do que a natureza humana. Obviamente, esse esplendor não pode ser representado pelas cores e sombras sem vida. Os apóstolos não podiam olhá-lo. Se mesmo em sua carne havia tal poder, o que dizer agora quando ele transformou a forma de um servo na glória do Senhor e de Deus? Agora ele descansa no insondável peito do Pai. Sua forma anterior foi transfigurada e transformada naquele esplendor inefável que passa a medida de qualquer olho ou ouvido. Nenhuma imagem desta nova forma é concebível, se esta substância deificada e inteligível ainda pudesse ser chamada de forma. Não podemos seguir o exemplo dos artistas pagãos que retratam coisas que não podem ser retratadas e cujas imagens são sem qualquer semelhança genuína. Assim, a única imagem disponível seria apenas uma imagem em estado de humilhação. No entanto, todas essas imagens são formalmente proibidas na Lei, e nenhuma dessas é conhecida nas igrejas. Ter essas imagens significaria seguir o caminho dos pagãos idólatras. Nós, cristãos, reconhecemos a Cristo como o Senhor e Deus e estamos nos preparando para contemplá-lo como Deus na pureza de nossos corações. Se quisermos antecipar essa imagem gloriosa, antes de encontrá-lo face a face, há apenas um bom pintor - a própria Palavra de Deus. O ponto principal deste argumento eusebiano é claro e óbvio. Os cristãos não precisam de nenhuma imagem artificial de Cristo. Eles não têm permissão para voltar, mas devem olhar para frente. A imagem histórica de Cristo, na forma de sua humilhação, já foi superada por seu esplendor divino no qual ele agora habita. Este esplendor não pode ser visto ou delineado, mas no devido tempo, os verdadeiros cristãos serão admitidos na glória da era vindoura. Seria supérfluo, para nosso propósito atual, compilar os paralelos dos outros escritos de Eusébio. (George Florovsky, ‘ Origen, Eusebius and the Iconoclastic Controversy', ChurchHistory, Vol. 19, No. 2 (Jun., 1950), pp. 77-96)

É notório que o argumento de Eusébio é cristológico. Florovsky identifica Orígenes como a fonte da iconoclastia de Eusébio:

Não poderíamos deixar de observar a íntima semelhança entre as ideais de Orígenes e aquelas na carta de Eusébio a Constancia. A cristologia de Orígenes foi o pano de fundo e a pressuposição de Eusébio. Ele tirou conclusões legítimas dos princípios estabelecidos por Orígenes. Se alguém caminha nas etapas de Orígenes, ele realmente se interessaria por alguma imagem histórica do Senhor? O que poderia ser representado já foi superado e substituído e a verdadeira e gloriosa realidade do Senhor ressuscitado escapa de qualquer descrição. Além disso, do ponto de vista origenista, a verdadeira face do Senhor dificilmente poderia ser descrita mesmo nos dias de seu corpo. (Ibid)

O estudioso David M. Gwynn expressa o mesmo:

Por volta do ano 327, o famoso historiador da igreja primitiva Eusébio, que morava em Jerusalém, recebeu uma carta da irmã do imperador, Constancia, pedindo-lhe uma imagem de Cristo. Eusébio escreveu-lhe uma resposta muito severa. Ele sabia que tais imagens existiam nos mercados, mas ele não acreditava que as pessoas que faziam tais coisas eram cristãs. Ele tomou como certo que apenas os artistas pagãos sonhariam em fazer tais representações. Eusébio insistiu que mesmo o Cristo encarnado não pode aparecer em uma imagem, pois “a carne que Ele assumiu por nós ... foi mesclada com a glória de Sua divindade, de modo que a parte mortal foi engolida pela Vida”. Esse foi o esplendor daquele Cristo revelado na Transfiguração e que não poderia ser capturado na arte humana. Descrever puramente a forma humana de Cristo antes de sua transformação, por outro lado, é quebrar o mandamento de Deus e cair em erro pagão. (From Iconoclasm to Arianism: The Construction ofChristian Tradition in the Iconoclast Controversy [Greek, Roman, and ByzantineStudies 47 (2007) 225–251], p. 227)

A objeção mais comumente levantada questiona a autoria desta carta. No entanto, a maioria dos estudiosos a considera autêntica devido ao estilo de escrita e ao fato de a teologia nela expressa estar contida em outras obras de Eusébio. Por isso, Florovsky afirma que “seria supérfluo, para nosso propósito atual, compilar os paralelos dos outros escritos de Eusébio”. A cristologia da carta à Constância é atestada como sendo de Eusébio a partir de suas outras obras e também pelo fato de ele ser um reconhecido Origenista. Florovsky também escreve: “Não há razão alguma para questionar sua autenticidade”. Ele cita como autoridade a opinião do renomado historiador da igreja Karl Holl. O estudioso de Havard Peter Van Nuffelen escreveu:

No entanto, agora é geralmente aceito que a carta é uma peça genuína de Eusébio (41). (Fonte)

Ele cita os seguintes estudiosos na nota de rodapé 41 em apoio a autenticidade da carta:

(41) Gero 1981; Thümmel 1984; Stockhausen 2000; Gwynn 2007: 227n5 e 6. Barnes 2010 argumenta que a carta é genuína, mas retocada após a morte de Eusébio.

O arcebispo de Viena Christoph Schönborn também afirma a autenticidade da obra:

Nós acreditamos que o estilo da carta e a teologia se encaixam bem na obra deste grande historiador. (Fonte)

Um forte argumento para autenticidade da carta é que mesmo em meio a controvérsia iconoclasta que emergiria séculos depois, os partidários do culto aos ícones não questionaram sua autenticidade. Eles apenas desqualificaram o testemunho de Eusébio acusando-o de ser um ariano. É digno de nota que a maioria dos historiadores não vê justiça nesta acusação. Eusébio não era ariano, mas sim um origenista. Florovsky escreve:

A evidência de Eusébio, curiosamente, nunca recebeu muita atenção. Tem sido frequentemente citada, mas nunca analisada adequadamente. Não há razão alguma para questionar sua autenticidade. Parece ser o argumento-chave em todo o sistema do raciocínio iconoclástico. Não foi por acaso que São Nicéforo se sentiu compelido a escrever um antirrético especial contra Eusébio. O nome de Eusébio exige atenção por outro motivo: toda a concepção iconoclástica do poder e autoridade imperial na Igreja remonta a Eusébio. Havia uma tendência óbvia de arcaísmo na política iconoclasta. A carta de Eusébio não é preservada na íntegra. Algumas partes dela foram citadas e discutidas no Concílio de Nicéia e novamente por Nicéforo, e todos os trechos disponíveis foram reunidos por Boivin e publicados pela primeira vez nas notas de sua edição da História de Nicéforo Gregoras (1702). (Fonte)

Obviamente, partidários dos ícones como Nicéforo teriam toda a predisposição para colocar em dúvida o testemunho de Eusébio caso houvesse algum motivo razoável para tal. A posição pró-autenticidade é tão dominante que até mesmo fontes como a Enciclopédia Católica atribuem a carta a Eusébio:

A história [mostra] a preservação das três cartas, (45) a Alexandre de Alexandria, (46) a Eufrásio ou Eufração, (47) à Imperatriz Constancia, que é bastante curiosa. Constancia pediu a Eusébio que lhe enviasse uma certa imagem de Cristo, da qual ela havia ouvido falar. Sua recusa foi expressa em termos que séculos depois foram apelados pelos iconoclastas. Uma parte desta carta foi lida no Segundo Concílio de Nicéia. (Fonte)

E em outro artigo da enciclopédia também lemos:

Mas é interessante ver que no final do primeiro período havia alguns bispos que reprovavam o crescente culto de imagens. Eusébio de Cesaréia (d. 340), o Pai da História da Igreja, deve ser contado entre os inimigos dos ícones. Em vários lugares de sua história, ele mostra sua antipatia por eles. Eles são um "costume pagão" (História Eclesiástica, VII, 18). Ele escreveu muitos argumentos para convencer a irmã de Constantino, Constancia, a não guardar uma estátua de nosso Senhor (ver Mansi, XIII, 169). (Fonte)

Observem que a Enciclopédia Católica cita a mais famosa obra de Eusébio – a História Eclesiástica. Não há dúvida quanto a autoria deste livro. Portanto, não dependemos apenas da Carta à Constância para estabelecer a iconoclastia de Eusébio:

Mas já que fizemos menção a esta cidade [Paneia], creio que não é justo passar por alto um relato digno de memória inclusive para nossos descendentes. De fato, a hemorrágica, que pelos Evangelhos sabemos que encontrou a cura de seu mal por obra de nosso Salvador, diz-se que era originária desta cidade e que nela se encontra sua casa, e que ainda subsistem monumentos admiráveis da boa obra nela realizada pelo Salvador. Efetivamente, sobre uma pedra alta, diante das portas de sua casa, alça-se uma estátua de mulher em bronze, com um joelho dobrado e com as mãos estendidas para a frente como uma suplicante; e em frente a esta, outra do mesmo material, efígie de um homem em pé, belamente vestido com um manto e estendendo sua mão para a mulher; a seus pés, sobre a mesma pedra, brota uma estranha espécie de planta, que sobe até a orla do manto de bronze e que é um antídoto contra todo tipo de enfermidades. Dizem que esta estátua reproduzia a imagem de Jesus. Conservava-se até nossos dias, como comprovamos nós mesmos de passagem por aquela cidade. E não é estranho que tenham feito isto os pagãos de outro tempo que receberam algum benefício de nosso Salvador, quando perguntamos por que se conservam pintadas em quadros as imagens de seus apóstolos Paulo e Pedro, e inclusive do próprio Cristo, coisa natural, pois os antigos tinham por costume honrá-los deste modo, simplesmente, como salvadores, segundo o uso pagão vigente entre eles. (História Eclesiástica, VII, 18)

Impressiona o fato de apologistas católicas usarem tal citação para contradizer a iconoclastia de Eusébio. Ele reconhece que havia imagens de Jesus e dos Apóstolos, mas como atesta a Enciclopédia Católica, este não era o costume cristão e sim pagão. Caso a prática de usar estas imagens num contexto cristão fosse vista como natural e costumeira por Eusébio, algumas explicações das diferenças entre o uso pagão e cristão das imagens seriam esperadas. Além disso, há dúvidas entre os historiadores sobre se tais imagens eram de Jesus. O arcebispo Christoph Schönborn menciona:

Alguns historiadores pensam que esta pode ser uma estátua de Asclépio, o deus da cura, somente reinterpretada neste período como uma estátua de Cristo. (Fonte)

Por fim, um último argumento usado pelos defensores do culto aos ícones é a obra Vida de Constantino (aqui) escrita por Eusébio. A obra contém referências ao uso da arte cristã na cidade de Constantinopla, bem como na decoração das igrejas:

E estando totalmente decidido a distinguir a cidade que recebeu seu nome com honra especial, ele a embelezou com numerosos edifícios sagrados - tanto memoriais de mártires em grande escala, como outros edifícios do tipo mais esplêndido, não apenas dentro da própria cidade, mas em sua vizinhança. E assim, ao mesmo tempo, prestou honra à memória dos mártires e consagrou sua cidade ao Deus dos mártires. Sendo preenchido também com a sabedoria Divina, ele determinou purgar a cidade, a qual deveria ser distinguida por seu próprio nome, da idolatria de todo tipo. A partir de então nenhuma estátua poderia ser adorada ali nos templos daqueles falsamente reputados como deuses, nem quaisquer altares profanados pela poluição do sangue - para que não haja sacrifícios consumidos pelo fogo, nem festivais de demônios, nem quaisquer outras cerimônias geralmente observadas pelos supersticiosos.

Por outro lado, pode-se ver as fontes no meio do mercado enfeitadas com figuras representando o bom Pastor, bem conhecido por aqueles que estudam os oráculos sagrados, e o de Daniel também com os leões, forjados em latão e resplandecentes com placas de ouro. De fato, uma medida tão grande do amor Divino possuía a alma do imperador que no aposento principal do próprio palácio imperial, em uma vasta placa exposta no centro de seu teto revestido de ouro, ele fez com que o símbolo da Paixão de nosso Salvador fosse fixado, composto de uma variedade de pedras preciosas ricamente enriquecidas com ouro. Ele pretendia que este símbolo fosse a salvaguarda do próprio império. (Livro 3:49)

Esta citação refere-se à cidade de Constantinopla. Constantino teria mandado destruir as estátuas do culto pagão e teria construído igrejas na cidade e vizinhanças. Os defensores do culto aos ícones tentam a partir desta citação demonstrar que Eusébio era favorável a tal culto. Ocorre que não há nenhuma contradição explícita aqui. Eusébio refere-se ao uso da arte cristã através de símbolos cristãos (como o bom pastor) para fins decorativos. Não há menção de estátuas de santos em igrejas, nem de pessoas prestando qualquer tipo de culto aos ícones. Não há nada que se assemelhe ao culto praticado por católicos romanos e orientais. 

Peter Van Nuffelen escreve sobre esta aparente contradição: 

De fato, Eusébio rejeitou a produção de imagens de Cristo em sua carta a Constância, um documento que, sem surpresa, ressurgiu durante a controvérsia iconoclasta. Dada a sua primeira atestação tardia e o aparente contraste de atitude com o uso extensivo de imagens de Eusébio em outros lugares em seus escritos, sua autenticidade tem sido questionada. No entanto, agora é geralmente aceito que a carta é uma peça genuína de Eusébio. Uma discussão extensa desta questão não pode ser tentada aqui. Eu gostaria de argumentar que, mesmo que a carta fosse autêntica, a posição que ela assume sobre as imagens não é muito diferente daquela que eu detectei na Vida de Constantino. De fato, a reflexão sobre as imagens que recuperamos da vida de Constantino se encaixa muito bem com a posição encontrada na carta a Constância. Seria enganoso afirmar que a carta rejeita todos os tipos de imagens e que a Vida abrange todas elas. Mesmo na vida de Constantino, o uso de imagens é limitado em termos teológicos de duas maneiras. Por um lado, as imagens são atribuídas ao reino humano. Como conseqüência, eles são imperfeitos e incapazes de refletir plena e verdadeiramente o divino. Na melhor das hipóteses, são aproximações imperfeitas das verdades superiores. Esta posição é bem ilustrada pela ideia que encontramos no prefácio de que o logos humano pode ascender ao céu e ver o esplendor divino, mas não expressá-lo. Por outro lado, as imagens não são ficções para Eusébio e somente são admissíveis sob a condição de que elas mantenham uma relação de verdade com seu modelo: se essa condição não for cumprida, como é o caso dos ídolos, são geradas falsas imagens. (Fonte)

Ou seja, Eusébio não era contrário a qualquer tipo de uso das imagens. Ele não seria contrário à arte decorativa por exemplo. No entanto, os requisitos que ele estabelecia não permitiria a feitura de imagens de Jesus ou dos apóstolos, afinal tais imagens não poderiam representar o modelo real que andou pela terra. Isto, por óbvio, coloca Eusébio em oposição ao culto às imagens praticado atualmente.  

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

A BORRACHA PAPAL



1. O Papa Francisco reescreveu o Catecismo para proibir a pena capital em todos os casos. Aqui está o anúncio oficial:
http://press.vatican.va/content/salastampa/it/bollettino/pubblico/2018/08/02/0556/01210.html#letteraing

E aqui está a nova posição no CCC:

O recurso à pena de morte por parte da autoridade legítima, na sequência de um julgamento justo, foi durante muito tempo considerado uma resposta apropriada à gravidade de certos crimes e um meio aceitável, embora extremo, de salvaguardar o bem comum.

Hoje, no entanto, há uma crescente conscientização de que a dignidade da pessoa não está perdida mesmo após a prática de crimes muito graves. Além disso, surgiu um novo entendimento sobre o significado das sanções penais impostas pelo Estado. Por último, foram desenvolvidos sistemas de detenção mais eficazes, que asseguram a devida proteção dos cidadãos, mas, ao mesmo tempo, não privam definitivamente os culpados da possibilidade de resgate.

Consequentemente, a Igreja ensina à luz do Evangelho que “a pena de morte é inadmissível porque é um atentado contra a inviolabilidade e a dignidade da pessoa”, e trabalha com determinação para a sua abolição em todo o mundo.

2. Há duas maneiras de avaliar essa reversão: uma é julgá-la por um padrão externo de comparação. Ou seja, a autorização bíblica para a pena capital. O outro é julgá-lo por um padrão interno de comparação. Ou seja, consistência ou inconsistência com o ensino católico tradicional. Eu vou começar com o primeiro.

i) O locus clássico para a pena capital é Gn 9:5-6. Esse fundamenta a pena capital na Imago Dei. O assassinato é um ataque aos portadores da imagem divina. Esse é um princípio atemporal e não temporário. Desde que os humanos carregarem a imagem de Deus - e essa é uma característica essencial de nossa humanidade -então a justificação subjacente para a pena de morte permanece a mesma.

Além disso, a punição exigida é a justiça poética ou lex talionis. Uma simetria entre a natureza da ofensa e a natureza da penalidade.

Como tal, o motivo da pena de morte é principalmente a justiça retributiva e não o seu valor preventivo. Mesmo que a pena de morte não tivesse um valor preventivo, a lógica permaneceria inalterada. É uma questão de princípio, não de pragmática.

ii) Além disso, o texto não coloca a "dignidade" do assassino em pé de igualdade com a dignidade da vítima de assassinato. Ao contrário, se vamos usar essa categoria, a afronta à dignidade da vítima ou à honra de Deus, visto que a vítima representa Deus através da imago Dei, supera a dignidade do assassino.

3. Eu acredito que Germain Grisez deu início a este debate entre os intelectuais católicos:

4. A reação à mudança é variada. Pensadores católicos de elite como Robert George, Ryan Anderson e Christopher Tollefsen, que compartilham a perspectiva de Grisez, não têm nenhum problema com a mudança. Vejamos alguns outros entrevistados:

Adrian Vermeule: a obediência a uma autoridade epistemológica só se torna genuína quando a autoridade afirma um X com o qual você discorda, talvez com veemência. Se você apenas "obedecer" quando você concorda com X de forma independente, não é obediência.

Apologistas católicos como Bryan Cross usam o mesmo argumento. No entanto, um problema com esse argumento (entre outras objeções) é que ele só funciona se a autoridade epistemológica for consistente. Se, no entanto, a nova posição representa uma inversão do ensinamento católico tradicional, então não é possível que os católicos sejam obedientes, já que não há autoridade epistemológica a obedecer, e diferentes autoridades epistemológicas assumem posições divergentes fazendo reivindicações contraditórias sobre a obediência dos católicos. Os católicos deveriam obedecer à autoridade epistemológica do ensino tradicional católico, ou a sua revogação sob João Paulo II, Bento XVI e Francisco? Você tem políticas papais indo em direções discrepantes.

Peter D. Williams: nenhum ensinamento mudou. Então (...) vai aquele falso argumento. O que está acontecendo aqui é uma contradição, mas o desarranjo eclesiástico de um Catecismo não pode mudar o depósito imutável da fé. Os católicos não são reféns dos erros da Igreja institucional.

Mas, de acordo com seu colega e porta-voz católico (Adrian Vermeule), os católicos são reféns da igreja institucional. A obediência só é genuína quando você se submete a algo com o qual você não concorda. Se você faz isso apenas porque coincidentemente concorda com o que você já acredita, isso não é obediência. Dizer quie isso reflete um "erro" da igreja institucional ou contradição com o ensino estabelecido no passado é insubordinação.

Peter D.Williams: o Catecismo não é a doutrina da Igreja. Um Catecismo é um compêndio descritivo do ensino da Igreja encontrado em outras fontes.

Isso pode ser verdade em um sentido técnico restrito, mas o CCC não é projetado para ser o trabalho de referência para os leigos? Se eles querem saber o que os católicos devem acreditar em doutrina e ética, essa é a primeira coisa que eles devem pegar. É por isso que JP2 e Ratzinger promulgaram o CCC em primeiro lugar. - fornecer uma interpretação oficial da teologia pós-Vaticano II e fixar a interpretação favorecida por JP2 e Ratzinger. O objetivo é dar aos católicos uma visão geral confiável e bastante sistemática do ensino católico oficial. Não apenas um compêndio, mas um compêndio confiável.

Pela lógica de Peter, o CCC é indigno de confiança. Você precisa lê-lo com dois ou mais marcadores mágicos de cores diferentes para distinguir os pedaços infalíveis dos pedaços errantes. Mas isso acaba com o propósito de ter o CCC em primeiro lugar. Supõe-se que o CCC funcione como uma referência, e não algo que os leitores católicos devem avaliar comparando-o com algum outro marco de referência.

Trent Horn: em relação à pena de morte 1) O Catecismo não é infalível e foi alterado antes; 2) Ensinamentos não infalíveis podem mudar; 3) mudanças no mundo podem mudar a moralidade de alguns atos (como quando os mercados tornaram possíveis empréstimos não-usurários).

Vários problemas:

i) João Paulo II declarou o CCC como uma "norma segura para ensinar a fé" e os apologistas católicos contrastam incessantemente certas verdades do catolicismo com as crenças incertas dos protestantes.

ii) Sim, "mudanças no mundo podem mudar a moralidade de alguns atos", mas a razão fundamental para a pena de morte não é prudencial, mas baseada na natureza do homem como a imago Dei. Isso é invariante no tempo e no lugar. Enquanto os seres humanos são humanos, a garantia e obrigação de infligir a pena de morte em caso de assassinato é inalterável.

iii) Da mesma forma, o texto diz que a pena de morte é "inadmissível porque é um ataque à inviolabilidade e dignidade da pessoa". Mas enquanto o mundo mudou em alguns aspectos, a natureza humana continua a mesma. Portanto, a revogação da doutrina católica tradicional a esse respeito não pode ser defendida pelo apelo a mudanças nas circunstâncias.

iv) Além disso, é um exagero dizer que as circunstâncias são tão diferentes em todo o mundo para que o raciocínio original seja extinto. Não há justificativa empírica para uma afirmação tão abrangente. Em vez disso, este é um caso em que papas recentes mudaram o status quo e lançam-se sobre desculpas ad hoc. O enunciado geral não tem sustentação factual - como se as condições no mundo moderno fossem uniformes.

v) Este não é um desenvolvimento da tradição imemorial, mas um desenvolvimento das inovações teológicas de João Paulo II. Um decreto doutrinário ex nihilo.

vi) Justificativa circular. Como você sabe quando os ensinamentos católicos são falíveis? Só se eles mudarem. Isso significa que você não sabe antecipadamente o que é falível ou infalível. Quando o ensino católico muda, você sabe após o fato de que ele era falível. Portanto, a distinção é retrospectiva e não prospectiva. Futuro, não presente. Isso significa que os católicos estão rotineiramente no escuro graças à doutrina do desenvolvimento. Eles podem ver por trás, mas não à frente. Com o benefício da retrospectiva, você pode saber que algumas coisas são falíveis, mas nunca se sabe o que é infalível. O ensino católico é escrito a lápis e não a tinta, e todo papa tem uma borracha gigantesca.

Texto original aqui.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Eusébio de Cesareia e a Eucaristia



Eu já publiquei uma série de artigos sobre os Pais da Igreja e a Eucaristia que podem ser vistos aqui. Sabemos que 11 a cada 10 apologistas católicas irão afirmar que a visão católica romana da Eucaristia foi “sempre crida pela Igreja” e que os pais da igreja unanimemente sustentaram tal visão. Contudo, quando estudamos fontes acadêmicas, mesmo de autores católicos, percebemos que tais ideias passam longe da realidade. Havia entre os pais da igreja uma variedade de visões sobre a Eucaristia, e muitas delas se chocariam com o atual ensino da Igreja de Roma. Eu já tratei do testemunho de Eusébio, mas resolvi revisitá-lo por conta de um livro que estou lendo sobre a atitude da Igreja antiga perante a iconografia de Cristo. O autor em questão é   Christoph Schönborn – o arcebispo de Viena. Ele nos traz um bom resumo da visão eucarística de Eusébio que, como eu já havia defendido, era memorialista e não dava margem para a transubstanciação:

A antropologia de Eusébio inevitavelmente leva a uma atitude iconoclasta. Isto é confirmado também na área onde a interconexão entre as coisas do sentido e as coisas do espírito são especialmente relevantes: na teologia sacramental. Se Eusébio foi de fato o principal testemunho patrístico dos opositores das imagens, e se por outro lado os iconoclastas declaravam que a Eucaristia é o único ícone adequado de Cristo, então deve ser de algum interesse dar uma olhada, pelo menos brevemente, no ensino eucarístico de Eusébio. De fato, Eusébio também chama a espécie eucarística de imagem (eikén). Além disso ele é um dos poucos Padres da Igreja a fazer isso. Ele vê a Eucaristia acima de tudo como um memorial; os símbolos eucarísticos fazem presente o memorial do único sacrifício de Cristo:

Foi-nos transmitido realizar no altar o memorial deste sacrifício, empregando os símbolos de seu corpo e seu sangue salvífico, de acordo com as leis da Nova Aliança.

O próprio Cristo confiou aos seus discípulos os símbolos da economia divina da salvação, e os ordenou transformá-los na imagem do seu próprio corpo. Pois, ele não mais tem prazer em sacrifícios de sangue nem nos holocaustos prescritos por Moisés. Ao invés disso, ele ordenou o uso do pão como símbolo de seu próprio corpo.

Mesmo num sentido geral, o pão e o vinho eucarístico são chamados de “os símbolos da inefável palavra da Nova Aliança”. Dessa forma, Eusébio interpreta as palavras de Jesus sobre o pão da vida (João 6) no sentido de participação espiritual da Palavra de Deus e não de consumo da “carne” do corpo que o Logos vestiu, nem de beber o “visível, físico” sangue. Esta espiritual e memorial interpretação da Eucaristia difere marcadamente do sacramental realismo da maioria dos pais da Igreja desta época. Enquanto eles usualmente enfatizam a realidade do sacramento físico, Eusébio compreende o sacramento antes de tudo como um dos elementos formadores da inteiramente mental e espiritual vida dos cristãos e de sua liturgia, a qual suplantou os físicos e corpóreos sacrifícios do Antigo Testamento.

A influência de Eusébio sobre a doutrina eucarística dos iconoclastas do oitavo século foi demonstrada. A conexão entre sua rejeição dos ícones de Cristo, sua atitude geral em relação às imagens e sua predominante concepção espiritualista dos sacramentos ilustra num estilo típico que a luta da Igreja sobre os ícones foi acima de tudo uma luta teológica. Eusébio foi capaz de nos mostrar isto: a atitude em relação aos ícones de Cristo é determinada pelo conceito do próprio Cristo como uma imagem.

O trecho acima pode ser visto aqui. Isto só vem a confirmar a tese explorada neste blog. A melhor forma de refutar a apologética católica é trazer a luz as fontes acadêmicas, sobretudo católicas. Todas as afirmações exageradas e revisionismo simplório dos apologistas cai diante dos historiadores da Igreja de Roma. Experimente pegar qualquer artigo católico sobre um tema doutrinário polêmico e compare com o conteúdo mesmo de uma fonte bem parcial como a Enciclopédia Católica. É verificável que há uma distância enorme entre as duas fontes. Não é acidental que este blog faça mais uso de fontes acadêmicas católicas do que protestantes.  

terça-feira, 19 de junho de 2018

Os Pais da Igreja Pré-Nicenos e o Culto às Imagens e Ícones


Neste primeiro artigo, vamos tratar da evidência patrística pré-nicena sobre o culto às imagens e aos ícones. Vamos demonstrar que houve um consenso patrístico contra o uso de tais elementos como objeto de culto. Apologistas católicos e ortodoxos, totalmente desamparados de qualquer pesquisa histórica, costumam fazer afirmações do tipo:  “A ideia de que a Igreja dos primeiros séculos foi de modo algum preconceituosa contra imagens, ícones, relíquias estátuas é a ficção mais descabida possível.” O artigo apologético católico afirma: “O ensino cristão das imagens e relíquias sagradas, esta presente desde os primeiros escritos cristãos que se tem conhecimento, todos eles confirmam unanimamente como a teologia católica, não inova apenas repete o que é da fé através dos séculos!”. Obviamente esse tipo de afirmação é encontrada apenas em apologistas de internet. Conforme veremos numa seção desse artigo – historiadores católicos romanos e ortodoxos afirmam que os primeiros cristãos tinham sim preconceito contra o culto às imagens. Se a tese católica acima fosse verdadeira, não seria difícil encontrar pais da igreja pré-nicenos apoiando a doutrina romanista. No entanto, quem se der ao trabalho de ler o artigo católico, perceberá que não se encontra qualquer evidência de pai da Igreja pré-niceno apoiando o culto às imagens ou ícones. Neste artigo, tratarei apenas do culto às imagens e aos ícones. Eu já tratei do culto às relíquias e sua falta de base histórica em outro artigo (aqui). Recomendo também os artigos do blog conhecereis a verdade (aqui) e heresias católicas (aqui  e aqui).

Epístola de Barnabé (131?)

A Epístola não foi escrita por Barnabé. Sua autoria é desconhecida e provavelmente a obra é do início do século II:

Moisés as tomou, e começou a descer, para levá-las ao povo. Então disse a Moisés o Senhor: "Moisés, Moisés, apressa-te a descer, pois teu povo, que fizeste sair da terra do Egito, pecou". Moisés compreendeu que eles ainda tinham feito para si imagens de metal fundido. Então ele atirou de suas mãos as tábuas e as tábuas da Aliança do Senhor se quebraram". Moisés, portanto, a recebeu, mas eles não foram dignos dela. (Ep. de Barnabé 14)

Esta não é uma condenação explícita. No entanto, a epístola demonstra a condenação aos judeus por criarem imagens. Levando-se em conta o contexto do séc. II, em que abundam escritos cristãos condenando os pagãos por cultuarem imagens, é muito provável que o autor da epístola também condenasse tal culto de forma geral, e não apenas no contexto pagão.

Aristides de Atenas (130?)

Aristides foi um apologista cristão do início do séc. II. Ele escreveu um livro ao imperador em defesa do cristianismo:

Vejamos, pois, quais destes [homens] participam da verdade e quais [participam] do erro. Os caldeus, com efeito, por não conhecerem a Deus, se extraviaram por detrás dos astros e passaram a adorar às criaturas no lugar d’Aquele que os havia criado; e fazendo daqueles [astros] certas representações, passaram a clamar às imagens do céu e da terra, do sol, da lua e dos demais astros ou luminares; e, confinando-os em templos, os adoram, dando-lhes nome de deuses, guardando-os com toda a segurança, para que não sejam roubados por ladrões, sem perceber que os que guardam são superiores aos guardados, e os que constroem são superiores às suas próprias obras. Assim, se os seus deuses são impotentes para sua própria salvação, como poderiam oferecer a salvação aos outros? Logo, se extraviaram os caldeus, prestando culto a imagens mortas e inúteis. (Apologia cap. 3)

Quando apresentamos citações como esta, os apologistas afirmam que a condenação se restringiria apenas ao contexto pagão. A questão é se Aristides, assim como os demais pais da igreja aqui citados, estariam condenando apenas um certo tipo de culto às imagens ou ícones ou tratar-se-ia de uma condenação geral. A natureza da argumentação de deixa claro que a condenação é um princípio geral. Percebam que ele critica as imagens porque estas precisariam ser guardadas por vigias, o que tornaria os guardadores superiores às imagens. Este argumento só faz sentido a luz de uma condenação geral. As imagens num contexto cristão também precisariam ser guardadas e protegidas. Seria inconcebível tal afirmação de Aristides se os cristãos também cultuassem imagens. Percebam que ele também condena o ato de confinar as imagens em templos, sem estabelecer nenhum tipo de qualificação. Se Aristides apoiasse o confinamento de imagens nos templos cristãos, ele provavelmente adicionaria qualificações a esta condenação aos pagãos, sob pena de estar sendo hipócrita.

Assim, se extraviaram gravemente os egípcios, os caldeus e os gregos, introduzindo tais deuses, fazendo imagens deles, e divinizando os ídolos surdos e insensíveis. E me admira como vendo seus deuses serrados, destruídos pelo fogo, cortados pelos artífices, envelhecidos pelo tempo, dissolvidos e fundidos, não compreendam que não existem tais deuses, pois quando nenhuma força possuem para sua própria salvação, como poderão ter providência pelos homens? (...) Fique provado então – ó Rei – que todos estes cultos para muitos deuses são obras que extraviam e levam à perdição, pois não se deve chamar deuses às coisas visíveis que não veem, mas deve-se adorar ao Deus invisível que tudo vê e criou. (Cap. 13)

Mais uma vez, ele critica o uso de imagens por estas serem destrutíveis e sujeitas ao envelhecimento. Tal argumento jamais poderia ser utilizado por um católico romano ou oriental.

Atenágoras de Atenas (133-190)

(...) nenhum dos ídolos pode escapar de ser fabricado por homens. Ora, se são deuses, como não existiam desde o princípio? Como são mais recentes que aqueles que os fabricaram? Que necessidade tinham, para nascer, dos homens e da arte? Tudo isso, porém, é apenas terra, pedras, matéria e arte supérflua. Há aqueles que dizem que isso são apenas estátuas, mas é aos deuses que elas se referem, que as procissões que a elas se fazem e os sacrifícios que se lhes oferecem terminam nos deuses e a eles se dirigem, que não existe, enfim, outro meio de aproximar-se dos deuses sem este: “os deuses são difíceis de aparecer claramente”. E que isso seja assim, apresentam como prova as atividades de alguns ídolos. (Petição em Favor dos Cristãos18)

Notem que o argumento pagão é o mesmo utilizado pelos modernos iconólatras. As imagens apenas representam aquele a quem o culto se dirige. 

Aceitemos, porém, que todos admitissem os mesmos deuses. E daí? Se o vulgo, incapaz de distinguir entre matéria e Deus, e de compreender a diferença que existe de uma para outro, recorre aos ídolos feitos de matéria, deveremos também adorar as estátuas para agradá-los? Nós, que distinguimos e separamos o incriado do criado, o ser do não-ser, o inteligível do sensível, e que damos nome conveniente a cada uma dessas coisas? Com efeito, se a matéria e Deus são a mesma coisa, e se trata apenas de dois nomes para a mesma realidade, não aceitando como deuses as pedras, a madeira, o ouro e a prata, cometemos uma impiedade; contudo, se existe imensa distância entre um e outro, como do artista para os instrumentos de sua arte, por que nos acusam? Como o oleiro e o barro, o barro é a matéria e o oleiro é o artista, assim Deus é o artífice e a matéria lhe obedece em vista da arte. Mas como o barro sem a ação do artista não pode por si mesmo converter-se em vasos, também a matéria, capaz de qualquer forma, não teria recebido em distinção nem figura nem ornato sem a ação do Deus artífice. Ora, nós não consideramos o vaso mais digno de honra do que o seu fabricante, nem as taças de ouro mais dignas de honra do que aquele que as fundiu, mas, se vemos nelas alguma habilidade artística, louvamos o artista e é este que colhe o fruto da glória dos vasos. (Petição em Favor dosCristãos 15)

Observem o “porque nos acusam”. Aristides e Atenágoras produziram tais obras para defender os cristãos de acusações pagãs. Uma das acusações pagãs era justamente o fato de cristão não usarem imagens no culto. Os defensores do cristianismo nunca corrigem os pagãos. Pelo contrário, eles explicam porque os cristãos não cultuam imagens. Observem como eles até poderiam ver mérito artístico na confecção da imagem, mas toda honra seria apenas do artista.

Justino Mártir (100-165)

Também não honramos, com muitos sacrifícios e coroas de flores, esses que os homens, depois de dar-lhes forma e colocá-los nos templos, chamam de deuses. Com efeito, sabemos que são coisas sem alma e mortas não têm forma de Deus. Nós não cremos que Deus tenha semelhante forma, que alguns dizem imitar para tributar-lhes honra. Na verdade, o nome e figura que levam são daqueles maus demônios que um dia apareceram no mundo. Por acaso, é preciso explicar-vos, se já o sabeis, a maneira como os artesãos dispõem a matéria, ora polindo e cortando, ora fundindo e cinzelando? Não só consideramos isso irracional, mas também um insulto a Deus, pois, tendo ele glória e forma inefável, dá-se o nome de Deus a coisas corruptíveis e que necessitam de cuidado. Muitos, apenas mudando a figura e dando forma conveniente através da arte, dão o nome de deus àquilo que serviu de instrumento ignominioso (...) É estupidez dizer que homens intemperantes fabricam e transformam deuses para ser adorados e que tais pessoas servem como guardas dos templos nos quais aqueles são colocados! (I Apologia 9:1-5)

Justino também cita com aprovação as seguintes palavras de Sibila:

Nos desviamos dos caminhos do Imortal, e adoramos os ídolos com uma mente estúpida e sem sentido - a obra de nossas próprias mãos e imagens e figuras de homens mortos. (Exortação aos Gregos 16)

Ele desaprova o culto às imagens porque elas representam pessoas falecidas. A questão é como um homem que também cultuava imagens poderiam utilizar tal argumento sem apresentar maiores qualificações? As imagens de santos também representam pessoas que já morreram. Um católico romano poderia usar tal argumento? Obviamente não. Nós temos acesso a uma quantidade razoável das obras de Justino. Nota-se que ele, assim como os demais autores cristãos, condenam o uso de imagens no culto pagão de forma genérica, sem qualquer qualificação restritiva. A partir do séc. V, quando o culto aos ícones toma forma crescente no seio da igreja, os autores cristãos realizam uma série de qualificações e distinções para demonstrar porque as imagens no culto cristão não incorriam nas mesmas condenações que os pagãos. O fato de os autores pré-nicenos não realizarem tais distinções para salvaguardar um suposto culto cristão das imagens é evidência de que o cristianismo primitivo não praticava tal culto.

Melito de Sardes (180)

Melito foi um importante bispo do século II. Ele escreveu:

Há pessoas que dizem - É para a honra de Deus que fazemos a imagem: para que possamos adorar o Deus que está oculto de nossa visão. Mas eles não estão cientes de que Deus está em todo país e em todo lugar, e nunca está ausente, e que não há nada feito que Ele não o saiba. Ainda tu, homem desprezível (...) comprou madeira do carpinteiro e esculpiu uma imagem insultuosa para Deus. Por isso ofereces sacrifício e não sabes que o olho que tudo vê também te vê, e que a palavra da verdade te repreende, e te diz: Como pode o Deus invisível ser esculpido? (Fragmento 1)

Irineu de Lião (130-202)

Esses homens [os hereges gnósticos] praticam magia, usam imagens, encantamentos, invocações e todos os outros tipos de arte estranha. (Contra as Heresias 1:24:5)

Denominam-se Gnósticos. Eles também possuem imagens, algumas delas pintadas, e outras formadas a partir de diferentes tipos de materiais; e afirmam que uma imagem de Cristo foi feita por Pilatos no tempo em que Jesus viveu entre eles. E coroam estas imagens e as expõem com as imagens dos filósofos do mundo, a saber, com as imagens de Pitágoras, de Platão, de Aristóteles e de outros. Eles têm também outras formas de honrar estas imagens, precisamente como os pagãos. (Contra as Heresias 1:25:6)

Esta citação demonstra cabalmente que o culto às imagens, ainda que num contexto não pagão, não era tolerado. Os gnósticos eram hereges, mas não eram pagãos. Eles tinham uma suposta imagem de Jesus. Irineu condena o uso de tal imagem e a honra prestada a ela, que remetia ao culto pagão. Os apologistas costumam apelar a conhecida distinção latria e dulia. Todavia, esta é uma construção teológica dos séculos posteriores, quando o culto aos ícones seria adotado. Os pais pré-nicenos não estabeleciam dois tipos de culto. 
   
Tertuliano (160-220)

Pois como poderia ele [Pedro no Monte da Transfiguração] ter conhecido Moisés e Elias, exceto estando no Espírito? As pessoas não poderiam ter suas imagens, estátuas ou retratos; pois a lei proibia. (Contra Marcião 4:22)

Tertuliano compreendia que a lei mosaica proibia criar imagens e estátuas, mesmo dos heróis da fé. Ele também atesta que o culto às imagens não fazia parte do judaísmo primitivo. A única forma de Pedro ver Moisés seria através do milagre da transfiguração. Ele não poderia vê-lo através de um retrato ou estátua, pois era proibido pela Lei.

Sabemos que os nomes dos mortos não são nada, assim como as imagens deles. Também sabemos que quando as imagens são formadas, sob esses nomes, realizam seu trabalho iníquo e exultam na homenagem prestada a eles, e fingem ser divinas - nada menos que espíritos amaldiçoados, do que demônios. (Do Espetáculo 10)

Ele argumenta que a imagem não é nada, pois representa um morto. Obviamente tal argumento poderia ser facilmente revertido às imagens de cristão já falecidos. Ainda afirma que são demoníacas.

Oferendas para apaziguar aos mortos eram consideradas como pertencentes à classe dos sacrifícios fúnebres, e estes são idolatria. A idolatria, na verdade, é uma espécie de homenagem aos que partiram, tanto um como o outro é um serviço aos mortos. Além disso, os demônios residem nas imagens dos mortos (...) esse tipo de exibição passou das honras aos mortos para honras aos vivos - isto é, para questores [superintendentes financeiros] e magistrados, para ofícios sacerdotais de diferentes tipos. No entanto, como a idolatria ainda se apega ao nome da dignidade, tudo o que é feito em seu nome parte de sua impureza. (Do Espetáculo 12)

Observem como esta condenação seria aplicável também ao moderno culto aos santos. Católicos cultuam aos santos na esperança de obterem deles sua intercessão. Tertuliano considera esta prática demoníaca. Observem que ele não distingue o culto aos mortos da honra que era prestada às autoridades. Ocorre que nos séculos posteriores foi justamente esse culto prestado às autoridades que inspiraria os cristãos a também cultuarem os mártires. Tanto um como outro são condenáveis. Isto deixa claro que Tertuliano não adotava a moderna distinção entre latria e dulia.

Em suma, se recusamos nossa reverência a estátuas e imagens apáticas, a própria contrapartida de seus originais mortos, com os quais falcões, ratos e aranhas estão tão bem familiarizados, não merece louvor ao invés de reprovação o fato de rejeitarmos o que vimos ser um erro? (Apologia 12)

Esta citação é retirada da apologia de Tertuliano. Ele está respondendo a crítica pagã aos cristãos por não cultuarem imagens. Ele insiste que a imagem não deve ser cultuada porque representa alguém que já faleceu, além do fato de a imagem estar sujeita a todo tipo de desgaste. Os cristãos não deveriam ser criticados, mas louvados por não cultuarem imagens.

Mesmo hoje em dia [a idolatria] pode ser praticada fora de um templo e sem um ídolo. Todavia, quando o diabo introduziu no mundo artesãos de estátuas, de imagens e de todo tipo de retrato, aquele antigo negócio rude de desastre humano ganhou dos ídolos um nome e um desenvolvimento. A partir de então, toda arte que de alguma forma produz um ídolo instantaneamente se tornou uma fonte de idolatria.  Uma vez que mesmo sem o ídolo a idolatria é cometida, quando o ídolo está lá não faz diferença de que tipo seja, de que material, ou que forma; para que ninguém pense que somente aquilo que é consagrado em forma humana deve ser chamado de ídolo. (Da Idolatria 3)

Ele critica a profissão dos artesãos a chamando de “negócio rude”. Tertuliano condenaria a feitura de imagens e ícones de formas humanas mesmo que para fins apenas artísticos – algo que eu particularmente não consideraria condenável. Obviamente ele não poderia conceber sequer o uso religioso de ícones ou imagens.  Diante dessas contundentes citações, os defensores dos ícones costumam apresentar a seguinte citação de Tertuliano:

Da mesma forma, quando proibiu fazer imagens de todas as coisas que estão no céu e na terra e nas águas, Ele também declarou as razões, como sendo proibitivo de toda a exibição material de uma idolatria latente. Ele acrescenta: “Não se prostrará a eles nem os servirá”. No entanto, a serpente de bronze que o Senhor depois mandou que Moisés fizesse não oferecia nenhum pretexto para a idolatria, mas destinava-se à cura daqueles que foram atormentados com as serpentes de fogo (...) Assim também os Querubins e Serafins de ouro eram puramente um ornamento na arca; adaptada à ornamentação por motivos totalmente distantes de toda a condição de idolatria, em virtude da qual é proibido fazer a imagem. (Contra Marcião 2:22)

Esta citação não contradiz nenhuma das anteriores. Tertuliano esclarece que a serpente não foi objeto de culto. Da mesma forma, os querubins e serafins eram meramente arte decorativa. Não havia qualquer tipo de honra religiosa envolvida. O relato da serpente de bronze nos fornece o paradigma da questão. Quando ela passou a ser objeto de culto, foi retirada. 

Clemente de Alexandria (150-215)

A própria lei apresenta a justiça e ensina a sabedoria pela abstinência de imagens. (Stromata 2:18)

Clemente faz eco ao ensinamento da lei mosaica sobre as imagens.

E mais uma vez, não use um anel, nem grave nele as imagens dos deuses, ordena Pitágoras, assim como nos tempos de Moisés em que foi expressamente decretado que nenhuma escultura esculpida, nem fundida, nem moldada, nem pintada deveria ser feita, para que não nos apeguemos a coisas de sentido, mas passemos para objetos intelectuais. Afinal, a familiaridade com a visão deprecia a reverência do que é divino; e adorar o que é imaterial pela matéria é desonrá-lo pelo sentido.  Portanto, os mais sábios dos sacerdotes egípcios decidiram que o templo de Atena deveria ser hypaethral [ao ar livre, sem teto], assim como os hebreus construíram o templo sem imagens. (Stromata 5:5)

O argumento de Clemente conduz a uma vedação geral quanto ao uso de imagens. 

Pois não é verdade que com razão não limitamos em qualquer lugar aquilo que não pode ser limitado; nem calamos nos templos feitos com as mãos aquilo que contém todas as coisas? Que trabalho de construtores, pedreiros e arte mecânica pode ser sagrado? Superior a estes não são os que pensam que o ar e o espaço em volta, ou melhor, o mundo inteiro e o universo são recebidos pela excelência de Deus? Era realmente ridículo, como os próprios filósofos dizem, que o homem, o brinquedo de Deus, faça Deus e que Deus seja o brinquedo da arte (...) Agora as imagens e os templos construídos pela mecânica são feitos de matéria inerte para que também eles sejam inertes, materiais e profanos; e se você aperfeiçoar a arte, eles participam da grosseria mecânica. Obras de arte não podem ser sagradas e divinas. (Stromata 7:5)

Está é mais uma condenação geral. Se as obras de arte não poderiam ser sagradas, segue-se que não podem ser objeto de culto.

Pois, na verdade, uma imagem é apenas matéria morta moldada pela mão do artesão. Mas não temos uma imagem sensível da matéria sensível, mas uma imagem que é percebida apenas pela mente: Deus, que é o único Deus. (Exortação aos pagãos 4)

Embora ele tome como exemplo a imagem da divindade, a crítica se aplicaria a qualquer tipo de imagem.

Mas é com um tipo diferente de feitiço que a arte te ilude (...) isso leva você a prestar honra religiosa e cultuar imagens e figuras. (Exortação aos pagãos 4)

Trata-se de uma condenação à iconolatria pagã, mas Clemente jamais poderia condená-los de tal forma, sem maiores qualificações, se ele próprio também cultuasse imagens.

Pois aquele [Deus] que proibiu a feitura de uma imagem de escultura, nunca teria feito uma imagem à semelhança das coisas santas. Nem há, de modo algum, qualquer coisa composta e criatura dotada de sensibilidade, do tipo que há no céu. (Stromata 5:6)

Esta citação atesta que as imagens não podem ser sagradas.

Orígenes (184-253)

Assim como descobrimos nesta atitude a abstenção do adultério, embora pareça a mesma, uma diversidade proveniente das doutrinas e das intenções, o mesmo ocorre com a recusa de honrar a divindade nos altares, nos templos e nas estátuas. Os citas, os nômades da Líbia, os seres, povo sem deus, e os persas fundamentam sua atitude em outras doutrinas diferentes daquelas pelas quais os cristãos e os judeus não toleram este culto que se pretende oferecido à divindade. Pois nenhum desses povos pode tolerar os altares e as estátuas porque se recusaria a exautorar e aviltar a adoração devida à divindade, dirigindo-a a matéria assim modelada. A razão também não é porque eles compreenderam que são demônios que essas imagens e locais encarnam, evocados por sortilégios, ou por eles mesmos terem de outro modo tomado posse dos lugares em que eles recebem gulosamente o tributo das vítimas e vivem à procura de prazer ilícito e de indivíduos sem lei. Mas os cristãos e os judeus têm estes mandamentos: “É ao Senhor teu Deus que temerás. Só a ele servirás” (Dt 6,13); “Não terás outros deuses diante de mim”; “Não farás para ti imagem esculpida de nada que se assemelha ao que existe lá em cima, nos céus, ou embaixo na terra, ou nas águas que estão debaixo da terra. Não te prostrarás diante desses deuses e não os servirás” (Ex 20,3-5); “Ao Senhor teu Deus adorarás e só a ele prestarás culto” (Mt 4,10); e muitos outros do mesmo teor. Por causa deles, não só se afastam dos templos, dos altares, das estátuas, mas também correm para a morte quando necessário, para evitar emporcalhar a noção do Deus do universo com uma infração deste gênero à sua lei (...) Aprendemos a não adorar “a criatura em lugar do Criador” (...) Aprendemos que não se deve honrar no lugar de Deus a quem nada falta, ou de seu Filho Primogênito de toda criatura, as coisas que foram submetidas à escravidão da corrupção e à vaidade, e estão na expectativa de uma esperança melhor (...) Devemos responder: é possível conhecer a Deus e seu Filho único, como os seres que são honrados por Deus com o título de deus e participam de sua divindade, e que são diferentes de todos os deuses das nações que por sua verdadeira natureza são demônios; mas na verdade não é possível conhecer a Deus e orar para as estátuas. (Contra Celso 7:64-65)

Os apologistas objetam que Orígenes está somente condenando as imagens da divindade. Contudo, observem que ele se refere à Deus e também Jesus seu filho. Logo, ele obviamente não cultuava imagens mesmo de Jesus. Os católicos tentam atribuir aos pais a distinção latria/dulia, mas isto não funcionaria para Orígenes, uma vez que tal distinção não é encontrada em nenhuma de suas obras.

Ainda que Celso qualifique como incultas, escravas, menos instruídas as pessoas que não compreendem seu ponto de vista e não assimilaram a ciência dos gregos, nós declaramos como os mais incultos aqueles que não se envergonham de se dirigir a objetos inanimados, de pedir a saúde à fraqueza, de procurar a vida junto à morte, de mendigar socorro à impotência. Aqueles que afirmam que tais realidades não são deuses, mas imitações dos deuses verdadeiros e seus símbolos, são igualmente pessoas sem educação, escravas, sem instrução, pois imaginam colocar as imitações nas mãos dos artífices; de tal forma, digamos, que mesmo os últimos dos nossos são libertados desta tolice e ignorância, ao passo que os mais sensatos concebem e compreendem a esperança divina. (Contra Celso 6:14)

Celso era um crítico pagão do cristianismo. Orígenes responde a acusação de incultura dos cristãos afirmando que os pagãos é que eram incultos por cultuarem imagens. Vejam que a crítica “se dirigir a objetos inanimados” expressa uma condenação geral. Ele não criticava os pagãos por se dirigirem ao objeto inanimado errado (como se houvesse o certo), mas de forma geral. Orígenes ainda atesta que tal prática não era cristã. Se Orígenes estivesse apenas condenando as imagens pagãs, não faria sentido afirmar que os cristãos não praticavam tal ignorância. Afinal, por definição, um cristão não cultuava deuses pagãos. A resposta do alexandrino, para ter sentido, só poderia se referir ao fato de que os cristãos não cultuavam objetos inanimados.

Minúcio Félix (150-220)

Minucio escreveu o relato de um debate (provavelmente fictício)  entre o cristão Otávio e o não cristão Cecílio. Uma forma de sabermos o que os cristãos de determinado período pensavam é analisando as críticas que os pagãos lhes faziam. Cecílio pergunta:

Por que eles não têm altares, nem templos, nem imagens reconhecidas? (Otávio Cap. 10)

O cristão Otávio responde:

Da mesma forma com relação aos deuses também, nossos ancestrais acreditavam descuidados, credulamente, com simplicidade não treinada. Enquanto cultuavam seus reis religiosamente, desejando olhar para eles quando mortos em formas externas, ansiosos para preservar suas memórias em estátuas. Essas coisas que se tornaram sagradas deveriam ser tomadas apenas como consolo. (Cap. 20)

Observe que Otávio (o cristão) não diz “não é bem assim, nós temos algumas imagens, só não prestamos o mesmo culto que os pagãos”. Ele confirma que os cristãos não têm altares, templos ou imagens. Ainda diz que o uso de imagens que serviram inicialmente para manter a memória dos reis passou a ser objeto de uso religioso. O cristão Otávio afirma então que apenas o uso memorial das imagens deveria ser mantido e não o uso sagrado. Isto se traduz numa negação ao culto dos ícones.   Otávio também tece uma crítica às imagens pagãs que é aplicável às imagens católicas:

Qual é o seu próprio Júpiter? Há casos em que ele é representado em uma estátua sem barba, em outros ele está com barba. (Cap. 21)

A mesma inconsistência se apresenta nas imagens católicas. Não se sabe qual a aparência de Maria por exemplo. Qual o sentido em se representar numa imagem alguém sobre a qual não temos qualquer noção a respeito de sua aparência? Além disso, as imagens são contraditórias na medida em que Maria é representada com diferentes aparências. Otávio condena também o ato de beijar imagens:

Cecílio, observando uma imagem de Serapis, levou a mão à boca e, como é costume das pessoas supersticiosas, beijou-a com os lábios. Então Otávio disse: “Não é conveniente a um homem bom, meu irmão Marcus [Minúcio Felix], abandonar um homem que habita ao seu lado nessa cegueira da ignorância vulgar. (Cap. 2)

Ele faz outra crítica às imagens aplicável ao culto católico:

Quanto mais verdadeiramente os animais mudos julgam seus deuses? Ratos, andorinhas, papagaios, sabem que eles não têm sensibilidade: eles os roem, pisam neles, sentam-se neles e, a menos que você os afaste, eles constroem seus ninhos na própria boca do seu deus. As aranhas tecem suas teias sobre o rosto e suspendem seus fios sobre sua própria cabeça. Você seca, limpa, raspa e protege (...) desejando sem consideração obedecer a seus ancestrais, preferindo acrescentar ao erro dos outros do que confiar em si mesmos. Nisso eles nada sabem do que temem. Assim a avareza foi consagrada em ouro e prata. Assim a forma das estátuas vazias foi estabelecida. Assim surgiu a superstição romana. (Cap. 24)

Agora, compare isso com a objeção católica de que os Pais da Igreja estavam apenas condenando o culto às imagens de deuses pagãos. Minúcio poderia usar tal argumento? Como poderia usá-lo se o mesmo se sucede às imagens de Maria e dos santos? Toda a natureza da argumentação pressupõe que nenhum tipo de imagem é utilizada no culto cristão. Otávio diz que os demônios são "consagrados sob estátuas e imagens" (27). Ele também diz:

Mas você acha que nós escondemos o que adoramos já que não temos templos e altares? E porque eu faria uma imagem de Deus se o próprio homem é feito à imagem dele? Que templo devo edificar a Ele se todo esse mundo formado por sua obra não pode recebê-lo? E como eu, um homem, limitarei o poder de tão grande majestade dentro de um pequeno edifício? Não seria melhor que Ele fosse dedicado em nossa mente, consagrado em nosso íntimo coração? (Cap. 32)

Observe que a pergunta inicial contém “já que não temos templos e altares”. Embora o exemplo de fundo seja Deus, ele confirma que os cristãos não tinham templos e altares. Isto obviamente coloca os cristãos primitivos muito distantes dos cristãos de eras posteriores que construíram templos com vários altares abrigando imagens.

Hipólito de Roma (170-236)

Hipólito escreve sobre profissões que os cristãos que se preparavam para o batismo deveriam abandonar:

Deve-se interrogar, também, a respeito dos trabalhos e ocupações exercidos por aqueles que se apresentam para ser instruídos. Aquele que possui prostíbulo: desista ou seja recusado. O escultor ou pintor: seja ensinado a não produzir ídolos, isto é, cesse ou seja recusado. O ator que representa no teatro: cesse ou seja recusado. (Tradição Apostólica 3:2)

Um escultor ou pinto não precisaria abandonar sua profissão caso houvesse costume entre os cristãos de fabricar esculturas ou ícones para veneração. Hipólito associava diretamente os ícones e as imagens aos ídolos.

E eles [os hereges] têm uma imagem de Simão (formada) na figura de Júpiter e (uma imagem) de Helena na forma de Minerva. Eles prestam adoração a eles. Eles o chamam de único Senhor e a outra de Senhora. E se qualquer um dentre eles, ao ver as imagens de Simão ou Helena, os chamar pelo nome, será rejeitado como sendo ignorante sobre os mistérios. (Refutação de todas as heresias)

Hipólito descreve o hábito de hereges gnósticos. Vemos que o culto às imagens era comum aos círculos heréticos e não aos cristãos ortodoxos.

Cipriano de Cartago (?-258)

E novamente: “Eles adoraram aqueles que seus dedos fizeram; e o homem mesquinho se dobrou, e o grande homem se humilhou, e eu não os perdoarei.' Por que você se humilha e se dobra a falsos deuses? Por que você inclina seu corpo em cativeiro diante de imagens tolas e criações da terra? Deus te fez justo; e enquanto outros animais estão em baixa, e estão deprimidos em postura curvada para a terra, a sua é uma atitude elevada; e o teu semblante é levantado para o céu e para Deus. (Ad Demetr cap. 16)

Você não adora a Deus nem permite que Ele seja adorado; e enquanto outros que veneram não apenas os ídolos e imagens tolas feitos pelas mãos do homem, mas até mesmo os prodígios e monstros são agradáveis a você. É somente o adorador de Deus que está desagradando a você. (Ad Demetr cap. 14)

Lactâncio

Que loucura é formar os objetos os quais eles mesmos podem temer depois ou temer as coisas que eles formaram? Mas, eles dizem, nós não tememos as imagens em si, mas aqueles seres cuja semelhança elas representam e para cujos nomes são dedicadas (...) O que são as próprias imagens senão memoriais dos mortos ou ausentes? Pois a ideia de fazer imagens foi criada pelos homens por esse motivo - para que fosse possível reter a memória daqueles que haviam sido removidos pela morte ou separados pela ausência. Em qual dessas classes devemos considerar os deuses? Se entre os mortos, quem é tão tolo a ponto de cultuá-los? Se entre os ausentes, então eles não devem ser cultuados, já que eles não veem nossas ações nem ouvem nossas orações. Mas se os deuses não podem estar ausentes - pois, uma vez que são divinos, veem e ouvem todas as coisas, em qualquer parte do universo que estejam - segue-se que as imagens são supérfluas, já que os deuses estão presentes em todos os lugares e é suficiente invocar com oração os nomes daqueles que nos ouvem. Mas se eles estão presentes, eles não podem deixar de estar à mão em suas próprias imagens. É inteiramente assim, como as pessoas imaginam, que os espíritos dos mortos perambulam pelas tumbas e relíquias de seus corpos. (Institutas Divinas 2:2)

Lactâncio constrói sua opinião sob o fato de que as imagens representam falecidos. Ele conclui que cultuar a imagem de um falecido é tolice. Há ainda uma segunda crítica. Se os falecidos invocados através de suas imagens podem ouvir orações a eles dirigidas em todo o mundo, o uso das imagens é supérflua. Ambas as críticas se aplicam ao catolicismo moderno, uma vez que é ensinado que Maria e os santos podem ouvir orações feitas aos milhões ao redor do mundo. Se Maria e os santos tivessem tal poder, a opinião de Lactâncio é que se deveria orar diretamente a eles, sem fazer o uso de imagens.

Portanto, é indubitável que não há religião onde quer que haja uma imagem. Pois se a religião consiste de coisas divinas, e não há nada divino exceto nas coisas celestiais; segue-se que as imagens são sem religião, porque não pode haver nada celestial naquilo que é feito da terra. (Institutas Divinas 2:19)

Esta condenação também se aplica ao culto às imagens. Uma vez que as imagens são objetos terrenos, elas não podem ser um canal especial de graça ou aproximar os crentes de Maria ou de santos que estariam no céu.

Sínodo de Elvira (306)

O Sínodo de Elvira foi realizado na Espanha e reverbera o consenso patrístico de até então sobre o culto aos ícones:

Ordenamos que não haja pinturas na Igreja, de modo que aquele que é objeto de nossa adoração não seja pintado nas paredes (Cânon 36)

Este sínodo é muito claro ao proibir que hajam pinturas na igreja. O objeto da adoração cristã (mesmo Jesus) não poderia ser pintado em paredes. Há toda uma tentativa de relativizar a condenação deste sínodo. Os apologistas católicos afirmam que a intenção do sínodo era apenas impedir que os itens sagrados fossem profanados pelos pagãos. Eles tentam fundamentar esta relativização em dois outros cânons do sínodo:

Qualquer um que escreve frases escandalosas em uma igreja deve ser condenado. (Canon 52)

Se alguém quebrou ídolos e foi condenado à morte por fazê-lo; uma vez que isto não está escrito no Evangelho, nem se acha que foi feito pelos apóstolos, não será incluído nas fileiras dos mártires. (Canon 60)

Como esses dois cânons conduz a conclusão de que o concílio proibiu as imagens na igreja apenas por razões de segurança é um mistério. Na verdade, se formos levar em conta o background da igreja pré-nicena, a explicação é absurda. Os cristãos desse período não utilizavam ícones no culto. Portanto, é totalmente descabido que os bispos espanhóis estavam apenas tentando proteger os próprios ícones. Ademais, o próprio cânon fornece a motivação da proibição “aquele que é objeto de nossa adoração não seja pintado nas paredes”. Ou seja, as imagens eram proibidas porque o objeto do culto cristão não deveria ser pintado em paredes. É uma justificativa teológica. Outro detalhe – o cânon fala especificamente de pinturas (o que chamamos em nosso estudo de ícones) e não inclui imagens (aqui consideradas as esculturas). Se os cristãos desse período cultuavam pinturas e esculturas e o objetivo do cânon era proteger os itens sagrados, eles também incluiriam as esculturas. Afinal, as esculturas, mais até do que as pinturas, estavam sujeitas à profanação pagã. Embora seja verdade que estudiosos católicos e ortodoxos tenham tentado relativizar o Cânon 36, a posição majoritária entre os acadêmicos tem sido seguir a leitura natural do texto. O estudioso de Cambridge Robert Grigg sumariza as posições acadêmicas:

O Cânon 36 do Sínodo de Elvira (300-306 DC) é dirigido exclusivamente a um público cristão. No entanto, como argumentarei, proíbe a introdução de imagens na igreja (...) Há hoje apenas duas interpretações geralmente preferidas. De acordo com estudiosos, notadamente Harnack e Leclercq, o Cânon 36 pretendia proibir totalmente que os cristãos cultuassem imagens (...) Um segundo grupo de estudiosos, Koch, Elliger, e Klauser, tentou explicá-lo como inspirado pela autoridade da proibição do antigo testamento contra as imagens. O Antigo Testamento proíbe fazer imagens, e por implicação, o mero ato de pintar coisas sagradas sobre paredes. Elliger e Lowrie pensaram que a presença de dois verbos “colitur” e “adoratur” foram inspirados em “non adorabis ea neque coles” de Êxodo 20:5 (...) O problema é que a proibição do Antigo Testamento pode ser e às vezes foi interpretada literalmente como categórica a respeito da produção de imagens. Como Tertuliano parece ter entendido, proibia a imagem de qualquer coisa, esteja no céu, ou debaixo na terra (Da Idolatria 4). Apologistas cristãos também citaram a própria passagem que categoricamente proíbe imagens. Eles interpretaram literalmente, então não estaria proibindo especificamente imagens que são reverenciadas e adoradas e, portanto, seriam insuficientes para explicar o medo explícito e específico do sínodo de que os objetos de culto fossem pintados nas paredes. Essa consideração faz com que seja atraente recorrer a uma explicação alternativa que foi sugerido por Edwyn Bevan:

A ênfase [do Cânon 36] está na palavra "paredes" e o explicativo ["ne quod colitur e adoratur in parietibus depingatur"] deriva seu significado da ideia de que uma imagem era algo depreciativo porque a substância sobre a qual ela foi pintada era material e o que era usado para pintá-la eram também material. Parecia essencialmente errado que um objeto de culto religioso fosse pintado em uma parede que era de madeira, tijolo ou pedra - matéria perecível.

A explicação de Bevan sobre o medo que motivou o Canon 36, além de explicar o sentido literal desta proibição específica, recebe apoio de dois apologistas latinos contemporâneos [ao Sínodo] - Arnóbio e Lactâncio. Eles mantiveram exatamente a mesma objeção ao culto às imagens. Evidentemente, essa ideia teve grande aceitação entre os cristãos na véspera da era constantiniana (...) Apologistas cristãos como Arnóbio usaram ironias para rejeitar totalmente o culto às imagens como uma forma inapropriada de culto. Arnóbio escreveu que os pagãos acusam os cristãos de serem ímpios por causa das imagens cultuais, mas os pagãos é que eram culpados de impiedade. Eles cultuavam imagens quando eles deveriam voltarem-se para os céus para irem a seus deuses, assumindo que eles de fato existissem (Contra os Pagãos 6) (...) Lactâncio usou argumentos semelhantes. As imagens eram produtos de homens com os quais se teria vergonha de associar-se, mera terra, fadadas a decair e desmoronar. Por que orar a coisas, pois a imagem de Deus é o homem sensível, não um objeto morto? A real divindade não ter a ver com coisas feitas da matéria (Institutas Divinas 2:2) (...) É exatamente por isso que os membros do Sínodo de Elvira tinham esses argumentos em mente para proibir a introdução de imagens na Igreja. O simples ato de circunscrever a divindade em pinturas nas paredes era um auto evidente sacrilégio (...) O Cânon 36 obriga a adoração anicônica da Igreja (...) Aquele que elaborou o cânon 36 deixou evidência de que os argumentos contra as imagens eram mais do que meras racionalizações usadas apenas contra os pagãos. Em vez disso, em pelo menos uma instância, eles foram usados para impor entre os cristãos a prática culto anicônico. (Grigg, R. (1976). AniconicWorship and the Apologetic Tradition: A Note on Canon 36 of the Council ofElvira. Church History, 45(4), 428-433)

Robert Grigg nos traz a disputa acadêmica a respeito do cânon 36. A hipótese de que o objetivo do cânon era apenas proteger os ícones da profanação não faz parte de nenhuma das duas correntes majoritárias. Ambos os grupos de estudiosos concordam inteiramente que o cânon visava proibir o culto às imagens na Igreja. Eles divergiam a respeito da motivação principal, mas não do conteúdo da proibição. Em apoio a isso, temos o testemunho de dois apologistas cristãos contemporâneos ao sínodo – Arnóbio e Lactâncio.

Arnóbio de Sica (? - 330)

Arnóbio foi um apologista cristão que escreveu provavelmente no final do século III ou início do século IV um livro contra os pagãos. Nesta obra, ele ataca o hábito pagão de cultuar imagens:

Aqui também os defensores das imagens costumam dizer isso - que os antigos sabiam que as imagens não têm natureza divina  e que não há sentido nelas - mas que eles as formavam proveitosa e sabiamente para o bem da multidão ignorante, a qual é maioria nas nações e nos estados, de forma que uma espécie de aparência, como se fosse de divindades, sendo apresentadas a eles, faria com que se livrassem de suas naturezas rudes por medo, e ao suporem que estavam agindo na presença dos deuses,  se afastariam de seus atos ímpios e mudariam suas maneiras, aprendendo a agir como homens.  (...) Por que você não levanta os olhos para o céu e, invocando seus nomes, oferece sacrifícios ao ar livre? Por que você olha para as paredes, madeira e pedra, e não para o lugar onde você acredita que eles estão? Qual é o significado de templos e altares? (Contra os Pagãos 6:24)

Toda argumentação de Arnóbio pressupõe que os cristãos não usavam imagens em seus cultos – que esta era uma prática tola dos pagãos. Ele também considera o uso das imagens supérfluo. Se o pagão acreditava que sua divindade estava no céu, bastaria erguer os olhos ao céu e invocá-lo. Da mesma, se Maria está no céu, bastaria invocá-la, sem fazer uso de qualquer imagem.

A arte cristã primitiva

Os apologistas romanos e orientais costumam citar os desenhos nas catacumbas e na igreja doméstica Dura Europo (meados do séc. III) como evidência do culto aos ícones no período primitivo. Estas imagens geralmente retratavam histórias bíblicas ou representavam outros símbolos cristãos como o peixe. Os desenhos mais antigos são do século III. Robin M. Jensen - especialista em arte cristã antiga e membro do departamento de teologia da Universidade Católica de Notre Dame - afirma:

Estudiosos geralmente concordam que a iconografia cristã surgiu apenas no século III. A ausência de anteriores e inequívocos artefatos cristãos levou muitos estudiosos a caracterizar os cristãos como inicialmente contrários aos ícones em grande parte em deferência às proibições bíblicas de imagens esculpidas e consideram o surgimento da arte pictórica como um desvio da reprovação original da igreja. Este ensaio afirma que os argumentos filosóficos clássicos foram ainda mais influentes na condenação cristã das imagens divinas do que os textos bíblicos e que, quando surgiu, a arte cristã serviu essencialmente para fins didáticos não idólatras e não devocionais. (Fonte)

Jensen nos fornece três importantes informações:

(1)   A iconografia cristã somente surgiu no séc. III, portanto, nada de dizer que remete ao período dos apóstolos. Isto pode parece banal, mas há quem diga que o evangelista Lucas pintou um quadro de Maria. Tratemos da origem dessa lenda em outro artigo;

(2)   Mesmo essa arte cristã inicial e rudimentar surgiu ao largo da aprovação da Igreja. Esta informação é incontestável a luz do testemunho patrístico do período. É por essa razão que as catacumbas fornecem evidência problemática para quem deseja estabelecer qual era a ortodoxia da Igreja. Não sabemos quem eram os autores dessas figuras, portanto, não podemos afirmar se pertenciam a um grupo ortodoxo ou herético. Por isso, quando desejamos estabelecer qual era a ortodoxia da igreja, apelamos aos apologistas e bispos;

(3) Não há evidência de que estes ícones eram objeto de veneração. O objetivo era basicamente instrutivo.

Ernst Kitzinger - reconhecido historiador de arte antiga e medieval- escreveu:

É um fato notável que quando a pintura e a escultura começaram a se infiltrar nas salas de reuniões cristãs e nos cemitérios, eles o fizeram praticamente de forma desapercebida, seja por oponentes ou apologistas do cristianismo - ainda que estes estivessem engajados em disputas apaixonadas sobre ídolos e idolatria. Nenhuma declaração literária anterior ao ano 300 faria alguém suspeitar da existência de quaisquer imagens cristãs além do mais lacónico e hieroglífico dos símbolos. (Kitzinger, Ernst, "The Cult of Images inthe Age before Iconoclasm", Dumbarton Oaks Papers, Vol. 8, (1954), p. 86)

Kitzinger atesta que a arte cristã primitiva surgiu a despeito da ortodoxia cristã do período. Isto explica porque os pais da igreja e os oponentes pagãos pressupunham que não havia nenhum tipo iconografia ligada aos cristãos. Era algo não oficial e não estimulado pela igreja e a julgar pela escassez arqueológica da iconografia cristã primitiva, deve ter sido  extremamente raro. Kitzinger também escreve no mesmo estudo:

Grande parte da arte das catacumbas romanas revela uma tentativa estudada de evitar qualquer suspeita ou encorajamento de práticas idólatras.

Jocelyn Toynbee concorda:

Na arte bidimensional aplicada deste tipo, nunca houve qualquer perigo de idolatria no sentido de adoração real de imagens de culto e pinturas. (Toynbee, Jocelyn (J. M. C.), Review ofFrühchristliche Sarkophage in Bild und Wort by T. Klauser, The Journal of RomanStudies, Vol. 58, Parts 1 and 2 (1968), pp. 294–296)

Ou seja, a arte cristã primitiva não pode ser tomada como evidência do culto aos ícones.

O consenso acadêmico

Muitos católicos romanos e ortodoxos podem argumentar que estamos realizando uma leitura protestante dos pais pré-nicenos. Após a abundante citação de fontes primárias, nos voltaremos às fontes secundárias e demonstraremos com o apoio de estudiosos romanos e ortodoxos que nossa leitura não está amparada apenas no consenso patrístico, mas também no consenso acadêmico:

O já citado Robert Grigg escreve:

É sabido que os porta-vozes da igreja cristã primitiva eram hostis às imagens religiosas (1). Eles consideravam a proibição do Antigo Testamento contra imagens (Êxodo 20:4 e Deuteronômio 5:8) como obrigatório para os cristãos (2). Apologistas cristãos como Clemente de Alexandria e Orígenes citaram a autoridade desta proibição. Eles defenderam o culto anicônico dos cristãos contra os ataques pagãos tomando emprestado [argumentos] de escritores pagãos. Os argumentos que eles tomaram emprestado descreviam o culto das imagens como uma forma de adoração ridiculamente inadequada que degradava os próprios deuses que buscavam honrar, comparando-os com o material de formação moldado por meros artesãos. Em contraste, a proibição do Antigo Testamento geralmente desempenhou um papel menor em suas apologias, mesmo quando sua autoridade era citada [I Apologia 9:1-5 de Justino Mártir, mas também Clemente de Alexandria em Exortação aos Pagãos 4:44-47, que anteciparia a maioria dos argumentos de Arnóbio em Contra os Pagãos 6:24].  (Grigg, R. (1976). AniconicWorship and the Apologetic Tradition: A Note on Canon 36 of the Council ofElvira. Church History, 45(4), 428-433)

Robert Grigg cita vários estudos que atestam a hostilidade dos primeiros cristãos às imagens religiosas na nota de rodapé 1:

(1) Os estudos indispensáveis dessa hostilidade são Charly Clerc, Les Theories relative au culte des smages ches les auteurs grecs du lie siecle apres J.-C. (Paris, 1915), pp. 125-168; Hugo Koch, Die altchristliche Bilderfrage nach den literarischen Quellez, Forschungen zur Religion und Literature des Alten und Neuen Testaments, no. 27 (Gottingen, 1917); Walter Elliger, Die Stellung der alten Christen su den Bildern in den ersten vier Jahrhunderten, Studien iiber christliche Denkmiler, no. 20 (Leipzig, 1930); N. H. Baynes, "Idolatry and the Early Church," Byzantine Studies and Other Essays (London,1955), pp. 116-143; Edwyn Bevan, Holy Images (London, 1940), pp. 84-112; and T. Klauser, "Die Aeusserungen der alten Kirche zur Kunst," Atti del VI congresso internazionale di archeologia cristiana, Ravenna 2-30S settembre 1962 (Rome, 1965), pp. 223-242.

São cinco estudos, dentre os quais há autores católicos romanos e ortodoxos. O especialista em história antiga David M. Gwyn escreve:

Os cristãos mantiveram essas convicções contra o uso de imagens no culto nos primeiros 300 anos. Um grande concílio da igreja, reunido em Elvira na Espanha no ano de 305, expressou sua reprovação conta algumas igrejas que apenas mantinham pinturas nas paredes. O Cânon 36 do Conselho de Elvira declara: “As imagens não devem ser colocadas nas igrejas, de modo que elas não se tornem objetos de culto e adoração.” Tenha em mente que até esta data tardia eles estavam se opondo apenas à presença da arte na Igreja; por exemplo, eles se oporiam ao nosso vitral, dizendo que ele tinha o potencial de se tornar idólatra. Não havia nenhum indício do uso imagens como “auxiliadores para adoração” ou “pontos de oração”. (David M. Gwynn, From Iconoclasm toArianism: The Construction of Christian Tradition in the Iconoclast Controversy[Greek, Roman, and Byzantine Studies 47 (2007) 225–251], p. 227)

Gwyn atesta que os primeiros cristãos não eram apenas contrários ao culto às esculturas e ícones, mas até mesmo ao uso da arte na igreja, seja para fins decorativos ou instrutivos. O renomado teólogo católico e autor do mais tradicional manual de teologia católica Ludwig Ott escreveu:

Devido à influência da proibição de imagens no Antigo Testamento, a veneração cristã de imagens só se desenvolveu após a vitória da Igreja sobre o paganismo. O Sínodo de Elvira (cerca de 306) ainda proibia representações figurativas nas casas de Deus (Can. 36). (Ludwig Ott, Fundamentals of Catholic Dogma [Rockford, Illinois: Tan Books and Publishers, Inc., 1974], p. 320)

O também católico romano Joseph Kelly atesta a oposição dos primeiros cristãos contra o culto às imagens (Fonte). A Enciclopédia Católica afirma:

Também explica o fato de que nas primeiras eras do cristianismo, quando os convertidos do paganismo eram tão numerosos, e a impressão de adoração de ídolos era tão nova, a Igreja achou aconselhável não permitir o desenvolvimento desse culto de imagens; mas mais tarde, quando esse perigo desapareceu, quando as tradições cristãs e o instinto cristão ganharam força, o culto se desenvolveu mais livremente. (Fonte)

A Enciclopédia também diz:

A origem do movimento contra a veneração das imagens tem sido muito discutida. Foi representado como um efeito da influência muçulmana (...) Por outro lado, não é provável que a principal causa do zelo dos imperadores contra as imagens fosse o exemplo de seu amargo inimigo, o chefe da religião rival. Uma origem mais provável será encontrada na oposição a imagens que existiu por algum tempo entre os cristãos. Parece ter havido uma antipatia por imagens sagradas, uma suspeita de que seu uso era ou poderia se tornar idólatra entre certos cristãos por muitos séculos antes do início da perseguição aos iconoclastas.

Embora suavize bastante a oposição às imagens e aos ícones nos círculos cristãos, a Enciclopédia Católica admite a existência desta antiga oposição:

Muito antes do surto do século VIII, havia casos isolados de pessoas que temiam o crescente culto de imagens e viam nele o risco de um retorno à antiga idolatria. Precisamos dificilmente citar neste contexto as expressões  dos padres apostólicos contra os ídolos (Atenágoras "Apelo pelos cristãos" XV-XVI; Teófilo "A Autólico" II; Minucio Félix "Otávio" XXVII; Arnobio "Contra os Gentios"; Tertuliano "Da Idolatria", I; Cipriano "De idolorum vanitate"), no qual eles denunciam não apenas o culto, mas até mesmo a fabricação e posse de tais imagens. Estes textos referem-se aos ídolos, isto é, imagens feitas para serem adoradas, mas o cânon XXXVI do Sínodo de Elvira é importante. Este foi um sínodo geral da Igreja da Espanha realizado aparentemente por volta do ano 300 em uma cidade perto de Granada (Hefele-Leclercq, "Hist. des Conc. ", I, 212-64).  Ele criou muitas leis severas contra os cristãos que recaíram na idolatria, heresia ou pecados contra o Sexto Mandamento. O cânon diz: "É ordenado (Placuit) que as pinturas não estejam nas igrejas, de modo que aquilo que é cultuado e adorado não seja pintado nas paredes" (ibid., P. 240). O significado do cânon foi muito discutido. De Rossi e Hefele pensaram que era apenas uma precaução contra possíveis profanações de pagãos que pudessem entrar em uma igreja (ibid). Dorn Leclercq ("Manuel d'archeologie", II, 140) e J. Turmel ("Rev. du clerge franc." 1906, XLV, 508) veem nele uma lei contra as imagens por princípio. Em qualquer caso, o cânon pode ter produzido um efeito ligeiro mesmo na Espanha, onde havia imagens sagradas no século IV, como em outros países. (Fonte)

O proeminente teólogo, historiador e bispo católico ortodoxo Kallistos Ware escreveu:

Foi somente em passos lentos que o uso de ícones se tornou estabelecido na Igreja. Reagindo contra o seu ambiente pagão, os primeiros cristãos estavam ansiosos por enfatizar acima de tudo o caráter exclusivamente espiritual do seu culto, e procuraram evitar qualquer coisa que pudesse ter sabor de idolatria: "Deus é Espírito, e aqueles que O adoram devem adorá-Lo em espírito e verdade" (João 4:24). A arte cristã primitiva - como encontrada, por exemplo, nas catacumbas romanas - mostra uma certa relutância em retratar Cristo diretamente, e Ele era na maioria das vezes representado de forma simbólica, como o Bom Pastor, ou como Orfeu com a sua lira, ou afins. Com a conversão de Constantino e o progressivo desaparecimento do paganismo, a Igreja tornou-se menos hesitante no uso da arte, e por volta do ano 400 dC tornou-se uma prática aceite representar nosso Senhor não somente através de símbolos, mas diretamente. (Extraído de “Christian Theology in the East,” in A History of Christian Doctrine, editado por Hubert Cunliffe-Jones [Philadelphia: Fortress Press, 1980], pp. 191-92

O também proeminente erudito patrístico católico ortodoxo John McGuckin escreveu:

O cristianismo, no período primitivo, parece ter compartilhado uma aversão comum ao judaísmo de pintar imagens em contextos religiosos (apesar de não absoluta como é demonstrado pela altamente decorada sinagoga do século II Dura Europos). O mundo helenístico era tão profundamente imerso na arte como um meio religioso que tanto a sinagoga como a igreja tornaram isto parte de sua apologia contra o falso culto, e os pensadores cristãos defenderam que apenas a imitação intelectual, espiritual e moral eram representações válidas de Deus na terra. Orígenes de Alexandria no terceiro século permanece imensamente hostil a ideia de arte figurativa, e escritores como Eusébio de Cesareia (ele mesmo um origenista) ou Epifânio de Salamina no quarto século eram também explicitamente hostis a ideia de arte retratando Cristo em qualquer maneira no culto da igreja. (Fonte)

O renomado estudioso ortodoxo oriental  - George Florovsky – identifica Orígenes como inspirador do movimento iconoclasta (Fonte). O renomado historiador protestante Philip Schaff afirma:

"A igreja primitiva", diz até mesmo um moderno historiador católico romano: "não tinha imagens, de Cristo, uma vez que a maioria dos cristãos da época ainda aderia ao mandamento de Moisés (Êxodo 4: 4). Tanto aos cristãos gentios quanto aos judeus proibia todo uso de imagens, para os quais a exibição e a veneração de imagens seriam obviamente uma abominação e para os pagãos recém-convertidos poderia ser uma tentação a recair na idolatria. Além disso, a igreja foi obrigada para sua própria honra se abster de imagens, particularmente de qualquer representação do Senhor, para que não fosse considerada pelos incrédulos meramente como um novo tipo de paganismo e adoração de criaturas” (Hefele, 1. c. p. 254). As primeiras representações de Cristo são de origem herética e pagã. A seita gnóstica dos carpocratianos adorava imagens coroadas de Cristo, junto com imagens de Pitágoras, Platão, Aristóteles e outros sábios e afirmava que Pilatos havia feito um retrato de Cristo (Contra as Heresias 1:25:6). No mesmo espírito de adoração de heróis panteístas o imperador Alexandre Severo (222-235 AD) instalou em sua capela doméstica para adoração as imagens de Abraão, Orfeu, Apolônio e Cristo. (Fonte)

Notem que Schaff cita o historiador católico romano Helefe. O artigo católico a qual respondemos citou Helefe como autoridade na questão da interpretação do cânon 36 de Elvira, mas parece não seguir seus posicionamentos quanto ao consenso de que os cristãos primitivos não cultuavam imagens. Larry Hurtado – reconhecido erudito neotestamentário e especialista em cristianismo primitivo – escreveu:

Os cristãos primitivos herdaram da tradição judaica da época a proibição do culto às imagens. Por esse motivo, entre outros, seu culto pareceu estranho a seus contemporâneos do mundo romano (...) A mais antiga arte cristã que chegou até nós data do terceiro século, ou talvez de fins do segundo século, e traz representações de Jesus. Contudo, não parece que funcionasse da mesma forma que as imagens cultuais dos deuses no contexto religioso geral. Em outras palavras, as imagens cristãs primitivas não parecem ter servido de objeto de culto. Essa ausência de imagens cultuais no judaísmo e no cristianismo, bem como sua recusa em prestar veneração às imagens de outros deuses, foi uma das principais razões pelas quais seus adeptos foram acusados de “ateísmo”. O uso generalizado de imagens cultuais na religião da era romana fez que judeus e cristãos, inclusive no templo de Jerusalém, se posicionassem, por uma questão de consciência, contra essa característica tão relevante daquele contexto religioso. (Fonte)


Enfim, há um consenso patrístico e acadêmico quanto à prática da veneração de imagens no período primitivo. Dessa forma, a alegação de que o ensino atual das igrejas católicas romana e oriental é aquilo que a igreja cristã sempre praticou é totalmente falsa.