terça-feira, 7 de junho de 2016

O episcopado monárquico foi instituído pelos Apóstolos? - Parte 1



Esta será uma série de três artigos. No primeiro lidaremos com a evidência bíblica e o testemunho histórico exegético de Jerônimo. O segundo tratará da evidência histórica extra canônica abarcando os séculos I e II. O terceiro discorrerá sobre a opinião majoritária dos historiadores católicos.  A igreja romana adota a forma episcopal de governo. Nesse modelo, a autoridade na igreja local é exercida de forma singular pelo bispo. Esse lideraria os presbíteros, que são os atuais padres ou sacerdotes, e os auxiliando estariam os diáconos. Outros modelos de governo seriam o presbiteriano, no qual um colégio de presbíteros (geralmente escolhidos pela congregação) governa a igreja e o modelo congregacional, em que as decisões são tomadas por todos os membros da igreja.

A igreja romana afirma que o episcopado monárquico foi instituído pelos apóstolos como uma regra de observância obrigatória. O protestantismo afirma que os apóstolos não instituíram um modelo obrigatório de governo, cabendo às igrejas dentro da margem de liberdade deixada, instituir formas que atendam aos princípios bíblicos gerais. Os debates apologéticos têm ignorado essa questão, mas se trata de um ponto central que pode falsear a igreja romana. As doutrinas da sucessão apostólica e do papado dependem da existência do episcopado monárquico. Se não havia um bispo monárquico ordenado por um apóstolo que por sua vez ordenou outro bispo monárquico e assim sucessivamente até os diais atuais, não há sucessão apostólica. A implicação é que não há papado, pois esse nada mais é do que a sucessão apostólica do bispo de Roma que remontaria a Pedro.

Obviamente, em algum momento (que nós situamos na parte final do século II), o episcopado monárquico se tornou a regra. Isso se deveu em grande parte aos conflitos internos entre os presbíteros da igreja e a luta contra as heresias.  As igrejas entenderam que tal modelo era mais adequado para enfrentar esses problemas. Por isso, não vamos aqui discutir períodos como o século III-IV. A questão não é se o modelo monárquico foi adotado pela igreja, pois de fato foi. A questão é se ele foi instituído como um modelo obrigatório pelos apóstolos e se de fato há uma sucessão de bispos monárquicos originada em algum apóstolo. Como é de se esperar, nosso foco estará sobre a igreja romana.  Pio X afirmou no juramento contra o modernismo:

Terceiro, eu acredito com fé igualmente firme que a Igreja, Guardiã e mestra da Palavra Revelada, foi instituída pessoalmente pelo Cristo histórico e real quando Ele viveu entre nós, e que a Igreja foi construída sobre Pedro, o príncipe da hierarquia apostólica, e seus sucessores pela duração dos tempos. Quarto: eu sinceramente mantenho que a Doutrina da Fé nos foi trazida desde os Apóstolos pelos Padres ortodoxos com exatamente o mesmo significado e sempre com o mesmo propósito. Assim sendo, eu rejeito inteiramente a falsa representação herética de que os dogmas evoluem e se modificam de um significado para outro diferente do que a Igreja antes manteve (...) Também rejeito o erro daqueles que dizem que a Fé mantida pela Igreja pode contradizer a história, e que os dogmas católicos, no sentido em que são agora entendidos, são irreconciliáveis com uma visão mais realista das origens da Religião cristã. Também condeno e rejeito a opinião dos que dizem que um cristão erudito assume uma dupla personalidade - a de um crente e ao mesmo tempo a de um historiador, como se fosse permissível a um historiador manter coisas que contradizem a Fé do crente, ou estabelecer premissas que, desde que não haja negação direta dos dogmas, levariam à conclusão de que os dogmas são falsos ou duvidosos. (Fonte)

Ludwig Ott, em seu "Fundamentos do Dogma Católico", observa que o ensino descrito no juramento é um ensinamento De Fide da RCC, embora o Papa Paulo VI tenha abolido o juramento em 1967. Portanto, o ensino da RCC é claro a respeito da instituição divina do episcopado.

Evidência bíblica

A discussão gira em torno dos termos πρεσβύτεροι (presbyteroi, "presbíteros" ou "anciãos") e ἐπισκόποι (episcopoi, "bispos" ou "supervisores"). O termo grego ἐπισκόποι é geralmente usado para um supervisor enquanto πρεσβύτεροι é o termo para "ancião". Este termo "ancião" pode referir-se a um líder, mas também pode se referir a um homem mais velho. Considerando-se que os homens mais velhos eram muitas vezes os líderes das congregações, a conexão linguística entre "homem velho" e "líder" parece ser um desenvolvimento natural.

Nos Atos os Apóstolos

Atos 6 narra a escolha dos primeiros diáconos. Nota-se que a escolha desses homens foi colegiada. Os escolhidos foram encaminhados aos apóstolos e esses os ordenaram por imposição de mãos. A função dos diáconos era servir às viúvas e ensinar as Escrituras.  Em Atos 11:30, após a profecia de Ágabo predizendo a grande fome que chegaria, os discípulos decidem enviar ajuda através de Paulo e Barnabé aos “anciãos da Judéia”. A partir disso, podemos concluir que a igreja da Judéia era liderada por presbíteros. Este padrão de estabelecer anciãos em cada localidade é explicado em Atos 14:23, onde Lucas narra que era a prática de Paulo e Barnabé ordenar anciãos em cada cidade.

O concílio de Atos 15 é especialmente esclarecedor. Os anciãos são citados seis vezes nesse capítulo (15:2, 4, 6, 22, 23). Apesar de Lucas apresentar figuras importantes como Pedro, Tiago, Paulo e Barnabé, a decisão conciliar é apresentada como fruto da deliberação dos apóstolos, dos anciãos e dos irmãos da igreja de Jerusalém (Atos 15:22-23). Todo o relato pressupõe dois níveis de autoridade: o colégio dos apóstolos e o colégio dos anciãos. Esta pluralidade de líderes no Concílio de Jerusalém também é testemunhada na igreja local de Éfeso. Em Atos 20:17, Paulo fala aos πρεσβυτέρους (presbíteros ou anciãos) da igreja de Éfeso. Como seria de esperar no modelo presbiteriano, Paulo menciona os líderes da igreja de Éfeso no plural e, em seguida, diz:

Preste muita atenção a vós mesmos e a todo o rebanho sobre o qual Espírito Santo vos constituiu ἐπισκόπους (bispos) [Atos 20:28]

O mesmo colégio que no vs. 17 é chamado de “presbíteros”, no vs. 28 é chamado de “bispos”. Claramente eram termos intercambiáveis para se referir ao mesmo cargo. Os presbíteros (anciãos) são posteriormente chamados de bispos (supervisores) porque eles foram chamados para “supervisionar” o rebanho de Deus.  Em resumo, o relato de Atos demonstra que as igrejas possuíam uma liderança colegiada e não monárquica. No concílio de Jerusalém, os líderes de todas as igrejas deliberam em conjunto com os apóstolos. Tiago tem uma contribuição importante, mas nada implica que fosse o bispo de Jerusalém.

Nas cartas pastorais

Paulo escreve:

Por esta causa te deixei em Creta, para que pusesses em boa ordem as coisas que ainda restam, e de cidade em cidade estabelecesses presbíteros [πρεσβυτέρους], como já te mandei: (Tito 1:5)

No vs. 7, é dito:

Porque convém que o bispo (ἐπίσκοπον) seja irrepreensível, como despenseiro da casa de Deus (...)

Em cada cidade deveria ser estabelecido presbíteros (plural) – o que aponta para uma liderança colegiada. Mais uma vez, vemos a sobreposição dos termos. Bispos e presbíteros se referem ao mesmo cargo. O vs. 7 faz uso do singular porque se refere aos requisitos do bispo como indivíduo, porém, quando se refere à liderança da igreja (vs. 5), é usado o plural. Já em 1 Timóteo 3:1-2:

Esta é uma palavra fiel: se alguém deseja o episcopado, excelente obra deseja. Convém, pois, que o bispo (ἐπίσκοπον) seja irrepreensível, marido de uma mulher, vigilante, sóbrio, honesto, hospitaleiro, apto para ensinar.

Paulo mais uma vez se refere aos requisitos do episcopado – por isso utiliza o singular. Mas em 1 Timóteo 5:17:

Os presbíteros (πρεσβύτεροι) que governam bem sejam estimados por dignos de duplicada honra, principalmente os que trabalham na palavra e na doutrina.

E no vs. 19:

Não aceites acusação contra o presbítero (πρεσβύτεροι), senão com duas ou três testemunhas.

Além da equivalência dos termos, notamos que quando Paulo se refere à liderança da igreja local, o termo sempre está no plural. Um argumento utilizado por muitos católicos é apontar Tito e Timóteo como bispos. Eles seriam a prova da sucessão apostólica, pois teriam sido ordenados por Paulo e comissionados a ordenar outros homens mantendo assim a sucessão apostólica. O problema desse argumento é que nem Tito ou Timóteo ou qualquer dos outros companheiros de Paulo (Barnabé, Silas) são descritos no N.T como bispos. Um bispo é por definição o pastor estável de uma igreja local. Esses homens não eram pastores de igrejas locais, eles eram auxiliares do apóstolo e tinham um ministério igualmente itinerante. O mesmo raciocínio se aplica aos apóstolos. Quando os católicos colocam Pedro como o primeiro bispo de Roma, apelam a uma visão anacrônica. Pedro, assim como os outros apóstolos, desempenhava um ministério itinerante e viajavam por vários lugares plantando igrejas e as deixando sob a supervisão de líderes locais. O teólogo jesuíta Francis Sullivan confirma:

Em nosso calendário litúrgico Timóteo e Tito são chamados de "bispos", mas Paulo não os deixou como líderes residenciais permanentes daquelas igrejas; eles permaneceram missionários e se juntavam a Paulo quando tinham terminado sua tarefa atual (Tito 3:12; 2 Timóteo 4: 9, 11, 21). (From Apostles to Bishops: the development of the episcopacy in the early church. Newman Press, Mahwah (NJ), 2001, p. 72)

Sobre os apóstolos, o especialista católico escreve:

O primeiro problema [com a noção de sucessão apostólica] tem a ver com a noção de que Cristo ordenou os apóstolos como bispos (...) Um bispo é um pastor residencial que preside de forma estável sobre a igreja de uma determinada cidade e seus arredores. Os apóstolos eram missionários e fundadores de igrejas; não há evidência, e nem é de todo provável, que quaisquer deles tenham tido residência permanente em alguma igreja em particular como bispo. (Ibid, p. 14)

Além de tudo, apesar de Tito ter sido encarregado de ordenar presbíteros em Creta, o mesmo não ocorre com Timóteo. Como a igreja de Éfeso já possuía presbíteros, são eles que impõem as mãos sobre Timóteo o ordenando ao episcopado (1 Timóteo 4:14-16). O argumento da sucessão apostólica se “quebra”, pois não há um bispo ordenado por algum apóstolo ordenando outro bispo e assim mantendo a sucessão. O que temos é um colégio de presbíteros, dos quais não há qualquer evidência de que foram todos ordenados por algum apóstolo, ordenando outro homem que sequer atuaria como um bispo local, mas como um missionário auxiliar de Paulo. Teólogos católicos e protestantes tem observado que a ênfase das cartas pastorais não recai sobre uma sucessão de autoridade oficial, mas uma sucessão de doutrina. O erudito bíblico I. Howard Marshall comenta:

As epístolas pastorais não estão interessadas numa detalhada ordem da igreja. Certamente o pensamento de sucessão está presente, mas o propósito da ordenação não é primariamente a transmissão da autoridade oficial, mas a transmissão segura da tradição que foi confiada ao funcionário. É uma sucessão no ensino, e não na autoridade oficial. Em suma o que domina as epístolas pastorais não é o "princípio do ofício", mas o "princípio da tradição". (I. Howard Marshall, International Critical Commentary, The Pastorals, [T & T Clark: Edinburgh, 1999], 514)

O também erudito bíblico Gordon Fee escreve:

A evidência nas epístolas pastorais corresponde muito de perto a esse [pluralidade de liderança na igreja] estado das coisas. Embora alguns tenham argumentado que Timóteo e Tito foram nomear um único bispo, sob o qual haveria um grupo de diáconos, a exegese das passagens-chave (1 Timóteo 3:1-2, 8, 5:17; Tito 1:5- 7) e uma comparação com Atos 20:17, 28 indica o contrário. Em todos os casos a liderança era plural. Esses líderes são chamados de presbíteros em 1 Tm. 5:17 e Tito 1:5. Eles foram nomeados em Creta por Tito, mas tinham sido nomeados alguns anos antes, em Éfeso, provavelmente pelo próprio Paulo. O termo "anciãos" é provavelmente um termo aplicável tanto para bispos como diáconos. Em qualquer caso, a gramática de Tito 1:5,7 demanda que "presbítero" e "bispo" são termos intercambiáveis (como em Atos 20:17,28). (Gordon Fee, “Reflections on Church Order in the Pastoral Epistles, with Further Reflection on the Hermeneutics of Ad Hoc Documents” JETS 28/2 (1985) 141-151)

Nas Epístolas Católicas

William Lane – autor do artigo “Judaísmo e Cristianismo no primeiro século em Roma” – também defende a tese de que o cristianismo em Roma era caracterizado pelo fracionamento. Havia diversas igrejas domésticas que funcionavam sem a existência de qualquer bispo monárquico. William defende que Hebreus foi dirigida aos romanos. O seu argumento tem as seguintes premissas:

1. As alusões a generosidade em Hebreus 6:10-11 e 10:33-34 concordam com Roma sendo rica.
2. A descrição do sofrimento primitivo contida em 10: 32-34 é congruente com a expulsão dos cristãos em 49.
3. A multiplicidade de líderes em Hebreus 13:7 que estão sendo chamados de "proegoumenoi" é usado apenas por aqueles que escrevem para ou de Roma.
4. Hebreus é primeiramente conhecido como sendo utilizado em Roma (1 Clemente 36:1-6) (“Social Perspectives on Roman Christianity during the Formative Years from Nero to Nerva: Romans, Hebrews, 1 Clement” in Judaism and Christianity in First-Century Rome, Ed. Karl P. Donfried & Peter Richardson Wipf & Stock: Eugene, 1998)

Se como muitos estudiosos tem afirmado, Hebreus reflete a realidade do cristianismo em Roma, temos aí uma evidência da liderança colegiada dessa igreja. Passagens chaves como Hebreus 13:7 apontam claramente uma liderança plural. Passemos a outra importante evidência. Lemos em 1 Pedro 5:1-3:

Aos presbíteros, que estão entre vós, admoesto eu, que sou também presbítero com eles, e testemunha das aflições de Cristo, e participante da glória que se há de revelar: Apascentai o rebanho de Deus, que está entre vós, tendo cuidado dele, não por força, mas voluntariamente; nem por torpe ganância, mas de ânimo pronto; Nem como tendo domínio sobre a herança de Deus, mas servindo de exemplo ao rebanho.

Pedro se refere aos líderes da igreja como presbíteros e no plural. É importante mencionar que algumas variantes textuais (não é o caso do códice vaticano e sinaítico) incluem o comando de supervisionar (ἐπισκοποῦντες) as igrejas sob seus cuidados. Independentemente de estar ou não contido no original, essa variante evidencia que o escriba enxergava os termos para presbítero e bispo como intercambiáveis.  O erudito católico Raymond Brown escreve:

A ideia de que Pedro falou como "igualmente presbítero" dizendo aos presbíteros como se comportar não é diferente da de Paulo nas pastorais dando as qualificações para os presbíteros-bispos. Assim, nas igrejas associadas às três grandes figuras apostólicas do NT, Paulo, Tiago e Pedro, presbíteros eram conhecidos e estabelecidos no último terço do século. (Raymond Brown, “Episkope and Episkopos: The New Testament Evidence,” Theological Studies 41 (1980), 336)

Brown aponta também Tiago. Ele escreve que se alguém na igreja está doente, os presbíteros da igreja devem ser chamados para ungir e orar pelo enfermo (Tiago 5:14). Esse é um contexto em que menção ao bispo monárquico local era esperada. Outra evidência é encontrada em Filipenses 1:1:

Paulo e Timóteo, servos de Jesus Cristo, a todos os santos em Cristo Jesus, que estão em Filipos, com os bispos e diáconos.

Paulo obviamente se dirige à liderança da igreja local de Filipos. Se houvesse algum bispo monárquico, a menção esperada seria “bispo (singular), presbíteros e diáconos”. Contudo, a liderança era colegiada (bispos no plural), sem qualquer menção de outro nível de liderança além dos diáconos. Uma última evidência é o caso de Diótrefes. Sobre ele, o apóstolo João escreveu:

Tenho escrito à igreja; mas Diótrefes, que procura ter entre eles o primado, não nos recebe. (3 João 9)

Diótrefes procurava ter o primado entre um grupo (entre eles). Isso sugere que a liderança de tal igreja era colegiada e que o usurpador em questão era aquele que desejava ser o bispo monárquico. Brown escreve que Diótrefes “fez de si mesmo o primeiro na comunidade joanina” (Ibid). Depois de uma exaustiva análise da evidência do N.T, estamos habilitados para dizer que não há qualquer conceito de episcopado monárquico nos escritos canônicos.

O testemunho exegético de Jerônimo

Apesar de esse artigo ser direcionado à evidência bíblica, consideramos o testemunho de Jerônimo pertinente. Sua exegese dos textos bíblicos chaves coincide com o que já expomos:

Nós lemos em Isaías as palavras: "o tolo fala tolices". Disseram-me que alguém foi louco o suficiente para colocar os diáconos antes dos presbíteros, isto é, antes dos bispos. Uma vez que o apóstolo ensina claramente que os presbíteros são os mesmos que os bispos, portanto, não devem ser meros servidores de mesas e das viúvas [Atos 6:1-2], não é loucura colocar-se arrogantemente acima dos homens por cujas orações o corpo e o sangue de Cristo são produzidos? Você quer uma prova do que digo? Ouça esta passagem: “Paulo e Timóteo, servos de Jesus Cristo, a todos os santos em Cristo Jesus que estão em Filipos, com os bispos e diáconos” [Fp. 1:1]. Você quer outra passagem? Nos Atos dos Apóstolos Paulo fala para os sacerdotes de uma igreja individual: "Guardai de todo o rebanho, sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para alimentar a igreja de Deus, que ele comprou com o seu próprio sangue" [Atos 20:28]. E para que ninguém num espírito de discórdia argumentasse que deveria haver mais de um bispo sobre cada igreja local, há a seguinte passagem que prova claramente que presbítero e bispo eram o mesmo. O apóstolo escreve a Tito: “A razão de tê-lo deixado em Creta foi para que você pusesse em ordem o que ainda faltava e constituísse presbíteros em cada cidade, como eu o instruí [Tito 1:5]. ”

E a Timóteo diz: "Não desprezes o dom que há em ti, o qual te foi dado por profecia, com a imposição de mãos pelo presbitério" [1 Timóteo 4:14]. Pedro também diz em sua primeira epístola: "Portanto, apelo para os presbíteros que há entre vocês, e o faço na qualidade de presbítero como eles e testemunha dos sofrimentos de Cristo, como alguém que participará da glória a ser revelada: Pastoreiem o rebanho de Deus que está aos seus cuidados. Olhem por ele, não por obrigação, mas de livre vontade, como Deus quer [1 Pedro 5:1-2]." No grego, o significado é ainda mais claro, pois a palavra usada é επισκοποῦντες, isto é, supervisor, e esta é a origem do termo bispo. Mas talvez o testemunho desses grandes homens lhe pareça insuficiente. Se assim for, ouça o som da trombeta do evangelho, o filho do trovão, o discípulo a quem Jesus amava João e que reclinou sobre o peito do Salvador e bebeu nas águas da sã doutrina. Uma de suas cartas começa assim: "O presbítero à senhora eleita e aos seus filhos, a quem amo na verdade [2 João 1:1]". E outro assim: "O presbítero ao amado Gaio, a quem amo na verdade [3 João 1:1]".

Quando posteriormente um presbítero foi escolhido para presidir o resto, isso foi feito para sanar o cisma e impedir cada indivíduo de rasgar a igreja de Cristo, chamando-o para si mesmo. Pois ainda em Alexandria desde o tempo de Marcos o Evangelista até o episcopado de Heraclas e Dionísio, os presbíteros sempre nomearam como bispo alguém escolhido dentre eles e o colocavam na posição mais elevada, assim como um exército elege um general, ou os diáconos nomeiam um entre si alguém que eles sabem que é diligente e o chamam de arquidiácono. Qual função, com exceção da ordenação, pertence a um bispo que também não pertence a um presbítero? Se se trata de autoridade, o mundo é muito maior do que uma cidade. Por que me invocas a prática de uma só cidade [Roma]? Por que submetes a ordem da Igreja a um pequeno número, do qual procede a presunção? Onde quer que há um bispo, seja em Roma ou em Gubbio, seja em Constantinopla ou em Reggio, tem a mesma dignidade e sacerdócio. O poder das riquezas e a humildade da pobreza não fazem o bispo superior ou inferior, todos são igualmente sucessores dos apóstolos.

Mas você vai dizer: como, então, que em Roma um presbítero é ordenado apenas pela recomendação de um diácono? Ao qual eu respondo como se segue. Por que você apresenta um costume que existe em uma única cidade? Por que você se opõe às leis da Igreja uma exceção insignificante que deu origem à arrogância e orgulho? (...) O termo presbítero indica idade e o termo bispo o cargo. Ao escrever a Tito e Timóteo, o apóstolo fala da ordenação de bispos e de diáconos, mas não diz uma palavra sobre a ordenação de presbíteros, pois o fato é que a palavra bispos incluía presbíteros também. (Epístola 146)

Jerônimo esclarece que no tempo dos apóstolos não havia episcopado monárquico. Bispo e presbítero são termos intercambiáveis no Novo Testamento para se referir ao mesmo cargo. Isso tem importantes implicações. Diante desse testemunho contundente, ortodoxos e romanistas argumentam que o desenvolvimento posterior a que Jerônimo se refere ocorreu ainda no período apostólico. Inicialmente, os apóstolos instituíram uma estrutural presbiteral, depois teriam instituído uma nova forma de governo. Ocorre que isso não se encaixa com as palavras de Jerônimo. Ele afirma que o episcopado monárquico ocorreu depois de citar o testemunho do último apóstolo – João. Ele dá a entender que o fato é posterior ao período apostólico. Outro problema é que muitas igrejas demorariam muito tempo até desenvolver o posto de bispo monárquico (algumas mais de um século). Se algum apóstolo tivesse instituído uma nova estrutura, esperar-se-ia que já em meados do séc. II todas as igrejas apresentassem um bispo monárquico. Roger Beckwith comenta:

Além de Jerônimo, outros escritores do século IV como Ambrosiastro, Crisóstomo e Teodoro de Mopsuéstia continuam a reconhecer que presbítero e bispo eram originalmente o mesmo. (Elders In Every City [Waynesboro, Georgia: Paternoster Press, 2003], n. 13 on p. 24)

Jerônimo também escreve:

Portanto, como temos demonstrado, os presbíteros antigos e os bispos eram os mesmos. Mas, gradualmente, para que as sementes da dissensão pudessem ser arrancadas, toda a responsabilidade foi transferida para uma pessoa. Assim, os presbíteros sabem que é pelo costume da Igreja que estão sujeitos àquele que é colocado sobre eles, então que os bispos saibam que estão acima dos presbíteros pelo costume e não por determinação divina, e que devem governar a Igreja em comum, seguindo o exemplo de Moisés, que quando ele somente tinha poder para presidir o povo de Israel, escolheu setenta, com a ajuda dos quais poderia julgar os povos. (Commentariorum Em Epistolam Ad Titum, PL 26:563)

Jerônimo esclarece que o episcopado monárquico é um costume e não uma determinação divina. Dessa forma, ele obviamente não poderia acreditar que os apóstolos instituíram essa forma de governo. Outro argumento utilizado é que não há registro de controvérsias sobre essa mudança no governo da igreja. Isso se deveria ao fato de que tal mudança foi instituída por algum apóstolo.  Alguns também argumentam que a alteração foi decidida por algum concílio. Somente isso explicaria uma mudança tão relevante sem deixar controvérsias. Porém, o argumento tem os seguintes problemas:

(1) A mudança foi gradual. O episcopado monárquico surgiu mais cedo nas igrejas da Ásia, como atestam as epístolas de Inácio. No entanto, em outras igrejas como Roma e Corinto demoraria décadas a mais para emergir. Essa gradualidade e não uniformidade da mudança sugere que ela não foi instituída por nenhuma instancia superior de autoridade como um apóstolo ou concílio;

(2) Nós temos pouquíssimo registro histórico do período. Com exceção do Novo Testamento, que traça o histórico do período inicial da igreja, há pouca documentação histórica do que aconteceu no final do primeiro século e início do segundo. Portanto, é espero que controvérsias como essa possam tem ocorrido sem deixar registro;

(3) Outras mudanças na estrutura da igreja ocorreram sem igualmente deixar registro histórico de controvérsia. O N.T e a Didaquê claramente apontam que um ofício importante na igreja primitiva era o de profeta. Todavia, esse cargo desapareceu da igreja no século II. Uma vez que a Didaquê provavelmente foi escrita após o período apostólico, esse desaparecimento não se deveu a ordem de algum apóstolo. Ainda assim, o cargo desapareceu sem registro de qualquer controvérsia;

(4) Mesmo uma mudança introduzida pelos apóstolos causaria controvérsia. O N.T atesta que as decisões do concílio de Jerusalém não foram aceitas sem polêmica. Paulo atesta que sua própria autoridade apostólica era contestada. Isso evidencia que a falta de registro explícito de tais controvérsias é um argumento do silêncio pouco qualificado. 

2 comentários:

  1. Já como deve estar cansado dos apologistas católicos que costuma debater com você, recomendo este texto: http://www.calledtocommunion.com/2014/06/the-bishops-of-history-and-the-catholic-faith-a-reply-to-brandon-addison/

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    1. Já li esse artigo e os argumentos ai expostos já foram respondidos nesse blog.

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